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O inaceitável retorno dos casos de sarampo

Um resultado da negligência na vacinação, que, por ignorância e desleixo, perdeu terreno na sociedade

Por Natalia Cuminale Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 set 2019, 06h30 | Atualizado em 3 jul 2026, 14h57
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O sarampo voltou, vergonhosamente, para assombrar o mundo — e, lamentavelmente, o Brasil. Nos últimos três meses, o país registrou 2  753 casos, número 117% maior em relação ao mesmo período do ano passado. Para piorar, o surto tem vitimado sobretudo crianças (bebês com menos de 1 ano são os mais vulneráveis à doen­ça). As secretarias estaduais de São Paulo e de Pernambuco confirmaram quatro mortes: três bebês, de 4, 7 e 9 meses, e um adulto, de 42 anos. O constrangimento pela volta de uma doença erradicada não é, desta vez pelo menos, uma exclusividade brasileira. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de casos quase triplicou entre 2018 e 2019 no planeta, em especial na Europa e nos Estados Unidos. “Estamos retrocedendo e no caminho errado”, disse Kate O’Brien, responsável pelo departamento de imunização da OMS.

Transmitido por secreções, como a saliva, o sarampo é doença de alto poder infeccioso. Seu vírus reduz a eficácia do sistema imunológico e deixa o organismo suscetível a outras infecções. Em cerca de 20% dos casos ocorrem problemas graves, como pneumonia e danos neurológicos. Os efeitos são piores em crianças com menos de 5 anos e em pessoas desnutridas e com o sistema imunológico fragilizado. Aproximadamente duas crianças em cada 1 000 que contraem sarampo desenvolverão encefalite, que pode levar a convulsões, surdez ou deficiência intelectual.

A taxa de mortalidade varia muito. Nos países desenvolvidos, calcula-se uma morte para cada 1 000 casos. Nas nações muito pobres, especialmente as da África Subsaariana, o número de óbitos pode chegar a preocupantes 100 para cada 1 000. Criada na década de 60, a vacina contra o sarampo está incluída na chamada tríplice viral, junto com rubéola e caxumba. A dose garante a imunidade, ou seja, a produção de anticorpos específicos contra a doença, em 95% das pessoas.

Em tese, ninguém deveria estar falando do assunto hoje, com a doença totalmente controlada. Qual a causa, então, do passo atrás? “Simplesmente as pessoas não estão se vacinando”, responde Rosana Richtmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas, de São Paulo (veja a entrevista). Segundo dados de 2017, a cobertura vacinal no Brasil foi de 86%. Em 2015, era de 96%. O ideal para imunizar uma população é um índice de pelo menos 95%. No caso específico do sarampo, a atenção com a vacinação tem de ser redobrada. Se um doente espirra ou tosse, o vírus permanece vivo no ar por duas horas. Um doente chega a infectar cerca de doze pessoas, o que confere ao sarampo um alto poder contagioso.

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(./.)

A redução da vacinação no mundo todo tem múltiplas causas. A mais incompreensível difunde-se nos Estados Unidos e na Europa, e felizmente ainda não pegou no Brasil: o crescimento dos grupos antivacina. O tresloucado movimento recorre à tese do gastroenterologista inglês Andrew Wakefield. Em 1998, o médico publicou, na revista científica The Lancet, um artigo em que associou a vacina tríplice a um risco aumentado de autismo. No estudo, Wakefield dizia ter acompanhado doze crianças que desenvolveram a doença depois de tomar a tríplice. Sonegou duas informações: já existiam indícios de autismo nas crianças e o médico preparava um processo contra um fabricante de vacinas. Foi desmascarado. Embora Wakefield tenha sido banido da prática de medicina, seus argumentos ainda ecoam.

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Há também um ponto pouco discutido, de cunho mais comportamental. O surgimento da imunização, há meio século, fez com que gerações futuras esquecessem as consequências do sarampo. Os mais jovens chegam a não temer o retorno da doença, e médicos formados recentemente só conheceram a doença pelos livros. É triste, e até assustador, mas a sociedade parece desdenhar da relevância histórica das vacinas. A discreta e quase indolor agulhada é a resposta mais rápida e a única ao atual drama.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2019, edição nº 2651

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