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Informação e análise

Lula apresentou no debate a ideia de nova Constituinte

Por ironia da história, a ideia de reescrever a Constituição seduz tanto o governo Jair Bolsonaro quanto um pedaço da oposição liderada por Lula

Por José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 out 2022, 08h00 | Atualizado em 17 out 2022, 17h12
Lula apresentou no debate a ideia de nova Constituinte Priorizar nos meus resultados Google

Na reta final da eleição presidencial, Lula levou apresentou a ideia de uma nova Constituinte.

Fez isso no debate com Jair Bolsonaro, ontem, na Rede Bandeirantes, ao responder à repórter Vera Magalhães sobre propostas para mudar o Supremo Tribunal Federal que, em tese, confrontam fundamentos constitucionais de separação e independência entre Poderes.

“Eu, sinceramente, eu estou convencido que tentar mexer na Suprema Corte para colocar amigo, para colocar companheiro, para colocar partidário, é um atraso. É um retrocesso que a República brasileira já conhece, já conhece muito bem, e eu sou contra”, disse o ex-presidente, líder nas pesquisas.

Acrescentou: “Eu acho que a gente pode discutir no futuro, se tiver uma nova Constituinte, sabe, quem sabe ter mandato ou não [para juízes do SFT], quem sabe as pessoas terem uma limitação maior. Mas eu acho que a Suprema Corte tem que ser escolhida por competência, por currículo, e não por amizade.”

Lula pode ser acusado de muita coisa — e tem sido —, menos de ingenuidade. Ele sabe exatamente o que está dizendo.

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Trinta e seis anos atrás, ganhou seu primeiro mandato com votação recorde (650 mil votos) para a Assembleia Nacional Constituinte. Na bancada de deputados federais paulistas estava, também, Geraldo Alckmin, hoje seu candidato a vice-presidente. Em 1988, o Partido dos Trabalhadores foi o único a votar contra a redação final da Constituição, mas, depois, aceitou que seus 16 parlamentares assinassem a Carta.

A menção de Lula a uma nova Constituinte pode parecer casual, mas não é. Há pelo menos nove anos o PT discute o tema.

Em 2013, propôs e a então presidente Dilma Rousseff aceitou como resposta aos protestos de rua disseminados pelo país. Ficou no papel. O governo deixou-se consumir numa crise com o Congresso, cujo epílogo foi o impeachment de Dilma três anos mais tarde.

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Na eleição de 2018, a proposta de uma nova Constituinte foi ressuscitada no programa de governo do PT. Primeiro com Lula, que estava preso mas era apresentado como candidato, depois com o substituto que ele escolheu para a disputa com Bolsonaro: Fernando Haddad, hoje candidato ao governo de São Paulo.

Por ironia da história, a ideia de uma nova Constituinte seduz tanto o governo Bolsonaro quanto um pedaço da oposição liderada por Lula.

Na crise pandêmica, foi tema frequente em reuniões no Palácio do Planalto, sempre com foco na reforma do Judiciário e do Ministério Público, sob o argumento predileto de Bolsonaro de de que a Justiça mais atrapalha do que ajuda seu governo. No dia 20 de abril, quando a pandemia avançava, Bolsonaro chegou a proclamar em discurso: “Eu sou a Constituição.”

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Um dos seus líderes no Congresso até anunciou um projeto de decreto legislativo para um plebiscito sobre a elaboração de uma nova Constituição. A forte reação do Judiciário, na época, deixou o deputado Ricardo Barros (PP-PR) emudecido.

Semana passada, em coro com Bolsonaro, ele voltou à ofensiva: “Se o Judiciário permanecer nesse nível de ativismo político, isso vai ter reação do Poder Legislativo de forma muito severa. O que estamos discutindo é uma reação a um ativismo político do Judiciário.”

Em 2020, enquanto o Bolsonaro discutia o projeto com líderes do Centrão, o PT de Lula divulgou seu projeto para “reconstrução e transformação do país” — esboço de diretrizes para o programa de governo da campanha presidencial deste ano.

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Em 215 páginas, alinhou reformas que julga “necessárias ao desenvolvimento soberano”, como “agrária, da mídia, jurídica, tributária, e, inclusive, militar”, a partir de “uma profunda reforma política do Estado que mude radicalmente as atuais instituições”.

Prosseguiu: “O PT é imprescindível para derrotar o golpismo e convocar uma Assembleia Constituinte Soberana, o meio democrático de promover aquelas reformas, com a legitimidade de um novo governo e Lula inocente. Uma nova Constituinte não pode ser concebida como ponto de partida, mas como um ponto central no próprio processo político de ascensão da luta democrática e de (re)constitucionalização do país.”

Desde o segundo semestre do ano passado, uma coalizão de correntes petistas em 20 estados pressiona pela incorporação do projeto de uma nova Constituinte no programa de Lula.

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No começo, ele rejeitou, argumentando com a necessidade de construir uma frente política – “um movimento” — em torno da sua candidatura. Ontem, no debate, admitiu a possibilidade.

Constituições são feitas para durar. A que está aí completou 34 anos no último dia 5. Nesse período foi transformada num periódico, com emendas a cada 90 dias. A média caiu para 45 dias neste ano. Mais de 1,5 mil propostas de alterações ainda  tramitam na Câmara e no Senado.

Culpar a Carta pelo longo ciclo de estagnação social e econômica do Brasil tem sido a desculpa preferida do governo e da oposição nas últimas três décadas.

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