Multidão de palestinos marcha para casa após Israel liberar acesso ao norte de Gaza
Desbloqueio do corredor Netzarim ocorreu após acordo entre Israel e Hamas para a liberação de mais quatro reféns até dia 31 de janeiro

Israel autorizou, nesta segunda-feira, 27, que os palestinos retornem às suas casas no norte da Faixa de Gaza pela primeira vez desde o início da guerra com o Hamas, que durou mais de quinze meses. A abertura de um corredor de acesso para a região, uma das mais destruídas por combates e ataques aéreos, estava prevista pelo cessar-fogo que entrou em vigor no enclave há duas semanas, e uma multidão de pessoas abarrotou uma estrada costeira rumo a suas casas no norte.
A liberação do trajeto foi adiada por dois dias devido a uma disputa entre o Hamas e Israel, que disse que o grupo terrorista palestino havia trocado a ordem dos reféns israelenses a serem libertados no final de semana. Tel Aviv afirmou que não liberaria o acesso ao chamado Corredor Netzarim até que o Hamas libertasse a refém Arbel Yehud – uma civil. Mediadores resolveram o desentendimento, e o grupo concordou em libertar Yehud, bem como outros dois cativos, até 31 de janeiro, além das três mulheres das Forças Armadas que já seriam soltas no último sábado, 25.

Esperança
Uma parcela significativa da população de cerca de 2,3 milhões de pessoas em Gaza vive há mais de um ano em tendas em campos de refugiados, ou escolas transformadas em abrigos, e portanto está ansiosa para voltar a suas casas — mesmo com a possibilidade de que tenham sido danificadas ou destruídas. Muitos temiam que Israel tornasse seu êxodo permanente e expressaram preocupação sobre uma ideia mencionada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para “limpar” a Faixa e transferir palestinos ao Egito e à Jordânia.
Assim que o acesso foi liberado nesta segunda-feira, um fluxo interminável de pessoas começou a caminhar pela costa de Gaza, carregando seus pertences em sacos plásticos pela cidade central de Nuseirat.
Milhares lotaram a estrada Salah al-Din, que liga o norte ao sul do enclave, enquanto outras centenas andaram pela praia na costa do Mediterrâneo oriental.
“Este dia parece um feriado”, disse Shadi Adas à agência de notícias AFP, descrevendo centenas de pessoas cantando “Deus é o maior” e slogans associados às celebrações do Eid al-Adha.
Um drone israelense zumbia pelo céu, mas foi abafado pela conversa animada da multidão, disse a AFP.

Lamees al-Iwady, 22 anos, que foi deslocada várias vezes de sua casa na cidade de Gaza para o centro e o sul do enclave, retornou à sua terra natal na segunda-feira. “Este é o dia mais feliz da minha vida. Sinto como se minha alma e vida tivessem retornado para mim”, disse ela à AFP, insistindo que a destruição de seu bairro não era permanente.
“Nós reconstruiremos nossas casas, mesmo que seja com lama e areia”, afirmou.
Ismail Abu Matter, um pai de quatro filhos, descreveu cenas de júbilo ao completar o trajeto pelo Corredor Netzarim, com pessoas cantando, rezando e chorando ao se reencontrarem com parentes.
“É a alegria do retorno”, disse Abu Matter, cuja família estava entre as centenas de milhares de palestinos que fugiram ou foram expulsos do que hoje é Israel, durante a guerra de 1948, um evento que ficou conhecido como nakba. “Nós pensávamos que não voltaríamos, como nossos ancestrais.”

O Hamas disse que o retorno foi “uma vitória para nosso povo e uma declaração de fracasso e derrota para a ocupação (israelense) e os planos de transferência”. Um oficial de segurança do enclave disse à AFP que “mais de 200.000 pessoas deslocadas retornaram para Gaza e as províncias do norte nas primeiras duas horas” da liberação de acesso. Além disso, o escritório de mídia do governo local disse que “mais de 5.500 funcionários públicos” participam da operação de retorno.
No entanto, estima-se que os moradores da cidade de Gaza e de outras áreas no norte do enclave precisariam de 135.000 tendas e caravanas, devido à destruição de aproximadamente 90% de todos os edifícios na região.
Enquanto isso, a ameaça de novos combates e bombardeios não desapareceu. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, alertou na segunda-feira que os militares continuariam a aplicar rigorosamente os termos do cessar-fogo.
“Qualquer um que quebre as regras ou ameace as forças (israelenses) pagará um preço alto”, escreveu ele no X, antigo Twitter. “Não permitiremos um retorno à realidade pré-7 de outubro”, completou.