Desde que o salmão foi importado da Noruega para o Chile há cerca de quarenta anos, durante a ditadura de Augusto Pinochet (1915-2006), a produção do peixe se tornou uma das principais fontes de receita para o país sul-americano. Entre 1990 e 2017, a indústria local aumentou a produção em quase 3 000%, com 750 000 toneladas exportadas para mais de oitenta destinos. Foi assim que conquistou o segundo lugar na lista de gigantes do setor, atrás apenas dos escandinavos.Para o Brasil, envia 10% de suas remessas, de modo que praticamente todo salmão oferecido em supermercados e rodízios de comida japonesa por aqui vem do vizinho. Navegando nessas águas, os chilenos viraram o principal fornecedor para os Estados Unidos, faturando 760 milhões de dólares somente no primeiro semestre de 2025, e fizeram saltar de 56 milhões de dólares, em 2003, para 204 milhões dólares, neste ano, os ganhos com os envios para a Europa. No entanto, uma onda de denúncias sobre as condições de cultivo perigosas e a destruição de ecossistemas tem manchado a reputação e os lucros da indústria pesqueira da nação banhada pelo Pacífico.A principal reclamação está relacionada à segurança dos trabalhadores do segmento. Dados da ONG conservacionista Ecoceanos apontam que 83 pessoas perderam a vida enquanto labutavam nas fazendas marinhas entre março de 2013 e junho de 2025. Para efeito de comparação, apenas três indivíduos morreram na produção de salmão na Noruega em mais de três décadas. “Nos últimos doze anos, a indústria de salmão no Chile apresentou a maior taxa de acidentes e mortes no setor de aquicultura em todo o mundo”, disse ao The Guardian Carlos Cárdenas, diretor da Ecoceanos.A segurança, no entanto, não é o único problema. Segundo informações do Serviço Nacional de Pesca e Aquicultura do Chile, as fazendas aquáticas de salmão usaram 351 toneladas de antibióticos em 2024. Embora a quantidade seja menor que as 563 toneladas empregadas em 2014, por exemplo, ainda é muito elevada. Os noruegueses (eles, de novo!) não usaram 1 grama sequer de antimicrobianos no cultivo do pescado. O dilema é que essas substâncias acabam envenenando a água e prejudicando outras espécies de peixes e pássaros — e ainda podem contribuir para o surgimento de bactérias resistentes. Comunidades locais têm pressionado o governo chileno por mudanças, mas a falta de infraestrutura e equipes reduzidas de patrulhamento limitam a fiscalização dos tanques de salmão — alguns deles ficam cerca de doze horas de viagem de barco da costa.De fato, a produção de salmão envolve desafios particulares. Os peixes só vivem em águas frias, como na Noruega ou na Patagônia chilena. Os animais são criados em incubatórios terrestres antes de serem levados para tanques em águas profundas, onde são alimentados de forma automatizada e monitorados pelos trabalhadores até serem recolhidos para a venda. Por viverem em um ambiente pouco natural, os antibióticos até são necessários para evitar doenças e parasitas. Mas o custo ambiental é alto, e já se fala em alternativas.Para chamar a atenção para o problema, chefs internacionais têm se manifestado contra o salmão criado em cativeiro. Nomes importantes como o argentino Francis Mallmann e os americanos Alice Waters e Dan Barber, conhecidos por valorizar a produção local, participam de protestos e se recusam a servir o pescado em seus restaurantes. Na gastronomia brasileira, há um movimento de valorização de outras espécies, principalmente as regionais. Agora, em restaurantes asiáticos listados em prêmios e listas prestigiadas, o salmão raramente aparece no cardápio. A prioridade é para o atum e outras variedades, como olhete, pargo, carapau ou sororoca. Se há o peixe de cor alaranjada, ele vem da Noruega.No Paru, restaurante do chef Dário Costa na cidade de Santos, no litoral paulista, há a inscrição na parede: “Não temos salmão”. “O Brasil tem quase 11 000 quilômetros de costa, tradição na pesca, e diversos países compram nossos peixes. Faz sentido um peixe de cultivo duvidoso, de outro país, liderar as escolhas?”, escreveu nas redes. Nestes tempos de crise ambiental, as mudanças podem começar e terminar à mesa.Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974