O Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH, na sigla em inglês) acusou nesta quarta-feira, 7, Israel de criar um "sistema de apartheid" na Cisjordânia. Em novo relatório, o órgão apontou que a "discriminação sistemática" contra a população dos territórios ocupados "deteriorou-se drasticamente" nos últimos anos. O alerta ocorre quase um mês após o governo israelense aprovar a construção de 764 unidades habitacionais em três assentamentos na Cisjordânia."Há uma asfixia sistemática dos direitos dos palestinos na Cisjordânia. Seja para acessar água, ir à escola, correr para o hospital, visitar familiares ou amigos, ou colher azeitonas – todos os aspectos da vida dos palestinos na Cisjordânia são controlados e restringidos pelas leis, políticas e práticas discriminatórias de Israel", disse o o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Turk. "Esta é uma forma particularmente grave de discriminação e segregação racial, que se assemelha ao tipo de sistema de apartheid que já vimos antes."O documento do ACNUDH afirmou que o governo de Benjamin Netanyahu trata "os colonos israelenses e os palestinos residentes na Cisjordânia sob dois conjuntos distintos de leis e políticas, resultando em tratamento desigual em uma série de questões críticas". O texto também advertiu que os "palestinos continuam a ser submetidos a confiscos de terras em larga escala e à privação do acesso a recursos".Essa política causou o "desapossamento de suas terras e casas, juntamente com outras formas de discriminação sistêmica, incluindo processos criminais em tribunais militares, durante os quais seus direitos ao devido processo legal e a um julgamento justo são sistematicamente violados", acrescentou. O relatório reiterou, ainda, que as forças israelenses "expandiram ainda mais o uso da força ilegal, detenções arbitrárias e tortura" após o início da guerra em Gaza, em 7 de outubro de 2023.Além disso, a análise indicou que o aumento da "repressão à sociedade civil e restrições indevidas à liberdade de imprensa, bem como severas restrições à circulação" caracteriza "uma deterioração sem precedentes da situação dos direitos humanos" na Cisjordânia. O ACNUDH disse, então, ter encontrado "motivos razoáveis para acreditar que essa separação, segregação e subordinação visam ser permanentes (...) para manter a opressão e a dominação dos palestinos".+ Israel inicia ataques contra o que diz ser alvos do Hezbollah e do Hamas no LíbanoEscalada da violênciaEnquanto isso, a expansão dos assentamentos continuam a todo vapor, embora sejam considerados ilegais pelo direito internacional, ao mesmo tempo em que assassinatos de palestinos são cometidos "com quase total impunidade" na Cisjordânia -- apenas 112 investigações foram realizadas para mais de 1.500 assassinatos entre 2017 e 30 de setembro de 2025, com apenas um condenado.O relatório, por fim, apelou para que Israel coloque ponto final na "presença ilegal no território palestino ocupado, incluindo o desmantelamento de todos os assentamentos e a evacuação de todos os colonos, e a respeitar o direito do povo palestino à autodeterminação". É improvável, contudo, que o pedido seja atendido: em setembro, Netanyahu aprovou um controverso plano de expansão de assentamentos na Cisjordânia.O projeto E1, que será estabelecido entre Jerusalém e Maale Adumim, estava congelado desde 2012 e 2020 devido a objeções internacionais. Agora, será retomado a partir da construção de milhares de unidades habitacionais, estradas e modernização da infraestrutura. A empreitada é estimada em cerca de US$ 1 bilhão (mais de R$ 5 bilhões).O plano recebeu apoio de membros ultranacionalistas da coalizão de Netanyahu, incluindo de Smotrich, que afirmou que a iniciativa "enterrará a ideia de um Estado palestino". Um relatório divulgado pela Human Rights Watch (HRW) nesta quinta-feira, 20, revelou que 32 mil palestinos foram expulsos pelo Exército de Israel de três campos de refugiados na Cisjordânia entre janeiro e fevereiro deste ano.