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Nem as crianças escapam

O garoto ia para escola naquela manhã de quarta-feira e teve seu direito à vida destroçado.

Por Chico Alencar 26 jun 2018, 14h00 | Atualizado em 26 jun 2018, 14h00
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“Mamãe, nunca senti tanta dor!”; “Mãe, estou com muita sede!”; Eles não viram que eu estava com roupa de escola, mãe?”. Foram as palavras que Marcos Vinicius Silva, 14 anos, dirigiu à sua mãe Bruna, já no leito do hospital onde viria a morrer, pouco depois.

O garoto ia para escola naquela manhã de quarta-feira e teve seu direito à vida destroçado. Foi vítima da irresponsável “operação” das forças de segurança na comunidade da Maré. Tiros e estilhaços tornaram seus órgãos imprestáveis até para doação, como seus pais desejavam. Um helicóptero disparava rajadas sobre as ruas, completando o clima de terror. Com a blusa do uniforme ensanguentada nas mãos, Bruna encontrou forças para clamar: “vou fazer desse pedaço de pano um instrumento de justiça”.

Era o 20 de junho, Dia de Luta contra o Extermínio da Juventude Pobre e Negra, instituído pela vereadora Marielle Franco. A data lembra a prisão e a condenação arbitrárias de Rafael Braga, na onda repressiva das jornadas de junho de 2013. A garrafa de desinfetante que portava foi transformada, pelas autoridades, em matéria-prima para fazer um “coquetel molotov”. Marielle e Anderson foram executados há 105 dias. A barbárie clama por solução, mas a investigação vai lenta. Há um mês, Michel Temer proclamou que a elucidação do caso viria “em brevíssimo tempo”.

No início da semana do ataque à Maré, a Comissão de Acompanhamento da Intervenção na Segurança do Rio esteve com os generais que a comandam. Eles disseram que o mais importante é o “legado de planejamento” que deixarão. E que “toda polícia tem que ser de proximidade”. Nada disso foi praticado na Maré, a não ser que “proximidade” seja entendida como ordem para matar nas ruas estreitas, em plena luz do dia.

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Nesse mesmo dia trágico, em Brasília, deputados pastores rejeitaram moção de repúdio apresentada pelo PSOL contra a apartação de crianças de seus pais, na política de “tolerância zero” com a imigração implantada pelo governo dos EUA. Esses senhores da perversidade, que se dizem cristãos, formam a “Bancada de Trump” no Parlamento brasileiro.

Em fevereiro, o Ministro da Justiça, Torquato Jardim, justificou, em entrevista ao Correio Braziliense, a suspeita sobre inocentes: “você vê uma criança bonitinha, de 12 anos, entrando na escola pública, e não sabe o que ela vai fazer depois”. Sua Excelência, que comandou até pouco tempo a Polícia Federal, sabe, aí sim, o que adultos muitos fazem, quando colocam terno e gravata: tenebrosas transações, roubo, subtração criminosa de direitos!

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Kelly é uma jovem moradora da Maré, mãe de Gael, que tem quatro anos. Ela encontrou uma fórmula para responder ao filhinho sobre o porquê dos constantes tiroteios (comuns em quase todo o Rio de Janeiro): “é um aviso pra gente correr e se abraçar com a professora da creche, os amiguinhos ou a mamãe, se estiver perto”. Marcos Vinicius não conseguiu fazer nem isso.

Abracemo-nos, para tentar sobreviver nesses ásperos tempos.

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*Chico Alencar é professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ) 

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