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Roteiro ruim: os fatores por trás dos incêndios em Los Angeles

Eles foram resultado de uma dupla condição: as mudanças climáticas alimentadas pelo ser humano, com seca exagerada, e a inépcia oficial

Por Valéria França e Felipe Carneiro, de Los Angeles
Atualizado em 17 jan 2025, 11h51 - Publicado em 17 jan 2025, 06h00

Foi como um rastilho de pólvora — aparentemente inofensivo, mas que rapidamente ganhou dimensões dramáticas, com Los Angeles em chamas. Ao longo da terça-feira 7, as notícias sobre o incêndio que começara por volta de 10h30 foram se espalhando, por meio de aplicativos de mensagens, ainda que a vida seguisse normal para quem não mora na região do primeiro foco, o Pacific Palisades, bairro com algumas das mais cinematográficas mansões de cidade, lojas charmosas e restaurantes luxuosos.

Ao cair da tarde alaranjada, as impressionantes imagens do fogo consumindo as casas com voracidade e fuligem no ar, além do cheiro de fumaça se alastrando por todo o condado, impuseram o nervosismo. Pessoas eram vistas saindo correndo de suas residências. O aplicativo Watch Duty, com informações em tempo real sobre alertas da Defesa Civil e dos bombeiros, atrelados a mapas detalhados, não demorou para estar onipresente. Ao início do segundo fogaréu, na área de Eaton, a metrópole de 3,8 milhões de habitantes já vivia o pânico. O demissionário premiê do Canadá, Justin Trudeau, enviou aeronaves para apagar as labaredas de até 36 metros de altura em locais de difícil acesso. O México também mandou reforço de contingente. O estado da Califórnia chegou a recrutar 900 detentos para trabalhar no combate às flamas, integrando um efetivo total de 14 000 bombeiros.

O DIA SEGUINTE - Cinzas: pelos menos 150 000 pessoas deixaram suas casas
O DIA SEGUINTE - Cinzas: pelos menos 150 000 pessoas deixaram suas casas (Tayfun Coskun/Getty Images)

A orientação das autoridades para os angelinos foi a de fugir do ar poluído o quanto antes, seja viajando, seja trancado de janelas fechadas. Na manhã da quarta 8, hotéis e o Airbnb, cuja sede fica em São Francisco, na Califórnia, se esforçaram para abrigar os desalojados. Nas cidades vizinhas, principalmente San Diego, a 200 quilômetros de distância, a hospedagem começou a ficar escassa e custosa, com preços de quartos chegando a dobrar em 24 horas — dias depois, contudo, em gesto de bom senso, havia desconto para quem escapava do desastre. As escolas informaram que permaneceriam fechadas na quinta-feira 9 e sexta-feira 10. O custo para recuperação e pagamento de seguros pode chegar a 135 bilhões de dólares. Houve pelo menos 25 mortes. Cerca de 150 000 pessoas tiveram de abandonar seus lares. Entre elas, a brasileira Luciana Brafman, fundadora da Time to Act, agência de audiovisual de conteúdo sobre emergência climática, moradora de Santa Mônica, a vinte minutos de carro do centro de Los Angeles. “Dava para ver as chamas de Palisades da esquina da minha rua, a visão era assustadora”, disse a VEJA. Quando veio a ordem de evacuar a região, ela teve tempo apenas de pegar uma pequena mala e, com o filho adolescente, entrar no carro sem olhar para trás. Apesar da experiência profissional em tragédias climáticas — chegou a filmar documentários sobre o tema —, foi a primeira vez que Luciana sentiu na pele o impacto de uma desgraça ambiental.

Mais de 200 000 cidadãos ficaram sem luz, em decorrência dos ventos derrubando postes e transformadores, e menos pelo fogo. O desespero de quem tentava entrar em contato com celulares descarregados de moradores das áreas afetadas foi aterrorizante. “Minha casa estava sem luz, meu telefone sem bateria, meu carro sem gasolina”, disse a VEJA a maquiadora Rebecca Jones, moradora de Altadena, bairro adjacente a Eaton. “Dormi de máscara de covid-19 na sacada, com medo de não ouvir o alarme de evacuação se ficasse de portas e janelas fechadas, ou de perder uma carona dos bombeiros para fugir.” A desgraça só não foi maior porque Los Angeles é sui generis, muito espalhada e quase sem prédios. Mas o estado de alerta prosseguia nos últimos dias no estado, com novas cidades californianas sob ameaça de incêndios.

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SUSTO - As postagens de Fernanda Torres, hospedada na cidade: em lugar seguro
SUSTO - As postagens de Fernanda Torres, hospedada na cidade: em lugar seguro (Reprodução/Instagram)

É natural que a calamidade afetasse a engrenagem da cidade do cinema. O incêndio em Palisades destruiu instituições queridas como a Palisades Charter High School, alma mater de numerosas celebridades e local de filmagem de muitos programas de televisão, entre eles o Modern Family. Também foram destruídos os ranchos de Will Rogers, estrela de cinema nos anos 1930, e o Topanga Ranch Motel, locação para inúmeras produções até hoje. Fernanda Torres, a vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz e em plena campanha de marketing de Ainda Estou Aqui, teve de adiar uma entrevista para um dos mais populares talk shows daquelas bandas, o de Jimmy Kimmel. Nas redes sociais, ela postou uma imagem do horizonte enfumaçado, e um aviso, em português e inglês: “O ar de Los Angeles estava muito ruim. Viemos para um lugar seguro, totalmente fora do incêndio. Fiquem tranquilos, estou bem.” Uma das apresentações do filme de Walter Salles, atrelada a um jantar liderado pelo diretor mexicano Guillermo del Toro, foi cancelada. A premiação Critics Choice Awards, prevista para domingo, 12 de janeiro, foi adiada para o dia 26. O anúncio dos indicados ao Oscar foi prorrogado — inicialmente do dia 17 para 19, e agora para 23.

