O VAR da saúde: a novidade que vem da Copa do Mundo de Rúgbi, na Inglaterra
Competição inaugura o uso de um protetor bucal que indica eletronicamente os contatos de cabeça muito fortes
Para o torcedor brasileiro, a Copa de Mundo de Rúgbi feminino, em disputa na Inglaterra até 27 de setembro, foi a celebração de um ineditismo: a participação da seleção brasileira, as chamadas Yaras. Elas perderam três jogos, sofreram 214 pontos e fizeram apenas 14, mas e daí? A equipe comemorava cada acerto como se levantasse a taça, em genuína alegria. Um outro destaque, esse universal, brilha com intensidade no rosto das jogadoras: protetores bucais, como os de lutas, com pequeníssimas luzes de LED embutidas que acendem em vermelho vivo quando um choque é muito forte. “O protetor mede os eventos de aceleração da cabeça, de modo a marcar todo impacto que ultrapasse o limite estabelecido pela confederação mundial da modalidade”, diz Adam Bartsch, diretor científico da Prevent Biometrics, desenvolvedora dos aparelhos.
Eles são conectados por meio de Bluetooth a computadores e smartphones dos grupos de arbitragem e médicos. Quando o alerta é acionado, e o LED no aparelho pisca, o juiz deve interromper a partida e o atleta passa por um exame obrigatório de no mínimo doze minutos. Uma série de testes de coordenação e cognição é realizada para diagnosticar a concussão, que pode apresentar sintomas imediatos ou demorar até 72 horas, segundo a Organização Mundial da Saúde. Há, naturalmente, algum incômodo no uso, porque os dados se tornam públicos — mas a aceitação na atual competição foi maciça. Apenas duas profissionais não usaram a traquitana, por terem um aparelho ortodôntico que impede o encaixe da inovação. “Embora não diagnostique lesões, auxilia na prevenção e detecção precoce de concussões e de situações que possam aumentar o risco de danos cerebrais”, diz Henrique Von Rondow, médico da seleção brasileira de rúgbi. Dores de cabeça, náuseas e vômito, problemas de equilíbrio, sensibilidade à luz e som são alguns dos indícios de uma concussão.
O mecanismo eletrônico introduzido pela primeira vez entre as mulheres pode representar uma extraordinária panaceia para uma dor de cabeça: há anos, debate-se na liga de futebol americana, a NFL, os estragos provocados pelo violento esporte — o tema vinha sendo empurrado para debaixo do tapete, até que, em meados dos anos 2000, o patologista nigério-americano Bennet Omalu decidiu investigar as concussões, à revelia das autoridades do torneio e mesmo dos congressistas. O embate viraria um excelente filme, Um Homem entre Gigantes, de 2015, com Will Smith no papel do médico. Houve aperfeiçoamento dos capacetes, houve afastamento de alguns atletas, mas o nó segue atado, sem solução imediata, apesar de resultados de estudos cada vez mais assustadores — embora, ressalve-se, nem toda disputa com a bola oval resulte em tragédia, como mostrou a recente partida entre o Los Angeles Chargers e o Kansas City Chiefs, na Neo Química Arena, em São Paulo.
No meio da incessante gritaria, um estudo da Universidade de Boston descobriu que uma boa parcela dos atletas de futebol americano que morriam jovens tinha encefalopatia traumática crônica, a ETC, também conhecida como “demência pugilística”. Da análise do cérebro de 152 cadáveres de atletas que sofreram impactos repetitivos, verificou-se que 63 tinham evidência neuropatológicas da doença, o equivalente a 40% da amostra. É muita coisa. A discussão de saúde, por inevitável, chegou também ao Brasil — por outros caminhos. Em gesto nobre, as famílias do boxeador Éder Jofre, o “Galo de Ouro”, e do zagueiro vascaíno Bellini, o homem que ergueu a Jules Rimet em 1958, ofereceram os cérebros dos dois ídolos, mundialmente respeitados, para que a medicina pudesse medir o tamanho dos danos — nos dois casos, o de Éder e o de Bellini, um porque levava socos, outro porque cabeceava bolas ou batia a cabeça contra a cabeça dos atacantes, houve confirmação de severas manchas neurológicas. É caminho sem volta, de preocupação permanente, e o que parece um ataque contra a tradição é defesa da beleza do esporte.
Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2025, edição nº 2961







