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Para fazer andar o paquiderme

O conserto das universidades começa em Brasília

Por Claudio de Moura Castro 24 Maio 2019, 07h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 16h05
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A universidade pública tem de tudo. Muitos professores são abnegados e dedicados, preparando belas aulas e conduzindo pesquisas relevantes. Nossa pós-graduação é amplamente superior à de todo o hemisfério. Mas o lado podre existe e traz danos à sua imagem. Pior, acaba punindo quem se comporta exemplarmente.

Eis o tema deste artigo: foram paridos em Brasília muitos dos problemas das universidades. Resultam de concepções, regras e marco regulatório infelizes ou perversos.

Nos Estados Unidos, entre as 5 000 instituições de ensino superior, há mais de 1 000 chamadas de universidades. Delas, 131 são verdadeiramente de pesquisa. Se a mesma proporção valesse para o Brasil, seriam apenas dez federais de pesquisa. De fato, metade das publicações se concentra nelas. Não obstante, todas as federais foram proclamadas universidades de pesquisa. Sobrevive o falso discurso da indissociabilidade do ensino e da pesquisa, ainda que na maioria das instituições a pesquisa seja quase nada. Pior, o ensino é demovido a um segundo plano.

Dos professores, 88% têm contrato de quarenta horas. Desse grupo, 4 500 atuam na pesquisa, enquanto 8 800 apenas ensinam. Portanto, são o dobro dos que não fazem pesquisa.

Admitamos que, entre aulas e atividades correlatas, gastem-se vinte horas semanais. Mas quem não pesquisa, como usa as vinte horas restantes? Na prática, seu pagamento é um esplêndido regalo do contribuinte. Por que não reduzir de quarenta para vinte horas o contrato de quem não faz pesquisa? Aplicada, tal regra geraria uma enorme economia ao Erário.

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Com que lógica Brasília dá mais fundos a umas do que a outras? Das dez universidades mais caras, apenas quatro contam-se entre as melhores. Na média, os custos/aluno/ano equivalem aos das universidades europeias (37 000 reais). Mas poucas constam nas listas das mais destacadas do mundo.

Os orçamentos de pessoal são feitos em Brasília e inflexíveis. Se, com grande sacrifício, logra-se afastar um professor inadequado, a economia resultante não pode ser usada pela universidade. Portanto, não há incentivos para escoimar os improdutivos. Tarefas como comprar um reagente são uma via-crúcis de vários meses. As fundações, salvadoras da pesquisa, são execradas pela esquerda.

Reitores e chefes de departamento não têm mecanismos eficazes para punir os recalcitrantes ou premiar os mais destacados, como faz o botequim da esquina. Reitor é jóquei de dinossauro. Empunhando seu chicotinho, assume a pose de quem comanda o paquiderme.

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As disciplinas profissionalizantes, por vezes, podem ser mais bem atendidas por aqueles que exercem a profissão. Mas, caso essas pessoas não tenham mestrado ou doutorado, sua presença faz cair a avaliação da universidade.

Não há uma só universidade de primeira linha em que os reitores sejam escolhidos por votação. Ainda mais bizarro, votam alunos e funcionários. A Suécia tentou esse mecanismo, mas logo voltou atrás.

Não há por que perdoar os pecados dos dirigentes locais. Entre eles, inclua-se preferir o conforto de não ter de assumir decisões penosas. Mas é espantoso o prejuízo causado por regras, políticas educativas e mitos gerados e consagrados em Brasília. São os principais culpados de muitos males das universidades. Portanto, consertar as universidades começa no Planalto.

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Publicado em VEJA de 29 de maio de 2019, edição nº 2636

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