Brasil bate recorde de exportações aos EUA às vésperas da posse de Trump
Americanos compraram US$ 40,3 bilhões em produtos brasileiros, marco inédito, mas novo chefe da Casa Branca é ponto de incerteza no fluxo comercial

O Monitor do Comércio, publicação trimestral da Amcham Brasil, revelou nesta quinta-feira, 16, que as exportações brasileiras para os Estados Unidos bateram um recorde de 40,3 bilhões de dólares (cerca de 242,5 bilhões de reais, na cotação atual) em 2024, ultrapassando pela primeira vez a marca de 40 bilhões de dólares. O fato inédito ocorre às vésperas da posse de Donald Trump, que retorna à Casa Branca na próxima segunda-feira, 20, e cujo mandato promete turbulências para o comércio global com o aumento de tarifas e pode se distanciar do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O volume exportado também alcançou níveis inéditos, segundo a Amchan, com 40,7 milhões de toneladas, representando um aumento de 9,9% sobre 2023.
Em comparação com as vendas para outros mercados, o desempenho dos produtos brasileiros nos Estados Unidos foi expressivo. Enquanto as vendas globais do Brasil caíram 0,8%, as exportações para o território americano cresceram 9,2%, superando parceiros importantes como União Europeia (+4,2%), China (-9,5%) e Mercosul (-14,1%).
“O comércio com os Estados Unidos produziu ganhos significativos para a economia brasileira em 2024, movimentando um conjunto amplo de setores produtivos, com destaque para a indústria”, destaca Abrão Neto, CEO da Amcham Brasil. “As exportações brasileiras de produtos industriais tiveram recorde de 31,6 bilhões de dólares, reafirmando a posição dos Estados Unidos como o principal destino para bens brasileiros com maior agregação de valor”, completa.
A corrente de comércio entre os dois países também atingiu um patamar relevante: 80,9 bilhões de dólares, um aumento de 8,2% em relação a 2023, marcando o segundo maior valor da série histórica.
Indústria brasileira em evidência
Um dos destaques do comércio bilateral em 2024 foi o desempenho da indústria brasileira, que registrou um recorde de 31,6 bilhões de dólares em suas vendas a Washington, um incremento de 5,8% na comparação com 2023.
A indústria da transformação representou 78,3% de todas as exportações brasileiras para os Estados Unidos, consolidados como o principal destino das vendas do setor industrial pelo nono ano consecutivo, à frente de mercados tradicionais como União Europeia (22,4 bilhões de dólares) e Mercosul (18,8 bilhões de dólares).
Os principais produtos exportados que registraram crescimento em 2024 incluem petróleo bruto, aeronaves, café, celulose e carne bovina. Entre os dez itens mais vendidos para os Estados Unidos, oito apresentaram expansão em valor em comparação com o ano anterior.
Além disso, o crescimento das exportações para os americanos foi mais expressivo do que as vendas brasileiras para o mundo em todos os setores:
- Agropecuária: +36,9% (contra queda de 11% para o mundo);
- Indústria extrativa: +21,1% (contra +2,4% para o mundo);
- Indústria de transformação: +5,8% (contra +2,7% para o mundo).
Importações: energia em destaque
As importações brasileiras de produtos americanos cresceram 6,9%, atingindo 40,6 bilhões de dólares, com ligeiro déficit. Setores como motores, máquinas não elétricas e aeronaves tiveram resultados significativos, contribuindo para o segundo maior valor histórico de importações, atrás apenas de 2022 (51,3 bilhões de dólares). Entre os dez principais produtos importados, sete deles apresentaram crescimento.
Chama atenção o aumento das compras de gás natural, que responderam por 55% do crescimento total das importações. Esse aumento foi impulsionado pela estiagem em algumas regiões do Brasil, que afetou a geração de energia hidrelétrica, elevando a demanda das termelétricas.
Projeções para 2025
As perspectivas para 2025 apontam para a manutenção de altos níveis de comércio entre Brasil e Estados Unidos, na esteira do crescimento de ambas as economias.
Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o comércio internacional de bens deve crescer 3% neste ano. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que o PIB americano crescerá 2,8%, enquanto o brasileiro avançará 2%.
“Com a demanda em expansão nos dois países, esperamos que o fluxo comercial em 2025 se mantenha robusto, próximo dos valores mais altos da série histórica recente. No entanto, é crucial monitorar as elevadas incertezas internacionais”, alerta Abrão Neto, em referência à posse de Trump.
Os mercados financeiros se animaram com a vitória do republicano nas eleições de novembro passado, contando com os efeitos sobre o setor produtivo de suas reiteradas promessas de cortar impostos em geral e aliviar restrições, sobretudo nas indústrias que impactam o meio ambiente. No longo prazo, porém, o otimismo dá lugar à preocupação, com o impacto de gastos maiores e arrecadação menor na delicada situação fiscal do país, com déficit de 7% e dívida pública superior a 100% do PIB.
Prevê-se que o protecionismo comercial que caracterizou seu primeiro mandato retorne com mais ímpeto: Trump pretende impor tarifa de ao menos 10% sobre todas as importações e de 60% sobre os produtos que vêm da China, abrindo a possibilidade de retaliação em cadeia e dificultando o comércio global, com óbvias consequências negativas para o Brasil.
Aqui, devem pesar ainda sua identificação com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que dificulta o diálogo com o governo Lula, e seu descaso em relação às questões ambientais, item essencial da agenda atual de colaboração entre os dois países. Além disso, o petista sediará a COP 30, conferência climática das Nações Unidas, e assumiu a presidência do Brics, dois pontos de tensão com o republicano. Espera-se que Trump se retire do Acordo de Paris e nem pense em vir à COP 30, em Belém, enquanto prometeu retaliações fiscais contra o bloco dos países em desenvolvimento caso troquem o dólar por moedas locais nas transações internacionais (pauta que o mandatário brasileiro defende).