Os afastamentos do trabalho por transtornos mentais aumentaram cerca de 80% entre 2023 e 2025, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) analisados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).Em 2023, foram registrados 219.850 afastamentos superiores a 15 dias, período a partir do qual o trabalhador passa a receber benefício previdenciário. Em 2024, o número saltou para 367.909. Já em 2025, considerando dados até novembro, foram concedidos 393.670 benefícios, volume 79% maior do que o observado em todo o ano de 2023.O impacto financeiro acompanhou esse avanço. Em 2023, o custo total dos benefícios relacionados a transtornos mentais foi de R$ 477 milhões. No ano seguinte, o valor subiu para R$ 848 milhões, um aumento de quase 78% em relação ao ano anterior. Em 2025, o gasto ultrapassou R$ 954 milhões, o que representa um crescimento de 100% na comparação com 2023.“Os afastamentos mostram o estágio mais grave do adoecimento. Antes disso, existe um contingente enorme de trabalhadores, atuando com sofrimento psíquico, mas ainda sem chegar ao ponto de se afastar formalmente”, observa o presidente da ANAMT, Francisco Cortes Fernandes, que defende uma resposta preventiva mais eficiente. Depressão e ansiedade lideram os afastamentosEntre os transtornos mentais, a depressão se mantém como a principal causa de afastamento do trabalho. A soma dos afastamentos por "episódios depressivos" e "transtorno depressivo recorrente" chegou a 106.796 casos em 2023, avançou para 174.242 em 2024 e alcançou 182.937 registros em 2025.Resumidamente, a depressão é um transtorno caracterizado por humor persistentemente deprimido, perda de interesse ou prazer nas atividades, fadiga intensa e prejuízo funcional significativo. “No ambiente profissional, o quadro costuma se instalar de forma gradual, com impacto direto sobre a capacidade de concentração, a tomada de decisões e a manutenção do ritmo de trabalho”, explica a ANAMT. Em seguida, aparece a ansiedade. Os afastamentos classificados como “outros transtornos ansiosos” quase dobraram no período analisado, passando de 81.874 casos em 2023 para 157.235 em 2025. Somente esse grupo respondeu por cerca de 40% de todos os afastamentos por transtornos mentais registrados no último ano do levantamento.“No ambiente de trabalho, os quadros de ansiedade costumam estar associados a sobrecarga, pressão por resultados, jornadas extensas e baixa previsibilidade das rotinas”, destaca a Associação Nacional da Medicina do Trabalho.Segundo a médica do trabalho Leticia Maria Akel Mameri Trés, vice-coordenadora da Comissão de Psiquiatria do Trabalho da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), os sinais mais frequentes incluem irritabilidade, dificuldade de concentração, insônia, tensão muscular e sensação constante de urgência. “A identificação precoce desses sinais ainda permite intervenções que evitam a progressão do adoecimento”, afirma.Veja abaixo a lista completa dos transtornos mentais que levaram a afastamento de trabalho:Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool2023: 10.828 afastamentos 2024: 13.846 afastamentos 2025: 13.655 afastamentosTranstornos delirantes persistentes2023: 8132024: 1.151994Transtornos psicóticos agudos e transitórios2023: 1.969 afastamentos 2024: 2.869 afastamentos 2025: 3.375 afastamentosEpisódios depressivos2023: 70.6102024: 117.7082025: 122.222Transtorno depressivo recorrente2023: 36.186 afastamentos 2024: 56.534 afastamentos 2025: 60.715 afastamentosTranstornos de humor persistentes2023: 8982024: 1.5942025: 1.812Outros transtornos do humor2023: 239 afastamentos 2024: 396 afastamentos 2025: 359 afastamentosTranstorno do humor não especificado2023: 9872024: 1.8152025: 1.620Transtornos fóbico-ansiosos2023: 1.517 afastamentos 2024: 2.266 afastamentos 2025: 2.250 afastamentosOutros transtornos ansiosos2023: 81.8742024: 143.6912025: 157.235Reações ao estresse grave e transtornos de adaptação2023: 12.169 afastamentos 2024: 21.154 afastamentos 2025: 22.448 afastamentosBurnout tem aumento expressivoEntre todos os diagnósticos, o burnout foi o que mais cresceu proporcionalmente nos últimos três anos. Os registros mais do que triplicaram, saltando de 1.760 casos, em 2023, para 6.985, em 2025.Segundo a ANAMT, parte desse aumento pode estar ligada a um maior reconhecimento da síndrome. O burnout é definido como um estado de esgotamento físico e emocional diretamente associado ao trabalho, resultado de estresse crônico que não foi adequadamente gerenciado.Esse entendimento ganhou força nos últimos anos com uma mudança na classificação internacional da doença. “Com a transição da CID-10 para a CID-11, o burnout deixou de ser descrito de forma genérica, como um ‘estado de esgotamento vital’, e passou a ser reconhecido oficialmente como um fenômeno estritamente ocupacional, resultante do estresse crônico no local de trabalho”, explica a ANAMT.Na nova classificação, a síndrome passou a integrar o capítulo de problemas associados ao emprego ou desemprego e ganhou critérios diagnósticos mais objetivos, baseados em uma tríade que inclui exaustão ou perda de energia, distanciamento mental ou atitudes negativas em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.No Brasil, embora a CID-11 já venha sendo adotada de forma gradual, a implementação plena nos sistemas oficiais de informação em saúde está prevista para janeiro de 2027.“O reconhecimento do burnout como um fenômeno ocupacional é um avanço importante, porque dá nome, critério e nexo a um adoecimento que há anos impacta a vida dos trabalhadores. Isso fortalece o diagnóstico, a prevenção e também a responsabilização sobre as condições de trabalho”, afirma Francisco Cortes Fernandes, presidente da ANAMT.Tipos de benefíciosO detalhamento dos afastamentos mostra que a maior parte dos registros está concentrada nos benefícios por incapacidade temporária, especialmente os auxílios-doença. Em 2023, foram 198.432 concessões desse tipo. Em 2024, o número subiu para 344.220, chegando a 365.684 em 2025.Por outro lado, os dados também indicam um avanço de quadros mais graves, refletido no crescimento dos benefícios por incapacidade permanente. As aposentadorias por invalidez relacionadas a transtornos mentais quase triplicaram no período analisado: passaram de 1.849 concessões, em 2023, para 2.386, em 2024, alcançando 5.358 em 2025.