Carta ao Leitor: Ações e reações
Imprevisível e errático, o “fator Trump” representará um desafio constante na corrida eleitoral brasileira
Em espaço de poucos dias, o governo americano tomou uma série de decisões que afetam diretamente a economia e a política daqui. O primeiro ato consistiu em classificar de terroristas as facções Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho. Em última instância, isso abre caminho para intervenções ordenadas pela Casa Branca em nosso território a pretexto de combater esses criminosos. Depois, o escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), alegando práticas injustas nas negociações, pediu novo tarifaço de 25% sobre produtos nacionais e uma taxa adicional de 10% a 12,5% para o Brasil, a União Europeia e outros 58 países por suposta falha no combate ao trabalho forçado. Na sequência, surpreendendo o Itamaraty, Donald Trump nomeou um novo embaixador no Brasil, o republicano Daniel Perez. Aliado do chefe do Departamento de Estado, Marco Rubio, Perez é militante do anticomunismo e de pautas conservadoras. Rubio, por sua vez, no mesmo dia, em declaração no Congresso, deixou o Brasil de fora da lista de nações aliadas dos Estados Unidos.
As ações têm um duplo papel para Donald Trump. Com a imposição de tarifas, tema de capa de edições passadas de VEJA, o objetivo na maior parte das vezes é forçar os outros países a irem até a mesa de negociação com os Estados Unidos. São frequentes os recuos após as rodadas de conversas, o que já ocorreu com o Brasil e pode acontecer de novo. Ele também procura com isso exercer influência na política latino-americana, apoiando líderes de direita no combate à esquerda. Essa postura transforma o republicano em um personagem inescapável nos debates durante as eleições presidenciais brasileiras, conforme mostra reportagem desta edição.
Lula comemorou a reversão do primeiro tarifaço imposto pelos Estados Unidos após o encontro dos presidentes na Casa Branca. Saiu de lá trocando elogios e usou o sucesso da negociação nos palanques. Agora, contrariado com as novas taxas, cobra explicações do americano e passou a atacar Marco Rubio. O adversário do petista, Flávio Bolsonaro, vive dilemas parecidos. O Zero Um esteve recentemente com Trump e procurou faturar politicamente a classificação de PCC e CV como terroristas, uma decisão que desagradou ao Palácio do Planalto. Com as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos, no entanto, virou alvo: começou a ser chamado de traidor da pátria por Lula, que atribui à família Bolsonaro a culpa pelo problema. Imprevisível e errático, o “fator Trump” representará um desafio constante para essas campanhas na corrida eleitoral.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998





