O 7 a 1 de Fernanda Torres em Bolsonaro
Como o Globo de Ouro enfraquece ex-presidente, seu golpismo e fortalece a democracia no momento certo

A conquista do Globo de Ouro pela atriz Fernanda Torres foi uma vitória superlativa e comemorada como uma copa do mundo, com buzinaço, gritos nas janelas, onipresença nas redes sociais, declarações de júbilo de famosos e de anônimos.
Era o Brasil sendo feliz.
Fernanda Torres continua se espantando com o feito e exprimindo isso em frases lindas. “É incrível né. Eu fui tendo a ideia do que foi isso para o Brasil. Muito feliz pelo Brasil e por ter isso ter acontecido pelas mãos de Eunice Paiva. O ator é uma nação inteira”, disse Fernanda em uma das muitas entrevistas que deu.
Era isso!
No país inteiro, majoritariamente, se comemorava a vitória de quem interpretou uma mulher que lutou contra a ditadura, após seu marido, Rubens Paiva, ter sido torturado e morto por militares do Exército e da Aeronáutica.
E como lutou essa mulher? Tendo cinco filhos e viúva de marido que não pôde entrerrar, Eunice foi estudar Direito e se juntou às lutas do Brasil por Justiça, principalmente em relação aos indígenas. Quem escreveu a história foi seu filho, Marcelo Rubens Paiva, um intelectual brilhante, um lutador.
Portanto, sem dúvida, essa é uma vitória robusta da ideia da democracia. Pertence ao campo progressista a todos os brasileiros e a todas as brasileiras que rejeitam tudo aquilo que o bolsonarismo exaltou e defendeu.
É uma vitória por vários motivos. Primeiro porque, por quatro anos, o Brasil ouviu um presidente comemorando e exaltando a ditadura militar, a abolição da democracia e o cometimento de crimes como os de tortura e de morte de adversários políticos, ameaçando e desprezando instituições, ofendendo os artistas e os perseguindo. No filme, Fernanda interpreta a advogada Eunice, esposa de Rubens, que foi preso, torturado e morto pela ditadura militar brasileira. O regime ainda sumiu com o corpo, mostrando que sempre cabe mais um crime numa história já aterrorizante.
Perceberam como é simbólico?
O segundo motivo é que o prêmio, sua comemoração pelos brasileiros e pela comunidade internacional ocorrem bem no momento do aniversário de dois anos do fracasso amargado por seguidores de Jair Bolsonaro que invadiram os prédios da Praça dos Três Poderes na esperança de criar o caos e isso virar o motivo para que os líderes fardados executassem seu objetivo de dar um golpe de estado e reinstaurar uma ditadura no Brasil. E nesse 2025, o processo avança em direção a punir os comandantes do atentado à democracia, inclusive o ex-presidente.
O terceiro motivo é que democratas festejam a vitória brasileira bem no momento em que os simpatizantes do autoritarismo amargam dados desfavoráveis da pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira, 6. Segundo o estudo, entre os próprios eleitores de Bolsonaro, 85% desaprovam a tentativa de golpe. Quando observada toda a população, o índice é de 86%. “A desaprovação dos atos aparece próxima dos 86% em todas as regiões do país, faixas de renda, escolaridade e idade. Não há diferença estatística nem mesmo entre eleitores de Bolsonaro e de Lula. O índice de desaprovação é alta nos dois grupos, 85% e 88%”, escreveu Felipe Nunes da Quaest, que fez a pesquisa. Portanto, a ideia da democracia avança.
Andréa Beltrão, amiga de Fernanda Torres, define como “comoção” o que está acontecendo no Brasil nesse pós premiação. “Foi lindo ver o Brasil feliz por uma atriz, depois do que o setor cultural passou por causa da pandemia e de um governo destruidor. É um momento glorioso. E vindo com esse filme, com esse assunto, com esse tema, com essa personagem, com essa mulher (Eunice), com essa atriz, como esse diretor. É um dia de êxtase pra gente”.
São muitas vitórias em uma só…