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‘Tarcísio é o nome ideal’, diz Ibaneis sobre disputa com Lula em 2026

Governador do DF quer articulação da centro-direita para impedir a reeleição do petista e faz ressalva à participação do STF no debate político

Por Laryssa Borges Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 10 jan 2025, 10h44 - Publicado em 10 jan 2025, 06h00

Primeiro político a ser punido na esteira dos atos de vandalismo do dia 8 de janeiro de 2023, quando foi afastado temporariamente do cargo por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, flertou com Jair Bolsonaro em 2022, tornou-se um dos mais eloquentes críticos de Lula e passou a defender desde já a união de partidos de centro-direita para impedir a reeleição do presidente. O candidato ideal para representar o grupo, segundo ele, é o governador Tarcísio de Freitas, que por enquanto nega a intenção de concorrer ao Palácio do Planalto. Filiado ao tradicional MDB, Ibaneis diz que as articulações sobre 2026 devem ter como objetivo derrotar a esquerda, cuja maneira de fazer política cindiria ainda mais um país já dividido. Ex-­presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no DF, o emedebista considera inoportuna a participação crescente do STF no debate político e afirma que decisões da Corte têm inflamado o país, mas demonstra apoio aos esforços empregados para punir as cabeças coroadas envolvidas na tentativa de golpe. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Nesta semana, completaram-se dois anos dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Que lições Brasília tirou desse episódio? A culpa não é só de Brasília. Ainda estamos vivendo um momento de extremo radicalismo. Pelo que foi descoberto, realmente alguns integrantes de extrema direita que integravam a força policial do Distrito Federal permitiram que se avançasse contra o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Existia um movimento radical ali. No inquérito, a Polícia Federal até aponta alguns erros do DF, mas está faltando apurar também os erros da própria PF e da Polícia Rodoviária Federal, já que em momento algum elas detectaram que essas pessoas vinham com o sentimento de quebrar tudo. Elas estão se defendendo ao colocar responsabilidades nas costas da nossa polícia, mas foi um erro compartilhado.

Querem terceirizar responsabilidades? Ainda existem pessoas que estão apaixonadas pelo discurso de extrema direita, e muita coisa precisa ser apurada para se saber quem errou do lado de lá também. A lição tem que ser geral, e o trabalho, conjunto, caso contrário, não vamos conseguir acabar com os atos extremistas. Criei uma delegacia com pessoas especializadas no monitoramento de redes e defendo uma integração maior com a Polícia Federal e com a Polícia Rodoviária Federal para que consigamos detectar e afastar essas coisas da capital da República. Mas é fato que algumas decisões do Supremo também têm colocado mais lenha na fogueira do que ajudado a pacificar.

“Ainda existem pessoas que estão apaixonadas pelo discurso de extrema direita. Mas é fato que algumas decisões do STF também têm colocado mais lenha na fogueira do que ajudado a pacificar”

A que o senhor se refere? Não tenho dúvida de que essas condenações que têm ocorrido, com penas de dezessete, dezoito anos, são extremadas. Na minha avaliação, as pessoas que estavam lá estavam insufladas pela turma da extrema direita e não tinham intenção de dar um golpe de Estado. Quando começou a sair a história do golpe, achava-se de início até meio risível porque não se faz golpe daquela maneira. A partir do momento em que se descobre que reuniões foram feitas, toma-se conhecimento de que Mauro Cid fez uma delação e o general Braga Netto é preso, aí, sim, começa a ficar mais claro o que aconteceu naquele período. As coisas estão aparecendo. Condenações certamente vão ocorrer por esses atos.

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Há espaço para uma pacificação? A pacificação vai ocorrer não entre o grupo de Bolsonaro e o STF. São os políticos mais voltados ao centro que vão terminar conduzindo o país rumo a essa direção, porque a política extremada não caminhou bem. Acho que agora, no início de 2025, os políticos vão conversar cada vez mais para encontrar um nome que seja o da pacificação. Será uma terceira via para valer. Melhor, não é nem a terceira via porque, se os partidos se juntarem, vai ser “a” via.

Escolher esse nome significa se descolar de Jair Bolsonaro? Esse descolamento será natural, inclusive com o acompanhamento de pesquisas que os partidos estão fazendo para ver se conseguem, em um processo de salvação da política, encontrar um nome de consenso. No cenário ideal, o candidato deveria ser o Tarcísio de Freitas, tanto pela capacidade de diálogo e de interlocução quanto por trazer o voto do bolsonarismo, que vai continuar sendo vital durante algum tempo. Mas o Tarcísio vem dizendo que não é candidato e que vai se reeleger governador de São Paulo. Ele foi o principal avalista na reeleição do prefeito Ricardo Nunes. É prova de haver um caminho que não precisa ser tão radical.

O MDB, partido do senhor, deveria aderir a uma eventual candidatura de Tarcísio ou, se ele não quiser concorrer, da via alternativa? Temos que sentar na mesa para dialogar com todo mundo que seja de centro-direita. Não conversei com o Baleia (Rossi, presidente do MDB) sobre esse assunto ainda, mas, se surgir um nome de centro, acredito que o partido caminha com esse nome. O MDB vai continuar sendo o MDB. Vai liberar as alianças locais e aguardar a discussão da política nacional para ver se as legendas conseguem encontrar um nome de consenso. Eu mesmo quero distância do Lula.

