Robert Greene, autor de ‘As 48 Leis do Poder’: ‘Não há atalho para o sucesso’
O escritor americano ensina como sobreviver no ambiente corporativo — incluindo receitas para lidar com questões como a inveja e o fracasso

Nascido e criado em Los Angeles, onde ainda reside, Robert Greene, de 65 anos, planejava ser roteirista de cinema. A carreira em Hollywood o levou a um meio tóxico e extremamente competitivo. Frustrado, ele passou a se dedicar a outra paixão: a pesquisa sobre eventos históricos. Ao pincelar no passado técnicas de estratégia de grandes líderes e civilizações, trouxe à luz o livro As 48 Leis do Poder, publicado no Brasil pela editora Rocco. Lançado originalmente em 1998, o título se mantém até hoje como um incontestável sucesso de vendas: na lista de VEJA, ele figura há quase cinquenta semanas entre os dez mais vendidos — uma nova edição revisada ampliou o apelo da obra nas livrarias recentemente. Ao contrário de colegas do gênero de autoajuda, Greene tem poucos livros no currículo, entre eles outros best-sellers, como 33 Estratégias da Guerra e A Arte da Sedução. O trabalho enxuto é reflexo de seu método de pesquisa extensivo: antes de escrever, o autor lê e faz anotações sobre cerca de 200 livros. Em entrevista a VEJA por videoconferência, Greene falou sobre as mudanças no mundo nos últimos vinte anos, como a maior diversidade no mercado de trabalho e a preocupação com a saúde mental, e refutou quem aponta que seus ensinamentos sejam agressivos: segundo o próprio, trata-se de um manual para se proteger daqueles que tentam puxar o tapete alheio.
As 48 Leis do Poder foi lançado há 26 anos e continua popular. A que atribui o sucesso duradouro? Nos Estados Unidos o livro também está vendendo melhor do que nunca. Acho que uma das razões é que estamos caminhando para tempos confusos e difíceis. O mundo está cada vez mais caótico. Então, isso aflora nas pessoas o desejo de ter poder e controle.
O que exatamente o senhor quer dizer com a palavra poder? Não controlamos muitas coisas na vida. Você não escolhe seus pais, não escolhe onde e nem a classe econômica em que vai nascer. A vida vem até você. Há muita sorte envolvida. Digamos que o grau de controle do que acontece com alguém é de, no máximo, 5%. Poder é ter mais controle sobre os eventos da sua vida. É possível, por exemplo, aumentar a capacidade de influenciar as pessoas do seu trabalho para que elas gostem de você e de suas ideias. Poder fazer seu chefe se interessar pelo seu trabalho, conquistar relações amorosas e até fazer com que seus filhos o escutem mais. Poder é aumentar essa margem de controle para poder reagir às circunstâncias da vida e se defender daqueles com más intenções.
O livro traz algumas táticas contestáveis, entre elas a de manipular supostos inimigos. O poder precisa ser do mal? Não digo que é preciso esmagar seu inimigo literalmente, digo que é necessário aprender a se defender dele. O mundo é um lugar competitivo e difícil. As pessoas podem ser perigosas e falsas. A segurança do emprego, que foi a realidade do meu pai, que trabalhou a vida inteira na mesma empresa, não existe mais. Para prosperar, você tem que se esforçar. É preciso aprender a lidar com a adversidade, com o fracasso e com a crítica.
“É preciso aprender a lidar com pessoas difíceis e não levar tudo para o lado pessoal. Isso vai ajudar na sua saúde mental, na sua estabilidade, e fará sua vida menos dramática”
E se a pessoa não quiser entrar nesse jogo? O jogo vai continuar, você querendo ou não. As pessoas que almejam o poder continuarão a existir, mesmo se optarmos por ignorá-las. Então, é melhor estar preparado. Não acho que sou cínico: sou realista. Quando você é jovem e entra no mercado de trabalho, já está no jogo. Todo mundo está jogando. Não existem atalhos para o sucesso. Então, você pode ignorar ou, talvez, aprender a jogar.
O outro lado são pessoas que colocam o trabalho à frente de tudo e, como consequência, sofrem burnout e outros problemas de saúde mental. Não há um meio-termo? Insisto que é preciso aprender a se fortalecer. É como se exercitar na academia. Ao levantar pesos, você constrói força e resistência. Isso leva anos de prática. O mesmo deve ser feito com a mente. Se você não souber lidar com as dificuldades da vida, então a menor coisinha ruim que acontecer vai lhe deixar nervoso, deprimido. Isso pode levar pessoas às drogas ou à bebida.
O movimento quiet quitting ganhou força recentemente, com jovens que não aspiram a cargos de chefia e trabalham o mínimo possível. É o oposto do que o senhor prega. Como avalia esse movimento? Se essa postura fizer a pessoa feliz, tudo bem. Não tenho nada contra. Mas, como disse, o mundo é um lugar difícil, competitivo e caótico. Se você não se esforçar o suficiente para progredir, obviamente, ficará para trás. Acho o quiet quitting o tipo de coisa que, quando se é jovem, parece atraente e sedutor. Acho que muito disso vem do medo.
Pode explicar melhor? Quem demonstra que não se importa, não terá de lidar com o fracasso. Se eu não falhar, não preciso encarar problemas ou a frustração. Há uma expressão em alemão para isso: Angst vor Erfolg, que significa “ansiedade do sucesso”. Trata-se de pessoas com medo de ser bem-sucedidas, pois quem está no topo atrai inimizades. E, por outro lado, se você falhar, será visto como um perdedor. Se eu não trabalho duro e faço apenas o que é preciso, então não terei que sofrer e nunca serei criticado. É uma maneira de autossabotagem para se proteger. Se funciona para você, ótimo, mas acho que pode ser perigoso.
