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Papa apresenta sua versão de carne e osso em autobiografia; Leia trecho exclusivo

Obra, escrita em parceria com editor italiano, chega às livrarias na semana que vem

Por Ricardo Ferraz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 28 jan 2025, 14h53 - Publicado em 28 jan 2025, 08h32

As inscrições bíblicas narram que Pedro, o apóstolo firme como uma rocha sobre a qual Jesus decidiu edificar a Igreja Católica, recebeu das mãos do messias as chaves para o reino dos céus. A imagem foi eternizada no brasão do Papa, na figura de duas chaves (uma de ouro, outra de prata) que se cruzam sob uma mitra e conferem aos sucessores da primeira autoridade eclesiástica da história a mesma responsabilidade – ainda que estejam com os dois pés fincados em terra firme. É compreensível, portanto, que os pontífices cultuem certo aspecto divino em torno da própria imagem. No livro “Esperança” (Fontanar, 367 págs.), uma autobiografia, que acaba de ser lançada no Brasil, no entanto, o Papa Francisco percorre um caminho no sentido oposto e se esforça para mostrar uma faceta bem mais terrena de si. 

São sinais dos tempos. Em um mundo que gira em velocidade maior que o Vaticano, o Papa faz questão de se apresentar diante do público com as roupas do homem comum, “um pecador a quem o senhor olhou com misericórdia”, segundo suas palavras. A obra foi escrita em parceria com Carlo Musso, editor de diversos títulos anteriores do chefe da Igreja, de quem recolheu relatos, histórias e reflexões durante cinco anos. A ideia inicial era que o documento só fosse conhecido após a morte de Francisco, mas ele mudou de ideia por motivos pouco esclarecidos – em breve nota, Musso diz que o sacerdote foi tocado pelo “Jubileu da Esperança”, ano simbólico comemorado em 2025 pelos católicos. Embora desfile bom humor e carisma, características sempre marcantes de seu pontificado, Francisco busca inverter a lógica que costuma reger a vida de reles mortais: não são os fatos que comandam sua trajetória, mas os princípios. 

Alfinetada em Cristina Kirchner

O truque, necessário para, mesmo com humildade, elevá-lo à condição de farol moral, torna a obra um tanto enfadonha. A fuga que seus avós, dois ex-meeiros da região do Piemonte, empreendem da Itália, em 1927, na companhia do único filho, vira o pano de fundo para uma reflexão sobre o autoritarismo de Benito Mussolini. Carola e integrante de uma organização católica que foi perseguida pelo fascismo, a família Bergoglio teria deixado a terra natal para escapar de um regime despótico no período entre guerras. Em sua versão, Francisco cita uma frase que Pio XI, o ocupante da Cátedra de Pedro à época, teria feito chegar aos ouvidos do ditador: “Tenho vergonha de ser Italiano”. Estrategicamente, o Papa omite o fato de seu antecessor ter negociado junto ao Duce, a independência do Vaticano à Roma, no tratado de Latrão, dois anos após a partida de seus parentes. 

Como costuma acontecer em versões oficiais da história, Francisco diz mais quando se cala do que quando narra sua vida. Temas que frequentemente pautam o descompasso entre a Igreja e sociedade contemporânea são pouco abordados no livro. Não há qualquer menção ao aborto e a homossexualidade é tratada de maneira breve. O Papa faz questão de destacar que homossexuais e transexuais são bem recebidos por serem filhos de Deus e merecem o benefício do batismo, mas não narra a ferrenha campanha contra a legalização do casamento gay que promoveu na condição de cardeal em Buenos Aires, o que o levou a bater de frente com a então presidente do país, Cristina Kirchner. Bergoglio fala de si para expor e dar uma rara alfinetada na ex-mandatária. Deixa clara a diferença entre os dois ao tratar da própria mudança de humor, após sentar-se no trono de Pedro. “Quem entende esse Papa? Quando estava em Buenos Aires tinha uma cara de… — bom, aqui disse um palavrão — e agora está sempre sorrindo para todo mundo!”, teria dito a política. 

O primeiro amor

Seletas também são as memórias na infância, vivida no bairro portenho de Flores, espécie de reduto dos imigrantes italianos em Buenos Aires. Os primeiros anos de vida são sempre belos e inocentes. A convivência com outros imigrantes judeus e mussulmanos inspira um sermão sobre respeito à diversidade religiosa. Até as travessuras do pequeno Jorge Mario Bergoglio soam enfadonhas. Se resumem à importunação de uma viúva que, após o período de luto, recebia visitas secretas de um policial, interrompidas por gritos moralistas das crianças na rua. Em sua visão, o primeiro amor tem ares de um filme de Ettore Scola. Ele se declara a uma garota em uma carta adornada com uma casinha branca que seria a morada do futuro casal. Seus planos, no entanto, são frustrados pela mãe da menina que costumava enxotá-lo com a vassoura cada vez que ele se aproximava da pretendente.