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Ajuda ou atrapalha o fato de Bolsonaro, mesmo inelegível, falar que é candidato? Vai chegar um momento em que o Bolsonaro terá de sentar na mesa com os partidos políticos, porque ele não vai querer perder o espólio sem deixar o sucessor. Dificilmente o Supremo vai reverter a inelegibilidade. Esse discurso de que é candidato é a defesa política dele. Já a defesa jurídica acho mais complicada. Quem conhece um pouquinho de direito sabe que a situação não está muito boa para ele. Bater de frente não funciona. É possível ganhar no Supremo, mas ganhar do Supremo ninguém ganha.

Em 2022, Bolsonaro venceu no primeiro e no segundo turnos no Distrito Federal, onde a esquerda tinha grande protagonismo. O que aconteceu? Não vou dizer que o PT morreu, mas a verdade é que os governos de esquerda foram desastrosos para a capital. Se tem uma coisa que o PT não conseguiu fazer nem em âmbito nacional nem em âmbito local foi uma renovação dos seus quadros. Acho até que tem bons nomes no partido, como o ministro Camilo Santana (Educação), que acompanhei como governador, mas, se o presidente Lula não for candidato à reeleição, não há alternativa.

Por que o senhor afirmou ser “maltratado” pelo governo federal? Em menos de um ano e meio, tivemos duas tentativas de acabar com o Fundo Constitucional (repasses do governo federal para custear polícias, Corpo de Bombeiros e políticas de saúde e educação do Distrito Federal). Isso não é uma coisa para a capital da República. Depois de alguns episódios recentes, não entro mais no Palácio do Planalto. Não preciso ficar baixando a cabeça para eles.

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Por que a relação com Lula é ruim? Quando ele disse que eu era cúmplice do Bolsonaro no 8 de Janeiro, demonstrou que não quer ter nenhum tipo de relacionamento comigo. Foi uma fala infeliz. Depois, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, disse que Brasília era a ilha da fantasia. Nunca tive uma relação muito próxima com o Bolsonaro, só que não caminho com a esquerda do ponto de vista ideológico. Depois de ser espezinhado dessa maneira, a gente tem que tomar uma postura de altivez, não é?

Cortar o diálogo com o governo federal não pode prejudicar os interesses da população do DF? Essa interlocução não existe, mas poderia existir. Se não com Lula, pelo menos com algum assessor ou ministro. A maneira como a esquerda está fazendo política divide muito e não é o caminho para um país que já está tão dividido. Eles não têm responsabilidade fiscal e são desorganizados do ponto de vista da interlocução. Lula não está dando mais conta de fazer essa interlocução, coisa que fazia muito bem, principalmente com o Congresso Nacional e com os governadores. Eu escutei de um político que o presidente está cansado desse relacionamento com a política. Basta ver a situação do Congresso Nacional.

A relação do governo com o Congresso se esgarçou muito por causa das emendas. O senhor considera que os políticos exigem dinheiro demais? A coisa está muito conturbada. Com o fortalecimento do Congresso, houve o que eu chamo de semipresidencialismo. O dinheiro das emendas é investido lá na ponta porque é difícil para o governo federal saber que tem de fazer uma ponte em determinado município. Se não for o deputado ou o prefeito, o governo nunca vai saber da necessidade daquela obra. Os parlamentares se acostumaram com isso e aumentaram o valor das emendas, mas isso estava beneficiando o país porque se conseguia avançar.

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“A maneira como a esquerda está fazendo política divide muito e não é o caminho para um país que já está tão dividido. Eles não têm responsabilidade fiscal e são desorganizados na interlocução”

Avançar apesar dos escândalos? Um ou outro vai ter. Acontece em todo governo, ninguém dá conta de segurar tudo. Mas não se pode condenar todos os parlamentares por conta do erro de um ou de outro. Pior era lá atrás, quando os deputados batiam na porta dos ministérios com o pires na mão. Também causou bastante estranheza nesse cenário político nacional o fato de terem feito um acordo entre os parlamentares, o Executivo e, segundo dizem, pessoas do Judiciário para aprovar uma lei regulamentando essa questão das emendas e, dias depois da lei sancionada, sem vetos pelo presidente, sai uma decisão do ministro Flávio Dino criando todas as regras novamente.

O Supremo está extrapolando? Imagina como o Congresso vai estar quando voltar aos trabalhos em fevereiro. O relacionamento está meio azedo, mas vamos torcer para o país dar certo. O poder que foi transferido para o Supremo Tribunal Federal veio um pouco da ausência do próprio Legislativo. A partir daí, o Supremo se empoderou e gostou desse empoderamento. Começou a participar inclusive da vida política. Na minha visão, não deveria acontecer, mas participa.

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Nas investigações do 8 de Janeiro, o senhor foi afastado do cargo e, na apreensão de seu celular, há uma mensagem em que diz que tirava uma “soneca” no momento dos ataques. Faz algum mea-culpa? A conversa a que você se refere não é relevante. De certo modo, o ministro Alexandre tem feito um trabalho até de preservação da democracia, porque tem muita coisa que espanta, como o plano de assassinato do presidente Lula. E as decisões, muito bem fundamentadas, têm sido mantidas pela Turma ou pelo Plenário do tribunal. Quando fui afastado do cargo, entendi que o ministro tinha que dar um recado a todos os governadores para não embarcarem nessa. Ele não sabia quem estava de um lado ou de outro. Respeito a decisão dele.

Publicado em VEJA de 10 de janeiro de 2025, edição nº 2926

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