E como lidar com o fracasso? Digamos que você tem 24 anos e quer ser um empreendedor, mas tem medo de falhar e perder dinheiro. Meu conselho é: abra o negócio e, se falhar, o.k. Você vai aprender lições que o deixarão mais forte e resistente para a próxima vez. Não podemos viver guiados pelo medo. Às vezes, é preciso dar um passo para trás. Assim como é preciso aprender a lidar com pessoas difíceis e não levar tudo para o lado pessoal. Isso vai ajudar na sua saúde mental, na sua estabilidade, e fará sua vida menos dramática ou emocional.
Um capítulo do livro sugere que o leitor deve aprender a levar o crédito pelo trabalho dos outros. Isso não é desonestidade? A intenção por trás desse ensinamento não é que você seja desonesto, mas que saiba que existem pessoas que vão tentar roubar as suas ideias, então é preciso ter cuidado. Logo, deve deixar claro seu envolvimento no resultado do trabalho. Isso aconteceu muito comigo em Hollywood, onde eu tinha ideias e pessoas se apossavam delas e colocavam seus nomes. Isso me afetava profundamente. Depois, aprendi que na vida as coisas são assim. Então, ensino o leitor a se defender de manipuladores e não se sentir culpado por isso.
Tom Jobim, um dos músicos brasileiros mais bem-sucedidos no exterior, dizia que no Brasil o sucesso era ofensa pessoal. Como vencer numa cultura como essa? É uma cultura bastante semelhante à da Escandinávia. Supõe-se que ninguém possa ser bem-sucedido ou ter mais destaque que o outro. É o medo da inveja — o que faz sentido, ela é perigosa. Uma das leis do livro é que a pessoa não aja como se fosse melhor que as demais, nem tente parecer perfeita.
Pode dar um exemplo? Recentemente, eu estava pesquisando para um novo livro e li sobre o Pelé, o grande jogador de futebol. Ele veio de circunstâncias muito pobres e se tornou rico e famoso. Ele enfrentou inveja no Brasil e sofreu muito. Uma das atitudes que ele tomou foi se voltar para as comunidades onde cresceu e ajudar aquelas pessoas. Ele estava tentando mostrar que não havia mudado, que ainda era parte daquela comunidade e construía campos de futebol para os meninos mais pobres brincarem. Foi uma maneira de desviar a inveja que vinha em forma de críticas.
No Brasil, a religião tem grande influência sobre os indivíduos. Enquanto existem os que atrelam a fé ao triunfo financeiro, muitos outros, especialmente católicos de classes mais baixas, associam sucesso ao pecado. Como lidar com essa relação? Maquiavel, que inspirou muitas das 48 leis do meu livro, era italiano e vinha de uma tradição católica. Ele apontava a hipocrisia da Igreja Católica, pois o Vaticano era uma das entidades mais poderosas e ricas do mundo. Então, quando a Igreja dizia lá atrás que a ambição era maligna e pecaminosa, soava hipócrita, não? Não devemos sentir culpa por isso. Quem acha que almejar o sucesso é ruim tem uma vida mais miserável. Mas há também o elemento contrário.
Como assim? Sempre que a culpa está ligada ao poder, à riqueza ou ao sexo, isso faz com que diversas pessoas se interessem ainda mais por eles. O tabu é um elemento transgressivo que sempre nos atrai.
“As pessoas que almejam o poder continuarão a existir, mesmo se optarmos por ignorá-las. Então, é melhor estar preparado. Não acho que sou cínico: sou realista”
O cenário do mercado de trabalho hoje é muito distinto do que era há duas décadas. Como analisa essas mudanças? No passado, ao menos nos Estados Unidos, o mercado era um jogo limitado aos homens brancos. Agora, ele se abriu e todos estão jogando. Quando você começa sua vida adulta, não tem ideia do que está acontecendo. Ninguém ensina como o mundo funciona. Por isso meu livro é brutalmente honesto sobre como as pessoas são, sejam quem elas forem.
Em que sentido? Cito exemplos de casos ocorridos há milhares de anos e de comportamentos que são inerentemente humanos. Estudei culturas com 5 000 anos de existência, da China, do Japão, da África, dos países árabes, da América do Sul. A inveja, por exemplo, está profundamente enraizada na natureza humana. Estamos constantemente nos comparando. Os filhos dele estão em escolas melhores? A esposa dele é mais bonita? Fulano ganha mais dinheiro que eu? As pessoas gostam mais de mim que daquela pessoa? Não há uma única civilização que não tenha passado por isso.
E como vê o papel das redes sociais sob o ponto de vista do seu livro? As mídias sociais adicionaram um elemento extra à busca do poder. Na lei 5, digo que você precisa proteger sua reputação a todo custo. Nas redes, as pessoas podem dizer todo tipo de coisa. Elas revelam suas emoções, podem ser muito maldosas e destruir a reputação de alguém. Mais cedo ou mais tarde, seu chefe pode ver um tuíte e isso pode lhe custar caro.
Há uma solução? As mídias sociais sempre foram sobre chamar atenção. Mas o mistério é poderoso. Se você está sempre postando e falando sobre si mesmo, não abre espaço para imaginarem como você é.
Destacaria uma lei essencial? A 48ª, sobre evitar seguir um padrão. É uma estratégia dos samurais: quem é previsível está exposto ao ataque. É necessário ser maleável, versátil e assumir formas distintas, conforme as situações acontecem.
Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2025, edição nº 2929