As procissões que cruzaram quatro cidades, duas delas no vizinho Iraque, com multidões agitando bandeiras de teor ora ufanista, ora raivoso, deram o tom do funeral do líder supremo Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro, aos 86 anos, após bombardeio dos Estados Unidos e de Israel contra o QG de onde dava as cartas no Irã. Na segunda-feira 6, o aglomerado que marchava aos gritos de “morte a Donald Trump” e “vingança” nas ruas da capital Teerã, exibindo cartazes com o rosto da figura que por quase quatro décadas teve nas mãos o leme da nação persa, em nada fazia lembrar o formigueiro humano que se insurgia meses antes contra a teocracia de turbante ali instalada em 1979. Se no cenário pré-guerra gente egressa de todas as camadas sociais, farta de não ter voz, pedia mudanças em um país atolado em uma severa crise econômica, no cortejo o que se via era uma tentativa de demonstrar força e união — foto feita sob medida para reverberar pelas redes na terra onde, não raro, a internet sai do ar a mando dos aiatolás. O grandioso rito, em que autoridades apostavam juntar até o enterro mais de 10 milhões de pessoas (batendo o recorde cravado por Khomeini, o antecessor), foi adiado até a fragilíssima trégua com os americanos ser selada — pacto, aliás, em xeque após ataques de lado a lado na terça-feira 7. Com a ausência de Mojtaba Khamenei, o filho e sucessor do velho Khamenei, que estaria seriamente ferido, e a maciça presença da Guarda Revolucionária, a qual tratou de radicalizar o discurso, a imagem que rodou o mundo esconde insatisfações latentes, mas mostra que a queda do regime, o objetivo número 1 de Trump ao atacar os iranianos, ainda está longe de acontecer.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003





