França diz que rascunho de acordo entre Mercosul e UE é ‘inaceitável’
Críticas acontecem após Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, chegar a Montevidéu para a cúpula do bloco sul-americano

O gabinete do presidente da França, Emmanuel Macron, definiu nesta quinta-feira, 5, como “inaceitável” o rascunho do acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE). As críticas acontecem após Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, braço executivo da UE, chegar a Montevidéu, capital do Uruguai, para a cúpula do bloco sul-americano, pressionada por altas expectativas de que o tratado negociado há 25 anos seja anunciado nos próximos dias.
“O projeto de acordo entre a UE e o Mercosul é inaceitável tal como está. O presidente Emmanuel Macron voltou a dizê-lo hoje à presidente da Comissão Europeia”, escreveu o Palácio do Eliseu no X, antigo Twitter. “Continuaremos a defender incansavelmente a nossa soberania agrícola.”
As negociações têm encontrado forte resistência da França, que receia que as importações agrícolas vindas da América do Sul impactem negativamente o setor na Europa. As ressalvas francesas são malvistas pelos membros do bloco sul-americano (Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai), todos grandes produtores de soja e carne bovina, como forma de protecionismo europeu.
Para barrar o acordo, é necessário que ao menos três países da UE que representem mais de 35% da população formem uma minoria. Até o momento, a França é apoiada pela Polônia (a Itália também indicou preocupações, embora com menos veemência). Em contrapartida, há uma coalizão de 11 Estados-membros do bloco europeu a favor do acordo, sob liderança da Alemanha e Espanha, que prega a formação de novas rotas comerciais para reduzir a dependência da China e se proteger do tarifaço prometido pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, que toma posse em 20 de janeiro próximo.
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“Linha de chegada está próxima”
Poucas horas antes das críticas do Eliseu, von der Leyen afirmou que “a linha de chegada do acordo UE-Mercosul está próxima”. Ela destacou que o pacto seria a “maior parceria comercial e de investimento que o mundo já viu” e que “ambas as regiões serão beneficiadas”, já que proporcionaria “um mercado de 700 milhões de pessoas”.
O Mercosul abrange 73% do território da América do Sul, o que representa cerca de 65% da população da região, e viabiliza intensas trocas comerciais. Dados do Ministério das Relações Exteriores (MRE) indicam que de janeiro a outubro de 2024, o intercâmbio entre os países do bloco foi de R$ 32,5 bilhões.
Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que “Von der Leyen tem o mandato de fazer esse acordo”, acrescentando que ele pretende “assiná-lo este ano”. Na última manifestação brasileira sobre o assunto, o secretário de Assuntos Econômicos do Itamaraty, Mauricio Lyrio, disse, na segunda-feira 2, que “a última rodada de negociações terminou com avanços importantes”.