Duas outras paixonites vieram na adolescência, mas “Esperança” não traz sequer a figura de um beijo roubado. A aproximação máxima que o jovem Bergoglio teve com pessoas do sexo oposto foi um tango, bailado em encontros no bairro de Palermo. Aos 17 anos, ele já sentia a “inquietação e vocação” do sacerdócio, que adotou de vez, após se confessar em uma Igreja e de ter longas conversas com um padre próximo de sua família. A entrada na Companhia de Jesus se daria depois de uma dolorosa e prolongada internação para retirada de três cistos no pulmão. A escolha causou certo conflito familiar com sua mãe, desgostosa por vê-lo abandonar o desejo de se tornar médico. 

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O conclave a e política

As revelações mais importantes ficam por conta dos bastidores do Conclave. Frustra-se porém quem espera altos conchavos políticos. Francisco atribui sua eleição a um discurso proferido nos debates que antecedem a votação, em que defendia que a Igreja não poderia ser autorreferenciada e deveria se abrir às periferias, fossem geográficas ou existenciais, como se referia aos recantos esquecidos da alma. Ao ser sondado por um colega se aceitaria o cargo, foi evasivo: “Hoje, neste momento da Igreja, nenhum cardeal pode dizer não…”, respondeu seguro de que era mais um kingmaker – alguém com influência para angariar votos -, do que um candidato com chances de ser escolhido. 

O pontífice, que na adolescência chegou a ler com interesse alguns panfletos comunistas e calou com um jato de água um tio que insistia em criticar Evita Perón, revela outro episódio chave para sua eleição, uma espécie de sabatina informal por parte de seus pares durante um jantar que antecedeu a votação. Na ocasião, foi inquirido sobre determinadas posturas dentro da Igreja, inclusive sobre a atuação da corrente marxista Teologia da Libertação, difundida na América Latina. Se colocou contra radicalismos de esquerda e de direita e foi eleito, batendo o arcebispo de Milão Angelo Scola, o cardeal de Boston, Sean O’Malley, o arcebispo de São Paulo, Odilo Scherer, e Marc Ouellet, o cardeal canadense que cuidou da Pontifícia Comissão para a América Latina. Empossado, dispensou salamaleques e trajes pomposos. Ao tentarem lhe impor o uso de uma calça branca sob a batina, respondeu com bom humor: “Não gosto de me fantasiar de sorveteiro”. 

Mas é no exercício do pontificado que sua face mais política surge sem disfarces. O Papa narra encontros e articulações com chefes de Estado, como Mahmoud Abbas, da autoridade palestina; Shimon Perez, de Israel; Vladimir Putin, da Rússia; Volodymyr Zelensky, da Ucrânia e Aiatolá Al-Sistani, em uma visita ao Iraque, em que o serviço secreto identificou tentativa de assassinato (leia trecho abaixo). As visitas foram sempre voltadas para a promoção da paz. Questões atuais com os rumos da democracia, os caminhos da ciência e a Inteligência Artificial também integram o rol de suas preocupações. Por mais que os esforços pareçam em vão, Francisco segue disposto a cumprir a difícil missão que assumiu há 12 anos:  moldar a Igreja aos tempos atuais, sem abrir mão de guiar seus fieis.   

Leia com exclusividade um trecho do livro Esperança:

Quase todos me desaconselharam a fazer essa viagem, que seria a primeira de um pontífice a região devastada por violências extremistas e profanações jihadistas: a covid-19 ainda não dera trégua, e até mesmo o núncio naquele país, o monsenhor Mitja Leskovar, acabara de testar positivo para o vírus. Acima de tudo, todas as fontes evidenciavam perfis de risco de segurança elevadíssimos, tanto que atentados sangrentos afligiram a região até a véspera da partida. Mas eu queria ir até o fim. Eu sentia que devia fazer isso. Eu apenas disse que sentia a necessidade de ir ao encontro de nosso avô Abraão, o ancestral comum de judeus, cristãos e muçulmanos. Se a casa de meu avô está em chamas, se em seu país nossa família corre risco de vida ou a perdeu, a coisa mais certa a fazer e chegar lá o quanto antes. Além do mais, não era possível decepcionar mais uma vez aquelas pessoas que, vinte anos antes, não puderam  abraçar Joao Paulo II, cuja viagem, com a qual ele desejara tanto inaugurar o Grande Jubileu de 2000, fora impedida por Saddam Hussein.

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Eu me lembrava muito bem daquele sonho desfeito.

