Como o Cerrado brasileiro está reescrevendo a história do trigo
Com tecnologia, agronegócio consegue desenvolver a produção do grão que resistia a se desenvolver em regiões tropicais

Em um país reconhecido por seu potencial agrícola, o trigo sempre representou um desafio e tanto. Originário de regiões montanhosas e frias do sudoeste da Ásia, o grão resistia a se adaptar aos trópicos. Por isso, a triticultura brasileira se concentrou inicialmente no Sul, onde as temperaturas são mais amenas. Mesmo assim, quase 100 anos após a expansão de seu cultivo no Rio Grande do Sul e no Paraná, o Brasil ainda depende fortemente de importações — neste ano, 5 milhões de toneladas foram compradas de outros países para suprir a demanda interna.
No entanto, pesquisadores da Embrapa vislumbram um cenário promissor: o Brasil poderá alcançar a autossuficiência na produção de trigo nos próximos anos. O que torna essa previsão ainda mais surpreendente é que o crescimento virá justamente do Cerrado — um dos biomas mais quentes do país, que se estende pelo Centro-Oeste e por parte de estados como Minas Gerais e Bahia. A transformação já está em curso: dados da Conab mostram que o volume de trigo produzido no Centro-Oeste cresceu quase 240% de 2016 a 2023, impulsionado por avanços no melhoramento genético e em técnicas de cultivo.

“Desde sua criação, nos anos 1970, a Embrapa sempre acreditou no trigo no Cerrado”, afirma Julio Cesar Albrecht, pesquisador especialista em triticultura da Embrapa Cerrados. A aposta começou a mostrar resultados concretos já na década seguinte, quando as primeiras variedades adaptadas ao Cerrado saíram dos laboratórios. O momento não poderia ter sido mais oportuno: naquela mesma época, produtores do Sul migravam para o Centro-Oeste em busca de novas fronteiras agrícolas, levando consigo a experiência no cultivo do grão.
Os primeiros experimentos com trigo irrigado no Cerrado já sinalizavam o potencial da região, superando a média nacional de produtividade. Em 2021, um marco importante foi alcançado: um produtor em Cristalina (GO), Paulo Bonato, quebrou o recorde mundial de produtividade de trigo irrigado, com a média de 80,9 quilos por hectare com a cultivar BRS 264, criada pela Embrapa — cultivares são variedades desenvolvidas em laboratório com características específicas, como resistência a doenças e adaptação a determinado clima. Das mais de 100 cultivares de trigo desenvolvidas pela Embrapa para o Brasil, cerca de vinte foram criadas especialmente para o Cerrado.
O trigo do bioma tropical rapidamente ganhou reconhecimento por sua qualidade industrial, comparável aos melhores do mundo, como o canadense. Isso se deve sobretudo à colheita na época seca, evitando problemas comuns no Sul. Lá, as chuvas frequentes durante a safra podem provocar doenças causadas por fungos e bactérias, além do desenvolvimento de micotoxinas que tornam o grão impróprio para o consumo humano. “A produtividade no Cerrado pode ser menor que no Sul, mas a qualidade superior do grão garante uma maior paridade entre as regiões”, diz Maicon Matana, gerente comercial da OR Genética, empresa gaúcha especializada no desenvolvimento de sementes de trigo, com dez campos experimentais espalhados no Cerrado.
O desafio da tropicalização
“Tropicalizar” o trigo é um processo complexo, que desafia os limites da ciência. Os pesquisadores buscam variedades que não apenas sobrevivam ao calor intenso e às secas do Cerrado, mas que também resistam a doenças tropicais e mantenham alta produtividade — tudo isso sem perder as características que fazem do trigo uma das culturas mais importantes do mundo para a indústria de alimentos. “A natureza levou milhares de anos para criar um grão adaptado ao frio. Agora, estamos tentando mudar esse processo em algumas décadas”, resume Claudio Malinski, engenheiro agrônomo especializado em melhoramento genético do trigo no Cerrado.

No Cerrado, o plantio segue dois caminhos: o irrigado, com tecnologia avançada mas alto custo de produção, e o sequeiro, que depende das chuvas. Enquanto o primeiro compete por espaço com culturas mais rentáveis como batata e cebola, o trigo sequeiro é plantado entre as safras de outras culturas, enfrentando menos concorrência. É nesta segunda modalidade que a Embrapa Cerrados vê maior potencial: cerca de 3 milhões de hectares poderiam ser destinados ao cultivo, desde que em altitudes acima de 800 metros, nas quais as noites são mais amenas.
Se o potencial de expansão do trigo sequeiro é enorme, os desafios são igualmente grandes. Sem o controle que a irrigação proporciona, a lavoura fica à mercê das variações do clima. Um período de seca prolongada pode comprometer o desenvolvimento do grão; já o excesso de chuvas pode criar condições ideais para a proliferação da brusone — uma doença fúngica temida pelos agricultores por sua capacidade de dizimar safras inteiras em questão de dias. Em termos de produtividade, o sequeiro também fica em desvantagem: nos melhores cenários, pode alcançar 4 000 toneladas por hectare, enquanto o trigo irrigado pode ultrapassar 5 000 toneladas.
Benefícios além da colheita
Seja produzido sob irrigação ou no modo sequeiro, o trigo do Cerrado enfrenta um desafio logístico: enquanto a produção avança para o interior, a indústria moageira permanece concentrada no Sul e no litoral do país. Essa distância se traduz em custos elevados de transporte e uma pesada carga de impostos interestaduais. O ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), vê outro desafio no horizonte. “O aumento da produção é positivo, mas não necessariamente nos levará à autossuficiência”, afirma. “Com o consumo interno estagnado, parte crescente da produção tem sido direcionada à exportação.” Os números confirmam essa tendência: só no primeiro semestre de 2024, o Brasil exportou 2,5 milhões de toneladas de trigo — volume superior ao de todo o ano de 2023.
O cenário é ainda mais complexo: parte do trigo brasileiro não alcança os padrões exigidos pela indústria de panificação e acaba sendo exportada para usos alternativos, como ração animal. Enquanto isso, o trigo argentino mantém sua tradicional competitividade no mercado brasileiro.

Para produtores como José Guilherme Brenner, o trigo no Cerrado representa muito mais que números em uma planilha de custos: é uma ferramenta de transformação do solo. Presidente da Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF) e agricultor há mais de trinta anos na região, ele começou a cultivar o grão em 2015, inspirado por outros cooperados. Os resultados superaram as expectativas: além de aproveitar um período sem outras culturas, viu a produção de feijão aumentar 10% nas áreas onde introduziu o trigo sequeiro. A cultura, quando combinada com o plantio direto, cria um ciclo virtuoso: favorece a rotação de espécies, regenera o solo e reduz a dependência de agrotóxicos.
É por isso que, mesmo em anos de baixa produtividade, como na última safra, prejudicada pela falta de chuvas, Brenner se mantém firme em sua decisão de continuar plantando trigo. “Eu vejo no trigo uma oportunidade que o país tem de transformar a produção agrícola e torná-la mais resiliente diante dos desafios ambientais que enfrentamos hoje”, afirma. Em sua persistência e na de outros agricultores do Cerrado, pode estar nascendo uma nova história para a triticultura brasileira — não mais apenas como um eterno desafio, mas como prova de que até as barreiras mais antigas podem ser superadas.
Publicado em VEJA de 13 de dezembro de 2024, edição especial nº 2923