Por que alguns israelenses são contra o acordo que libertará reféns?
A direita mais dura rejeita qualquer coisa que não implique na eliminação do Hamas – um objetivo impossível, mas que muitos acham vital

A partir desse domingo, as primeiras reféns israelenses começarão a deixar o inferno, os túneis onde tantos cativos foram torturados, espancados, forçados a passar fome e sexualmente abusados. É possível ser contra isso? É possível preferir que a guerra continue, mesmo ao custo de não resgatar compatriotas mantidos em condições extremas?
Foi isso exatamente o que aconteceu: o governo de Benjamin Netanyahu optou por um caminho duríssimo, mas apoiado por uma parte da cúpula política e militar. Só a pressão do enviado especial de Donald Trump demoveu o primeiro-ministro – empregando uma mistura de promessas e ameaças. “Vamos deixar bem claro para os israelenses, se eles precisarem voltar, estamos com eles. Se o Hamas não cumprir a sua parte, estamos com eles”, especificou o próximo assessor de Segurança Nacional, Mike Waltz.
Netanyahu não criou obstáculos para um acordo por crueldade ou falta de vontade de ver os reféns libertados, embora a quantidade de problemas internos, incluindo uma protelada investigação sobre o despreparo de Israel quando o Hamas invadiu as localidades da fronteira sul em 7 de outubro de 2023, vá se multiplicar quando o país entrar nessa nova fase.
Entre soltar reféns – em quantidade total ainda ignorada, pois não há certeza sobre o número dos que morreram no cativeiro – e garantir a segurança futura de Israel, ele fez a segunda opção. Uma faixa política que, inicialmente ia da centro-direita à ultradireita, o apoiou. Agora, os mais radicais podem sair do governo. Mas também há cidadãos comuns, simpatizantes da direita, que foram contra o acordo, incluindo familiares de soldados mortos em Gaza para os quais o sacrifício de seus entes queridos terá sido inútil se o Hamas voltar a desfilar pelas ruas do território, continuar a proferir ameaças contra Israel e, eventualmente, voltar a atacar o país – como inevitavelmente acontecerá. Também é difícil ver a libertação de 1.000 presos palestinos que cumpriam pena justamente por atos planejados ou cometidos de violência.
Um acordo de cessar-fogo, que pode ou não se tornar permanente, não resolve esses problemas. Seriam necessários muitos e muitos anos, com a construção laboriosa de uma mentalidade de paz e realizações concretas, como um Estado palestino independente e funcional, para diminuir o apelo da violência.
Críticas a Trump
Como o acordo é o mesmo que foi negociado por Joe Biden – Trump entrou com a parte do ultimato –, até entre simpatizantes do presidente que toma posse nessa segunda-feira houve críticas. Muitos preferem não atacar Trump diretamente, mas a frustração pode ser sem anteparos. O site The Times of Israel mencionou o comentário de uma usuária do X, dirigido diretamente a Trump: “Você forçou Israel a fazer um acordo terrível em troca de 33 reféns, muitos dos quais estão mortos. A maioria continuará cativa em Gaza, com destino indefinido. Você fez isso para cantar vitória no dia 20, sem outras considerações. Extremamente decepcionante”.
Esse sentimento tenderá a aumentar quando o retorno do Hamas às ruas de Gaza for ficando mais claro. Mesmo tendo perdido cerca de um terço, talvez mais, de seus homens em armas e vários dos líderes máximos, a organização islamista não foi desarticulada e o acordo de cessar-fogo, obviamente, auxilia na sua recomposição.
Também é inevitável a recuperação do Hezbollah no Líbano, embora sem a linha direta para o fornecimento de material bélico que a Síria oferecia.
A destruição de uma ampla quantidade de bases do Hezbollah foi um dos feitos bélicos de Israel, na mistura de bombardeios tradicionais e audaciosas operações de inteligência que caracterizou essa campanha.
Em quanto tempo o Hezbollah e o Hamas voltarão a atacar Israel? Imaginar que isso não vá acontecer é ingenuidade. E ninguém em Israel pode se dar a esse luxo, seja qual for sua posição política. O acordo para a libertação dos reféns foi o melhor possível e ver, finalmente, o rosto das jovens soldados, que foram filmadas assustadas e espancadas ao serem presas, tem um valor real e simbólico enorme. E um preço alto sobre o qual a maioria do país concordou, apesar dos que continuam achando que é pesado demais.