Grande parte dos golpes que envolvem o Pix são cometidos por criminosos que convencem as pessoas a fazerem uma transferência imediata, seja se passando por um familiar pedindo dinheiro emprestado, ou por uma loja falsa, ou até uma autoridade. O Brasil já é um dos campeões nestes tipos de golpes do Pix, com perdas de 1,937 bilhão de dólares, ou aproximadamente 11,4 bilhões de reais. O problema tende a crescer rápido nos próximos anos.
Pelo menos até 2028, o país vai liderar o crescimento de perdas bilionárias com golpes envolvendo sistemas de pagamento instantâneo, de acordo com relatório Scamscope, desenvolvido pela ACI Worldwide. Estima-se que o aumento no país seja de 94%, o maior entre os seis principais mercados de pagamentos em tempo real do mundo: Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Índia, Austrália e Emirados Árabes Unidos.
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No Brasil, os golpes mais comuns, segundo a pesquisa, envolvem compras (22%), investimentos (21%) e pagamentos antecipados (17%). Nos golpes de compra, as vítimas são induzidas a transferir dinheiro para adquirir um produto que, na verdade, não existe ou nunca será entregue. Já nos golpes de investimento, o consumidor é convencido a aplicar recursos em produtos ou empresas, mas os prometidos retornos financeiros nunca se concretizam. Por fim, nos golpes de pagamentos antecipados, a pessoa faz um depósito adiantado por um produto ou serviço habitual, mas o valor acaba sendo direcionado a uma conta falsa.
A explosão no número de golpes dessa natureza e nas perdas financeiras é atribuída também ao aumento de segurança dos aplicativos de bancos e fintechs. Com reconhecimento facial e biometria, fica mais difícil invadir contas, roubar senhas. “Com isso, os criminosos começaram a focar em convencer as pessoas a fazerem as transações utilizando sistemas de pagamentos instantâneos”, explica o head de inteligência de pagamentos e soluções de risco da ACI Worldwide, Cleber Martins.
Os 2 fatores principais que levam as pessoas a caírem nos golpes do Pix
Ele destaca dois fatores principais que levam as pessoas a cair em golpes. O primeiro é o senso de urgência, ou seja, as pessoas acreditam que estão diante de uma oportunidade única, o que as faz agir impulsivamente, especialmente em compras ou investimentos que exigem pagamento adiantado, frequentemente via Pix. Isso ocorre porque o criminoso tem acesso imediato ao dinheiro. “Esse senso de urgência vai levar as pessoas a fazerem essas coisas. E a gente desliga na nossa cabeça algumas chavinhas de segurança”, diz Martins.
Martins também destaca a questão da “confiança herdada”. Golpistas exploram a credibilidade de pessoas ou instituições confiáveis. Por exemplo: alguém vestido de policial, naturalmente inspira confiança. Além disso, Martins explica como as tecnologias de inteligência artificial estão sendo usadas para simular vozes e até vídeos de conhecidos, tornando os golpes ainda mais sofisticados. “Imagina você recebe uma videochamada do seu pai. O criminoso simula ser seu pai te ligando com a voz e com o vídeo do seu pai falando: ‘ eu preciso da sua ajuda aqui’”, explica.
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Prevenção com tecnologia e educação
Com perdas bilionárias previstas para os próximos anos, o Brasil enfrenta um desafio urgente: equilibrar a evolução tecnológica com uma educação mais eficaz para conter o avanço das fraudes. A combinação desses dois pilares pode ser a única saída para frear os criminosos em um cenário de golpes cada vez mais sofisticados, segundo Martins.
“A gente já desenvolveu a capacidade de inteligência artificial colaborar uma com a outra sem precisar expor os dados, mas a dificuldade é a adoção“, explica o head de inteligência de pagamentos da ACI Worldwide.
Iniciativas como as do Banco Central, que compartilha informações sobre contas problemáticas, ajudam a mitigar os danos, mas têm limitações frente à rapidez com que os criminosos se adaptam. “O criminoso não fica usando aquela conta para sempre, ele cria outra”, diz Martins.
Para o especialista, a integração de tecnologias colaborativas entre bancos, fintechs e até o Banco Central é essencial para superar a visão limitada que os criminosos exploram. “Só uma adoção de uma tecnologia de inteligência artificial colaborativa é que vai permitir que os bancos enxerguem mais do que o criminoso consegue enxergar.”
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