Lembrava-me igualmente bem da profecia do Papa Santo, que, três anos depois, já idoso e enfermo, tentara de tudo, entre apelos e iniciativas diplomáticas, para impedir a nova guerra que, pautada em mentiras sobre armas de destruição em massa nunca encontradas, multiplicaria as mortes e a destruição e afundaria aquele pais no caos, transformando‑o por décadas no covil do terrorismo. O povo e a Igreja iraquiana esperavam havia tempo demais.

[…]

Mossul foi como uma ferida no coração. Já do helicóptero, atingiu-me como um soco: uma das cidades mais antigas do mundo, que transborda história e tradições, que testemunhara ao longo do tempo a alternância de civilizações e fora o emblema da convivência pacifica de diferentes culturas no mesmo pais — árabes, curdos, armênios, turcomanos, cristãos e sírios —, apresentava-se a meus olhos como uma vastidão de escombros após os três anos de ocupação por parte do Estado Islâmico, que a escolhera como capital. Enquanto eu a sobrevoava, ela surgia como a radiografia do ódio, um dos sentimentos mais eficientes do nosso tempo, porque gera por si só os pretextos que o desencadeiam: a política, a justiça e sempre, de modo blasfemo, a religião. Criam-se motivações de fachada, hipócritas e provisórias. Afinal, como bem diz o belo poema de Wisława Szymborska, o ódio “corre sozinho”.

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E mesmo após toda aquela devastação, o vento do ódio não havia se aplacado.

Avisaram-me assim que aterrissamos em Bagdá, no dia anterior. A polícia tinha repassado a Gendarmaria Vaticana uma notificação que chegara dos serviços secretos ingleses: uma mulher-bomba se dirigia a Mossul para se explodir durante a visita do papa. Um furgão também havia partido a toda velocidade com a mesma intenção.

A viagem prosseguiu.

Houve reuniões com as autoridades no palácio presidencial de Bagdá. Outras com bispos, sacerdotes, religiosos e catequistas na catedral sírio-católica Sayidat al-Nejat (Nossa Senhora da Salvação), onde onze anos antes foram massacrados dois sacerdotes e 46 fieis, cuja causa de beatificação está em curso. Em seguida, deu-se o encontro com os líderes religiosos do pais na planície de Ur, extensão deserta onde as ruínas da casa de Abraão confinam com a torre em degraus do maravilhoso Zigurate sumério: cristãos de diversas Igrejas, muçulmanos, tanto xiitas quanto sunitas, e yazidis enfim se reúnem sob a mesma tenda, no espírito de Abraão, a fim de recordar que a mais blasfema das ofensas e profanar o nome de Deus odiando o irmão.

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[…]

Antes ainda eu havia estado na cidade santa de Najaf, centro histórico e espiritual do Isla xiita, onde repousa o túmulo de Ali, primo do Profeta, para um encontro a portas fechadas que me era muito caro porque representaria um marco no caminho do diálogo inter-religioso e da compreensão entre os povos. A reunião com o grande aiatolá Ali Al-Sistani vinha sendo preparada pela Santa Sé havia décadas, sem que nenhum de meus antecessores conseguisse levá-la a cabo.

O aiatolá Al-Sistani acolheu-me fraternamente em sua casa, um gesto que no Oriente e até mais eloquente que declarações e documentos, pois significa amizade, pertencimento a mesma família. Fez bem a minha alma e me senti honrado: ele nunca antes recebera chefes de Estado e jamais se levantava; no entanto, naquele dia, significativamente, levantou-se comigo várias vezes, enquanto com o mesmo sentimento de respeito me apresentei sem sapatos em sua sala. De imediato me pareceu um homem sábio, de fé, preocupado diante da violência e empenhado em levantar a voz em defesa dos mais fracos e perseguidos, afirmando a sacralidade da vida humana e a importância da unidade do povo. Percebi sua inquietação com a combinação entre religião e política, certa aversão a “clérigos de Estado”, comum entre nós, e, ao mesmo tempo, a compartilhada exortação as grandes potências para que renunciem a linguagem das guerras, priorizando a razão e a sabedoria. Lembro-me de uma frase sua em particular, que trouxe comigo como um presente precioso: “Os seres humanos são ou irmãos por religião ou iguais por criação. A igualdade já está inscrita na fraternidade, mas, em todo caso, não e possível ir abaixo da igualdade. Por isso, assim como o verdadeiro desenvolvimento, o caminho para a paz não pode ter duas vias, não admite “contramão”, sendo apenas inclusivo e profundamente respeitoso.

No dia seguinte, quando perguntei a Gendarmaria o que se sabia sobre os atentados a bomba, o comandante me respondeu laconicamente: Não existem mais”. A polícia iraquiana os havia interceptado e explodido. Isso também me impressionou muito. Era mais um fruto envenenado da guerra.

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