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A era da adaptação e nossa caligrafia

A Montblanc escreve uma lição paradigmática e exitosa de reinvenção

Por Marcos Troyjo 1 set 2018, 22h12 | Atualizado em 30 jul 2020, 20h21
A era da adaptação e nossa caligrafia Priorizar nos meus resultados Google

Marcos Troyjo

Noutro dia, um amigo me contou que assistira uma entrevista com Nicolas Baretzki, presidente da marca Montblanc, a que geralmente associamos com canetas de alto luxo. O executivo disse que espera neste 2018 bater recordes de faturamento.

Meu amigo então se perguntou: como assim? Canetas vendendo muito em tempos dominados por smartphones? Quem ainda compra canetas?

A propósito, me lembrei que dias atrás, durante uma reunião, anotei algo para passar num bilhete a um colega. Olhei para meu manuscrito e vi como minha letra estava horrível.

Por que será que a gente está ficando com a letra cada vez mais feia?

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É simples. Estamos praticamente deixando de manuscrever. Como alternativa à caneta e ao lápis, tínhamos a máquina de escrever, depois o teclado do computador.

Agora, dedilhamos tablets e smartphones. Na juventude, meu pai estudou caligrafia. Para causar boa impressão profissional ou conquistar o coração de uma garota, ter uma letra bonita ajudava muito.

O progressivo abandono do ato de manuscrever nos anos recentes é sem dúvida uma mudança de hábitos estimulada pelas opções tecnológicas de comunicar-se por escrito. Mas quais as consequências disso para aqueles que são acionistas de uma empresa de canetas?

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Creio que um dos casos de reinvenção mais interessantes que existem nesse campo é justamente o da marca Montblanc. É um exemplo perfeito do que Klaus Schwab, fundador do Fórum de Davos, chama de “A Era da Adaptação”.

Nos anos 1990, buscava-se numa reunião estratégica do conselho da empresa que gera a marca alternativas de receita num mundo em que as pessoas estão deixando de manuscrever.

Um dos participantes da reunião sugeriu baixar o preço médio da Montblanc de US$ 110 (R$ 455) para US$ 25 (R$ 103). Isto poderia ser obtido com a diminuição dos custos de produção em se transferindo a manufatura da Suíça e da Alemanha para países como China ou Vietnã. Esta alternativa visava à margem de lucro na quantidade, e não mais na percepção de qualidade e estilo da marca Montblanc.

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Outro participante da reunião enxergava como alternativa perseguir o mercado de colecionadores, dando como perdida a guerra contra os computadores e outros instrumentos digitais.

A solução seria multiplicar séries especiais baseadas em datas como o Aniversário de Mozart ou o Centenário da Exposição Universal de Paris, etc. E a Montblanc então também seguiu marginalmente essa estratégia.

Alguém no entanto sugeriu: “na realidade nosso negócio não é canetas. É uma certa experiência de marca. O que precisamos é fazer a ‘autodestruição criativa’ de nossa empresa. Temos de aproveitar nossa receita ainda robusta oriunda do segmento de canetas e promover a transposição lateral da nossa marca. Levar nossa percepção de estilo a outros produtos”.

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E ele prosseguiu: “vamos para o mundo dos relógios ─ uma das poucas peças da joalheria masculina. Devemos ir para as gravatas, para os artefatos finos de couro, para a sedaria, para os cosméticos e perfumes” ─ e a Montblanc de fato adotou essa estratégia.

Marcas conhecidíssimas do mercado de canetas que não se autodestruíram criativamente, que ficaram atreladas a noções arcaicas de “core business”, que não se reinventaram, como é o caso da Parker, Cross ou Sheaffer, viram suas fatias de mercado cada vez mais delgadas.

Hoje, a cada cem dólares que entram na marca Montblanc, a empresa depende progressivamente menos da receita de canetas. Ser líder num certo segmento não deve significar que “em time que está ganhando não se mexe”.

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Para os que estão na ponta, o desafio é o da inovação endógena. Com este case, a Montblanc escreve uma lição paradigmática e exitosa de reinvenção.

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