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Extorsão e propina: acusações põem CPI das Apostas à beira de um escândalo

Senadores falam em tentativas de achaques e suborno e acionam a Polícia Federal

Por Ricardo Chapola Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 13 dez 2024, 15h19 - Publicado em 13 dez 2024, 06h00

A Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga os sites de apostas ouvia o representante de uma empresa, na terça-feira 3, quando começou um bate-boca entre os senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Soraya Thro­ni­cke (Podemos-MS). Relatora da CPI, a parlamentar disse, durante a audiência, que convocaria o “governo Bolsonaro” para saber por que o setor não havia sido regulamentado na gestão do ex-presidente. Ciro era o ministro-chefe da Casa Civil. Os ânimos se exaltaram: “Dá para a senhora me explicar por que chamar o governo Bolsonaro?”, indagou o senador. “O governo Bolsonaro tinha dois anos para regulamentar, mas não fez”, justificou Thronicke. “A senhora acha que isso vai ter algum ganho para o país, senadora?” “Debruce-se sobre a legislação para entender.” “A senhora não é professora de ninguém.” “Eu não lhe devo explicações.” O senador então advertiu: “Daqui a pouco é a senhora que vai ter que prestar muitas explicações aqui”. Parecia mais um duelo verbal entre dois parlamentares com diferentes pontos de vista. Mas o caso evoluiu e ganhou cores de escândalo.

Depois da discussão, Ciro Nogueira procurou o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), para informá-lo sobre algo “muito grave” que estava se passando nos bastidores da comissão. Ele relatou que um conhecido lobista de Brasília estaria extorquindo empresários ligados ao setor de apostas. E mais: existiria uma parceria entre esse lobista e membros da CPI. O esquema replicaria um método criminoso bastante conhecido: parlamentares, não necessariamente envolvidos com o achaque, apresentam requerimentos convocando representantes de empresas para prestar depoimento. Ato contínuo, o lobista bate à porta da empresa, diz que tem acesso e influência sobre determinados congressistas e pede uma quantia em dinheiro para reverter a convocação. Na conversa com Pacheco, o senador informou que o esquema já está sendo investigado pela Polícia Federal desde que um empresário do ramo confirmou ter sido abordado pelo tal lobista, que teria exigido dele 40 milhões de reais.

ESCLARECIMENTOS - Soraya e Ciro: os dois parlamentares denunciaram abordagens e pedidos de dinheiro a empresários que são convocados a depor
ESCLARECIMENTOS - Soraya e Ciro: os dois parlamentares denunciaram abordagens e pedidos de dinheiro a empresários que são convocados a depor (Pedro França/Agência Senado; Edilson Rodrigues/Agência Senado)

O presidente do Congresso ouviu o relato com preocupação. Ciro, que estava acompanhado do senador Rogério Carvalho (PT-SE), contou que a vítima do achaque é dono de um site de apostas e foi alertado de que seria convocado a depor na CPI. Na sequência, o lobista se apresentou, disse que tinha como evitar o “constrangimento”, mas que isso teria um “custo”. O empresário se recusou a pagar. Não tardou e o requerimento de convocação foi aprovado. Ciro não acusou diretamente Soraya Thronicke de envolvimento com o suposto esquema. O senador, no entanto, lembrou que a relatora da comissão, a quem cabe coordenar e supervisionar a investigação, não só conhece como mantém uma relação de proximidade com o lobista que teria tentado extorquir o empresário. Procurado, Ciro não quis se manifestar. Disse apenas que a denúncia chegou a seu conhecimento e que tomou “as providências cabíveis”. O senador petista que acompanhou Ciro confirmou o encontro com Pacheco, mas também não quis comentar o caso.

Silvio de Assis, o lobista, é um personagem conhecido no universo paralelo da política brasiliense. Reza a lenda que ele tem amigos poderosos em diversos partidos e em gabinetes importantes da Esplanada. Em 2018, ele foi preso pela Polícia Federal. Uma reportagem de VEJA revelou a existência de uma rede de corrupção que operava no Ministério do Trabalho e envolvia políticos e servidores públicos com “venda” de registros sindicais. Um empresário contou que esperava havia mais de cinco anos o registro de uma entidade, quando foi procurado por Silvio de Assis, que lhe pediu 3 milhões de reais para “resolver” o problema. O achaque foi documentado em áudios e vídeos, Silvio foi acusado de corrupção, mas o processo até hoje não foi julgado. O lobista se diz inocente. Em relação à CPI, afirma que não sabe por que envolveram seu nome no caso e conta que acompanha de perto os trabalhos da comissão — mas apenas para colher informações para “um documentário” que está produzindo sobre as apostas no Brasil. Indagado sobre a relação com a senadora, ele justificou que conhece “mais de 50% dos senadores”.

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EU? - Silvio de Assis: lobista acusado diz que prepara um “documentário”
EU? - Silvio de Assis: lobista acusado diz que prepara um “documentário” (Cristiano Mariz/.)

Soraya Thronicke rebateu as insinuações, confirmou que conhece o lobista e afirmou que realmente há fortes indícios de que algo grave se passa nos bastidores da CPI — mas não em relação a ela. A senadora conta que ouviu uma mensagem de áudio enviada a um empresário convocado para depor em que um senador pedia 100 milhões de reais para “resolver o assunto com a Soraya”. Ao contrário do que Ciro Nogueira concluiu, o tal parlamentar estaria usando o nome dela para achacar. Thronicke, no entanto, não revelou a identidade do colega criminoso e nem do empresário abordado, mas garantiu que encaminhou a denúncia à Polícia Federal. As duas histórias de extorsão são graves e precisam ser esclarecidas. A CPI das Apostas foi instalada em novembro e tem prazo de cinco meses para concluir os trabalhos. Os dezoito senadores já apresentaram 360 requerimentos, aprovaram 230 e ouviram até agora o depoimento de apenas seis testemunhas. Após o relato de Ciro Nogueira, Rodrigo Pacheco passou a considerar a hipótese de encerrar os trabalhos da comissão antes que seja necessária a criação de uma CPI para investigar a CPI.

Publicado em VEJA de 13 de dezembro de 2024, edição nº 2923

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