A obra e a vida do cientista social e filósofo francês Edgar Morin foram sempre uma coisa só. Não havia como apartá-las. Membro da Resistência contra o Nazismo, no início dos anos 1940; comunista durante a II Guerra Mundial; dissidente do stalinismo; sociólogo do presente e profeta do futuro. Escrevia sobre tudo e não houve experiência da virada dos séculos que não tenha acompanhado, sempre de perto, na flor da pele. “Não sou daqueles que têm uma carreira, mas daqueles que têm uma vida”, escreveu em Mes Démons (“Meus demônios”, de 1994). Não que falasse de si mesmo, o tempo todo, como na atual onda de autoficção, em exageradas travessias egocêntricas.
Ele tratava de seus pares, dos seres humanos, do mundo ao redor. Sempre zelou pela junção de todas as categorias do conhecimento — de cultura a ética e economia — para pensar direito. Era intelectual imprescindível, que a longevidade tornou mito. Em seu derradeiro trabalho, de 2025, Só um Instante, coletânea de pensamentos, Morin desenhou com precisão o que supunha ser um belo exercício de inteligência. Assim: “Ser intelectual é se autoinstituir como tal, ou seja, dar-se uma missão: uma missão de cultura, uma missão contra o erro, uma missão de consciência pela humanidade. Eis a missão que me dei com cada vez mais força”. Morin morreu em 29 de maio, aos 104 anos.
Pioneirismo no bisturi
Nascida no Pará, a cirurgiã Angelita Habr-Gama levou as mulheres aonde jamais haviam chegado. Foi a primeira médica a se tornar professora titular de uma especialidade cirúrgica na Faculdade de Medicina da USP e a primeira brasileira aceita como membro honorário da centenária American Surgical Association. Sua principal contribuição científica foi a consolidação do protocolo conhecido como “watch and wait”, abordagem que mudou paradigmas no tratamento do câncer de reto. Em 1985, fez parte da equipe médica do presidente eleito pelo Colégio Eleitoral, o mineiro Tancredo Neves, que não subiria a rampa do Planalto. Angelita morreu em 30 de maio, aos 93 anos.
Um baixo no coração
Ah, aquele baixo de sonoridade e pegada únicas. Ronald LaPread foi um dos responsáveis pela identidade musical dos Commodores, grupo que lançou ao mundo e às discotecas alguns dos grandes clássicos dançantes dos anos 1970 e 1980. Ao longo de onze álbuns, até 1986, ele ajudou a imprimir a marca forte de canções como Brick House, Easy e Three Times a Lady, músicas que atravessaram gerações. Os Commodores, grife da gravadora Motown, venderam mais de 70 milhões de discos na era pré-Spotify. Ele morreu em 30 de maio, na Nova Zelândia, país que escolheu para viver desde meados da década de 1980.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998







