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Calmaria antes da tempestade

Os escândalos podem se transformar num incêndio institucional

Por Murillo de Aragão 20 mar 2026, 06h00 | Atualizado em 20 mar 2026, 11h04
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O clima político é de calmaria tensa, entremeada por rumores, boatos e suposições que atiçam a curiosidade dos observadores da política nacional. Brasília é hoje uma espécie de parque temático de escândalos. São eles: a questão do INSS e o roubo dos aposentados, as investigações — que alcançam dezenas de parlamentares — sobre desvios na execução de emendas orçamentárias e o indefectível e profundo escândalo do Banco Master, que ainda tem como subtema a potencial intervenção ou federalização do banco estatal de Brasília.

Este último merece um complemento. Nunca antes na história deste país — como diria Lula — a quebra de um banco envolveu festas milionárias, grampos, ameaças, altas autoridades e até um suicídio. Trata-se de um escândalo “master”, com personagens que parecem saídos de produções televisivas. Se fosse transformado em série para a Netflix, a trama, em termos de intriga, seria superior a House of Cards — aliás, muito superior, inclusive no volume de recursos envolvidos, que chega a constranger alguns dos maiores escândalos americanos. Não ganhamos o Oscar com O Agente Secreto, mas o mundo, mais uma vez, se curva à engenhosidade dos brasileiros para fazer malfeitos. Nossa competência para criar confusões e desperdiçar oportunidades não encontra paralelo.

“Nossa competência para criar confusões e desperdiçar oportunidades não encontra paralelo”

Não bastasse o caso Master, o imbróglio das emendas parlamentares, que já resultou na condenação de três deputados, está apenas começando e pode devastar núcleos políticos importantes. É possível que as investigações atinjam em cheio outros parlamentares. São dezenas de inquéritos em curso. O que apareceu até agora é apenas a ponta do iceberg. A questão do INSS, cuja prorrogação da CPMI depende de decisão do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) ou do ministro André Mendonça, do STF, ainda pode gerar desdobramentos na Receita Federal, na Controladoria-Geral da União e no Ministério Público. É um tema que continuará a assombrar Brasília por algum tempo, já que existem investigações em curso que não terminarão tão cedo. O caso já gerou a decretação de medidas restritivas a uma deputada federal.

Ainda assim, Brasília mantém uma calma aparente. Os eventos continuam acontecendo como se tudo estivesse na linha do “vida que segue”. Os comentários nos bastidores giram em torno dos escândalos, sobretudo em relação à intensidade do que está acontecendo. Por outro lado, dadas as ramificações e implicações, ninguém pode prever os desdobramentos. Não se sabe se, após a curva, a situação se acomodará. Na capital, tudo pode mudar em um instante ou ser digerido aos poucos.

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Do ponto de vista da plateia qualificada, a maior parte quer ver sangue e outra quer que tudo termine em pizza. O fato é que ninguém está no controle. Não existe um diretor de cena nem um roteiro predeterminado a ser seguido. Temos fogueiras que estão ardendo e podem se transformar em um grande incêndio institucional, a partir de fatos novos que nunca deixam de aparecer. Na alta cúpula do país não há uma estratégia para lidar com o tema, a não ser a preservação para a disputa eleitoral que se aproxima. Todos estão atuando ao sabor dos acontecimentos e querendo proteção. Também torcem para que a Copa do Mundo chegue logo e divida as atenções da opinião pública.

Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987

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