A inação das autoridades foi multiplicada pela força da natureza em forma de rajadas a mais de 160 quilômetros por hora, os “ventos de Santa Ana”, que espalharam as chamas e impediram a contenção adequada pelos bombeiros. “As lufadas bloqueiam a entrada da umidade vinda do oceano e aumentam a intensidade e a velocidade de propagação do fogo”, diz o meteorologista Andrew Kruczkiewicz, professor do centro de preparação de desastres, da Faculdade do Clima da Universidade Columbia. Houve também escassez de água para as mangueiras, sem pressão adequada para os jatos. Uma investigação foi deflagrada pela Câmara da cidade. Por ora, desponta a incompetência, inaceitável em região tão rica. Não por acaso, diante da vergonhosa paralisia, celebridades de Hollywood puseram a mão no bolso. A cantora Beyoncé doou 2,5 milhões de dólares. A atriz Jamie Lee Curtis, 1,5 milhão. “A perda é emocional e devastadora”, disse o ator Mel Gibson, que perdeu a mansão avaliada em 15 milhões de dólares. A seu feitio, sempre boquirroto, Gibson, conservador de quatro costados, trumpista de primeira hora, acusou o governo democrata da Califórnia de ter provocado as queimadas, de modo intencional, sabe-se lá o motivo. É mera provocação.

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Contudo, a inépcia oficial não pode ser jogada para debaixo do tapete. “Tem gente dizendo que as imagens de Los Angeles parecem coisa de filme. Só que não. Filmes têm protagonistas. Todo o apocalipse de cinema tem um líder. Onde está o nosso?”, escreveu a autora americana Amy Chozick. “Qualquer roteirista sabe que o protagonista não precisa ser perfeito. Na verdade, preferimos protagonistas que tenham defeitos, desde que sejam nossos protagonistas. Não dou conta de acompanhar todas as denúncias criminais que já foram apresentadas contra Rudy Giuliani. Mas, depois do 11 de Setembro, o prefeito americano se postou no “ground zero” e garantiu, diante de uma cidade em frangalhos, que os ataques terroristas nos deixariam mais fortes. Será que alguém — qualquer pessoa — vai se postar no que sobrou de Pacific Palisades ou de Pasadena e falar o mesmo em relação a Los Angeles?”

Não, ninguém, e o descaso pode ser comparado à negligência oficial com o furacão Katrina, em agosto de 2005, próximo a Nova Orleans. Tudo somado, o drama de Los Angeles é uma mistura de incompetência com os problemas derivados das mudanças climáticas — elas também, insista-se, aceleradas pelas posturas negligentes do ser humano, em permanente descontrole. A Califórnia vive o inverno mais seco em 100 anos. Até 13 de janeiro, tinham sido emitidos 170 alertas de incêndio — 100 vezes mais do que a média dos primeiros três meses do ano, de 2012 a 2024. Por ser uma região de clima seco, muito calor e pouca chuva, os incêndios florestais são até comuns, nas cercanias de Los Angeles, mas geralmente de proporções pequenas e controláveis. E nunca acontecem em janeiro, época com maior concentração de umidade, e sim entre junho e outubro. A primeira quinzena de 2025 foi atípica, sem precipitação, condição que aumenta a incidência de fogo na mata. “Como toda catástrofe, a de agora ganhou abrangência devido a uma combinação de fatores”, diz o pesquisador em mudanças climáticas Pedro Camarinha, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

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DESOLAÇÃO - Queimadas na Amazônia brasileira: um problema atávico
DESOLAÇÃO - Queimadas na Amazônia brasileira: um problema atávico (Gustavo Basso/Getty Images)

As labaredas de Los Angeles, portanto, precisam ser vistas de modo mais amplo, dentro de uma curva histórica. A verdade inconveniente: o instituto de pesquisas sobre mudanças climáticas Copernicus, da União Europeia, informou que 2024 foi o primeiro ano em que as temperaturas globais ultrapassaram 1,5 grau de aquecimento acima da era pré-industrial. O limite, estabelecido pelo Acordo de Paris em 2015, é considerado a fronteira entre um planeta habitável ou não. Na média, os termômetros do mundo ficaram 1,6 grau acima dos registros entre 1850 e 1900, antes de os humanos começarem a queimar combustíveis fósseis e liberarem CO2 na atmosfera (veja no gráfico).

O calor — desmedido e extremado, agora verificado na conta do lápis — tem parte de responsabilidade nos sobressaltos ambientais dos últimos anos, ainda que seja prematuro decretar ilação de causa e efeito. Mas há sobejos indícios dessa relação, e, se as temperaturas aumentarem, dias piores virão, é o que indicam os mais sérios trabalhos científicos. Em 2024, aliás, Bolívia, Venezuela e Brasil — especialmente na Amazônia e no Pantanal — sofreram com incêndios. Inundações atingiram Nepal, Sudão e Espanha. A lista é infindável, e nela podem ser incluídas as enchentes do ano passado no Rio Grande do Sul e as de agora em Minas Gerais.

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O que fazer? “A emergência climática exige cidades mais resilientes”, diz Renata Franco, advogada especializada em direito ambiental. Em Medellín, na Colômbia, para combater o calor extremo, foram implantados corredores verdes, que aumentam o conforto térmico e ajudam na formação de chuvas. Também melhoram a qualidade do ar e conectam diversos pontos verdes espalhados pela cidade. Há soluções, e há tempo, se a civilização não quiser enfrentar flagelos como o de Los Angeles.

Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2025, edição nº 2927

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