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Lixo têxtil: descarte de roupas usadas cresce e vira um enorme problema ambiental

Mais de 90 milhões de toneladas de vestimentas são desperdiçadas por ano no mundo, volume que deve dobrar até 2030

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 5 jan 2025, 08h00

O desejo por novidade e o acesso a qualquer loja do planeta a um simples clique geram um poluente efeito colateral. Onde vai parar a montanha de peças rejeitadas no guarda-roupa de bilhões de pessoas? Com a febre do consumo e a oferta de acessórios de moda mais baratos, o lixo têxtil se tornou um dos maiores dilemas ambientais e sociais da atualidade. São 92 milhões de toneladas de vestimentas desperdiçadas por ano no planeta, volume que deve dobrar até 2030. O que fazer com tanta roupa sem dono e que ninguém quer? O excesso de refugo, quando não vai parar em aterros sanitários, é exportado das nações mais desenvolvidas para países da África, Ásia e América Latina. O Deserto do Atacama, no Chile, já ganhou fama pelas montanhas de roupas despejadas ali, que viraram parte do relevo da região. O fato, inconteste, é que não dá mais para deixar o problema sob o tapete.

DESERTO DE LIXO - Roupas descartadas no Atacama: parte do relevo da região
DESERTO DE LIXO - Roupas descartadas no Atacama: parte do relevo da região (Antonio Cossio/DPA/Getty Images)

Em primeiro lugar, porque o impacto para o meio ambiente é devastador. As roupas de algodão demoram ao menos vinte anos para se desintegrar, e as de material sintético, mais de um século. Para lidar com o fluxo de peças absurdo, uma pesquisa inédita do Instituto Real de Tecnologia de Melbourne, na Austrália, analisou o caminho das roupas escanteadas e traçou soluções a fim de criar um ecossistema de produção e consumo sustentáveis. “É fundamental fortalecer o mercado de usados para que consigamos competir com a indústria da moda”, disse Yassie Samie, principal autora do estudo. A pesquisadora se refere a brechós e bazares beneficentes, que não são considerados, pela maioria dos consumidores, a primeira opção de local de compra. Embora não tenham infraestrutura para absorver e vender grandes volumes, eles seriam o melhor canal para encolher as pilhas de lixo e evitar a terceirização do problema a outros países.

Para tanto, é necessário o envolvimento do poder público local. “As prefeituras precisam criar incentivos, como subsidiar galpões para o armazenamento e a venda de roupas destinadas à caridade”, afirma Samie. Em outras palavras, é preciso ter políticas de coleta, reciclagem e destino, além de campanhas de conscientização ambiental contra o desperdício. Depois da indústria do petróleo, a moda é o setor que mais polui: libera 8% dos gases do efeito estufa e desperdiça 20% da água do globo.

SEGUNDA MÃO - Loja da plataforma Enjoei: expansão do modelo de brechós
SEGUNDA MÃO - Loja da plataforma Enjoei: expansão do modelo de brechós (./Divulgação)
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Das 170 000 toneladas de roupas produzidas por ano no Brasil, apenas 20% são recicladas ou reaproveitadas, de acordo com o mais recente levantamento do Sebrae. Do maior polo têxtil nacional, o bairro do Brás, em São Paulo, dezesseis caminhões lotados de restos de tecidos saem diariamente para descarregar em lixões. Muito desse material ainda fica pelas ruas e entope galerias pluviais. “A indústria da moda demorou muito para começar a incorporar questões de sustentabilidade na cadeia produtiva”, diz Juliana Picoli, coordenadora de projetos do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Grandes redes já estão fazendo a lição de casa ao adotar sistemas mais amigáveis ao planeta. Recentemente, a Renner lançou uma campanha para anunciar que, de cada dez peças produzidas para sua cadeia de lojas, oito atenderão ao padrão de sustentabilidade — daí a preferência até por fios reciclados das sobras de cortes de tecidos para a confecção das roupas. O grupo ainda adota a inteligência de dados para diminuir a pegada de carbono do ciclo fabril. E, junto a outras marcas do segmento, patrocinou o Eco Fashion Week, o maior evento do gênero na América Latina. Outro exemplo vem da gigante C&A, que passou a oferecer mais de 200 pontos para a coleta de roupas usadas em boas condições. Desde 2006, monitora os fornecedores com o objetivo de detectar agravos ambientais e problemas de mão de obra irregular.

arte textil

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Entre as saídas para diminuir o lixo têxtil, o estudo australiano recomenda algo ruidoso: a proibição das propagandas comerciais para diminuir o desejo pelo novo e fortalecer o mercado de usados. O preconceito contra a roupa de segunda mão, é verdade, diminuiu nos últimos anos, inclusive no Brasil, com a abertura de brechós empenhados em garimpar artigos seminovos. Um dos casos bem-sucedidos é o da plataforma Enjoei, criada há quinze anos. São 4 milhões de usuários e 85 milhões de produtos à venda pela internet e em três espaços físicos. Parece difícil frear a publicidade do universo fashion, e é natural que ela prossiga, mas ao menos há um movimento de conscientização pregando o respeito ao ambiente na hora de se vestir. É chique, sem dúvida.

Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2025, edição nº 2925

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