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O desafio das férias infantis dentro de casa

As crianças estão sem aula e isoladas no lar. E agora? Parece desesperador, mas existem algumas boas dicas

Por Julia Braun e Thais Gesteira 17 jul 2020, 06h00 | Atualizado em 5 jun 2026, 11h55
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Pais na ativa no home office, crianças ainda confusas com as aulas on-line, todo mundo respirando o mesmo ar, dia após dia, no isolamento imposto pela pandemia. A situação pode ficar mais caótica que isso? Pode — e já está, embora aos poucos possamos pôr os pés para fora. Pois as férias chegaram para a maioria dos alunos, colocando aos adultos o desafio de gerenciar o ócio dos filhos, especialmente dos menores, de modo que: 1) eles preencham o tempo livre com algo minimamente útil e 2) o delicado equilíbrio alcançado com tanta gente junta confinada se mantenha em níveis razoáveis. Antes de qualquer ação contra o marasmo, o mandamento número 1 dos especialistas é ajustar as expectativas. Seria irreal, afinal, aspirar a uma temporada repleta de estímulos quando não é recomendado, por ora, ficar saindo por aí, ao bel-prazer. Para que ninguém se sinta emparedado entre culpa e frustração, o caminho é não se cobrar em demasia. “Os pais não devem se comparar uns aos outros nem se basear nos exemplos idílicos que veem nas redes sociais. Cada um precisa entender o que é viável dentro de suas circunstâncias”, diz a psicopedagoga Michelli Freitas.

Isso posto, é bom estar ciente de que as energias andam represadas depois de tanto tempo de reclusão — e criar alternativas para gastá-las pode ajudar a aplacar a ansiedade que a situação naturalmente traz (veja o quadro na pág. ao lado). Desde a primeira semana de março em quarentena, a paulista Eunice Rocha, 42 anos, pôs os filhos Vinicius, 7 anos, e Guilherme, 10, para se mexerem nas férias — sua especialidade, aliás, já que é professora de educação física. Tem funcionado. “Brincamos de fazer alongamento e ioga e adaptamos a mesa de jantar para abrigar partidas de tênis”, conta Eunice, que de vez em quando, para mudar de ares, organiza viagens curtas para o interior do estado, onde ela e o marido (um engenheiro mecânico que segue trabalhando enquanto a casa é convertida em arena esportiva) têm uma chácara. “É legal variar o cenário”, arremata. Ela, porém, não ultrapassa as fronteiras recomendadas pelos epidemiologistas. “Viajar para casas de veraneio e de campo sem aglomerações já pode ser uma alternativa”, diz o especialista Eder Gatti, que pondera: playgrounds, parques e praias em que há risco de juntar muita gente ainda são contraindicados.

As restrições dadas pelo contexto pandêmico, aliadas ao excesso de tempo livre nas férias em casa, tendem a deixar a criança mais agitada, irritada, ansiosa e às vezes triste. “A quebra de rotina é muito dura e, por essa razão, os pais precisam olhar para os filhos de maneira mais atenta e compreensiva”, frisa a psicóloga Ceres Araujo. Com tudo conspirando a favor do dolce far niente, uma alternativa é envolver a garotada nas tarefas domésticas — sim, muitos reclamam, mas também se divertem, sobretudo quando se aventuram na cozinha. A empresária carioca Stella Panucci, mãe de Lucca, 8 anos, e Cauã, 13, foi além. “Eles passaram a arru­mar, a ajudar na louça e a cuidar dos cachorros”, celebra a novidade pós-quarentena. Conseguiu também algo raro: os meninos estão lendo vinte páginas de livros os mais variados por dia, outra oportunidade descortinada nestas férias diferentes.

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Não há dúvida de que as inseparáveis telas — de TV, computador, celular — estão entrando pesadamente em cena. Privada da brincadeira com os amigos, esta geração tem se conectado do jeito que conhece bem: pelas redes sociais e pelos jogos on-line. Uma pesquisa do departamento de psiquiatria da Unifesp calcula que a média de três horas diárias em frente às telas saltou para as atuais seis. Como se sabe, o excesso delas conspira para o sedentarismo e pode causar prejuízos ao desenvolvimento cognitivo. Mas numa situação tão atípica quanto a epidemia, vale afrouxar as regras — em nome da agenda infantil e da trégua que os eletrônicos podem proporcionar aos adultos. “Não há problema em aumentar o tempo de tela neste período, desde que os horários sejam combinados e se façam intervalos”, ensina a psicopedagoga Michelli Freitas. “Como meu filho não tem o que fazer, liberei mais o videogame e as séries”, diz a carioca Cássia Flores, em tom de confissão, sobre Eduardo, de 17 anos.

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A modernidade trouxe a equivocada ideia de que cabe aos pais manter as crianças sempre entretidas, felizes e realizadas. Quem está nessa função de “recreador infantil” todos os dias sabe bem como tão alto grau de exigência acaba sendo exaustivo. Os especialistas enxergam o risco de que as férias na quarentena exacerbem ainda mais a sensação de que os rebentos não estão perfeitamente atendidos. Por isso, enfatizam a ideia de que é bom deixá-los se virar também sozinhos. “O tédio é importante para a criatividade, o autoconhecimento, e não devemos encará-lo como algo a ser combatido o tempo todo”, afirma a psicóloga Ana Lídia Zerbinatti. Está aí uma lição que os pais de hoje ainda não aprenderam.

Publicado em VEJA de 22 de julho de 2020, edição nº 2696

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