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Sangria desatada

Em sua segunda temporada, 'O Mecanismo', da Netflix, pulveriza a crítica enquanto se esforça para manter a relevância em uma realidade que desafia a ficção

Por Raquel Carneiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 Maio 2019, 07h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 16h15

A matéria-prima da série é complexa mas rica: a maior operação já rea­lizada no Brasil para devassar a corrupção das altas esferas do governo e das estatais. Criada e produzida por José Padilha, O Mecanismo retorna à Net­flix em nova fase com dois desafios quase tão difíceis quanto esmiuçar a contabilidade do infame “departamento de operações estruturadas” da Odebrecht. O primeiro é manter-se relevante e interessante depois dos mais recentes desdobramentos da política brasileira — entre eles, a pirueta de Sergio Moro, que julgou os agentes do tal “mecanismo” e depois virou ministro do governo Bolsonaro. O segundo é, em tempos de polarização política, ampliar o alcance de suas farpas críticas. Padilha, que em artigo recente no jornal Folha de S.Paulo fez um quase mea-culpa por já ter confiado em Moro, respondeu ao primeiro desafio tratando o personagem do juiz (que na série se chama Rigo e é vivido por Otto Jr.) com uma dose maior de reticência. E, se na primeira temporada o PT aparecia como o principal agente do mecanismo, agora é o PMDB (hoje MDB) que desponta, em uma cena na qual o delegado Ruffo (Selton Mello) explica o esquema, como a base da corrupção.

O Mecanismo
VILÃO – Brecht: empreiteiro caviloso (Karima Shehata/Netflix/Divulgação)

Padilha sabe como tratar roteiros de ritmo intenso, e essa segunda temporada está mais envolvente e explosiva que a primeira. A história tem seus mocinhos e vilões folhetinescos. Entre os primeiros, a delegada Verena (Caroline Abras) cresce e tira do irritante Ruffo o posto de protagonista. O juiz Rigo é alfinetado pela divulgação ilegal do grampo que registrou uma conversa entre João Higino e Janete (ou Lula e Dilma). Mas quem faz os oito novos episódios pulsar são os dois afiados e opostos vilões (e seus excelentes atores): o doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz) e o empreiteiro Ricardo Brecht (Emilio Orciollo Netto), que são versões de Alberto Youssef e Marcelo Odebrecht. Ao fundo, uma conspirata prepara o impeachment de Dilma, aliás, Janete (Sura Berditchevsky). As versões paralelas de Michel Temer, Aécio Neves, Eduardo Cunha e Gilmar Mendes organizam a derrubada da presidente, com o apoio da imprensa — e aqui Padilha escorrega feio e dá a versão petista da história, embora diga que Dilma seja ela mesma culpada pelo “golpe” que sofreu (leia a entrevista).

Na primeira temporada, os petistas se enfureceram porque João Higino (Arthur Kohl) dizia uma frase que, na verdade, era do emedebista Romero Jucá, sobre a necessidade de “estancar a sangria” — vale dizer, parar as investigações de Curitiba. Lula, que ainda não estava preso, ameaçou até processar a Netflix (não o fez). A frase agora reaparece na boca do Aécio da ficção. Para colocar um pé em uma próxima temporada — ainda não confirmada pela Netflix —, Padilha introduz Jair Bolsonaro na trama, e elucubra sobre o inesperado resultado da Lava-Jato: com tantos partidos envolvidos na corrupção sistêmica, pondera um dos mocinhos da trama, formou-se “um vazio bem perigoso” na política. Para bom entendedor, meia sangria basta.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2019, edição nº 2634

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