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Os obstáculos para cessar-fogo e troca de reféns entre Israel e Hamas

Mediadores anunciam que o esperado acordo foi alcançado. Mas caminho ainda é longo

Por Caio Saad Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 17 jan 2025, 11h46 - Publicado em 17 jan 2025, 06h00

Foram quinze meses de guerra, quase 50 000 mortos e destruição sem precedentes, que mudaram a feição do Oriente Médio. Na quarta-feira 15, finalmente, Israel e o grupo palestino Hamas entraram em um acordo de cessar-fogo e troca de reféns por prisioneiros que permitiu vislumbrar uma chance de encerramento do conflito — embora a paz definitiva ainda pareça distante. A trégua vinha sendo articulada há meses por mediadores do Catar, Estados Unidos e Egito e seguidamente frustrada. Na última hora, as divergências falavam mais alto. Ao que tudo indica, o fator que encostou os rivais na parede agora foi o chamado “efeito Trump” — a tática do novo presidente americano de, antes mesmo de tomar posse, entrar chutando a porta e disparando ameaças para tirar os problemas da frente. Adiantando-se ao anúncio pelos mandatários à frente do pacto, o primeiro-ministro catari, Mohammed al Thani, e o presidente Joe Biden, Donald Trump colheu os louros: “O ÉPICO cessar-fogo só aconteceu devido à nossa Vitória Histórica em novembro”, postou, abusando como sempre de mal-educadas maiúsculas.

Resistente a dar o braço a torcer, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, seguiu com os bombardeios e declarou que alguns detalhes do acordo ainda estão sendo resolvidos, uma “crise de última hora” que atribuiu ao Hamas. Mesmo assim, nas ruas do país e da devastada Faixa de Gaza, a população fez festa pela perspectiva de desfecho próximo. O pacto em três fases começaria a ser implementado no domingo 19 (um dia antes da posse de Trump, conforme ele exigiu). Ao longo de 42 dias, os ataques cessarão, as tropas de Israel recuarão para áreas menos povoadas, a população começará a voltar para suas casas, a ajuda humanitária entrará em maior volume e, concessão mais esperada, 33 reféns — crianças, mulheres, idosos e feridos — serão trocados por cerca de 1 000 dos 11 000 prisioneiros palestinos em Israel.

No 16º dia se iniciam as negociações das dificílimas fases seguintes: devolução dos cerca de sessenta reféns restantes, retirada de Israel e instalação de uma nova administração em Gaza sem qualquer vínculo com o Hamas, que durante dezoito anos governou o território. Com tanto a ser feito, o sucesso depende de uma dose grande de boa vontade, artigo raro na região. “Para que haja paz, é necessário uma nova liderança em Israel e em Gaza, anos de educação pacificadora e compreensão mútua. Qual a chance de isso acontecer? Praticamente zero”, resume, desalentado, Yaniv Hegyi, sobrevivente do massacre que desencadeou a guerra.

...E DO OUTRO - Gaza: população vai às ruas celebrar a perspectiva de fim dos bombardeios e de volta para casa
…E DO OUTRO - Gaza: população vai às ruas celebrar a perspectiva de fim dos bombardeios e de volta para casa (Ashraf Amra/Getty Images)

O estopim para o mais longo confronto armado da história entre Israel e seus vizinhos foi um ataque-surpresa de militantes do Hamas, na madrugada de 7 de outubro de 2023, que durou horas, matou 1 200 pessoas com requintes de crueldade, a grande maioria civis, e capturou mais de 200. Israel, em represália, começou a bombardear no mesmo dia e não parou mais. Na trilha de destruição e mortes para “aniquilar o Hamas”, o governo tomou desvios para eliminar os líderes inimigos, apagar o poder de fogo do Hezbollah, aliado dos palestinos sediado no Líbano, sofrer e revidar dois ataques cirúrgicos do Irã, patrocinador das milícias, e ainda ocupar militarmente um naco das Colinas de Golã para se precaver contra os rebeldes muçulmanos que tomaram o poder na Síria. Resultado: Israel é hoje incontestavelmente a potência mais forte da região, com ímpeto renovado para ditar condições. Sem falar no apoio americano à doutrina de tudo pela defesa nacional, que Trump promete continuar incondicionalmente.

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O presidente eleito fala em reeditar os Acordos de Abraão, que, em sua primeira gestão, formalizaram relações entre alguns países árabes e Israel, e concretizar a troca de embaixadas com a Arábia Saudita, aliada imprescindível contra o hostil Irã. No meio do caminho para este novo Oriente Médio está a pedra da questão palestina e a eterna reivindicação de uma solução que contemple dois Estados, inadmissível para o atual governo israelense.

Reforçada pelas vitórias militares, a extrema direita ortodoxa que sustenta a coalizão de Netanyahu demanda, ao contrário, que o país anexe de vez as áreas reservadas aos palestinos. Gaza, uma estreita faixa à beira do Mediterrâneo onde viviam mais de 2 milhões de pessoas, é hoje terra arrasada: mais de 90% da população foi deslocada internamente, 60% das construções e 68% das estradas estão danificadas ou destruídas, 95% das escolas e hospitais foram atingidos por bombas e todas as universidades caíram por terra. A batalha pela paz promete ser longa por ali.

Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2025, edição nº 2927

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