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A vantagem competitiva que a IA não replica

O fator humano nas organizações deve ser reinterpretado de modo estratégico

Por André Turquetto 26 jun 2026, 05h30
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Quanto maior o avanço da tecnologia, menos espaço existe para lideranças que se comportam como máquinas. Por décadas, o mundo corporativo reverenciou o líder-herói: o executivo que centralizava decisões, parecia ter todas as respostas e precisava transmitir segurança absoluta. Esse modelo até fazia algum sentido em um contexto mais previsível, no qual a informação era menos acessível e mais concentrada. Hoje, não mais.

Além disso, a pandemia expôs vulnerabilidades e acelerou mudanças profundas que o “capitalismo da atenção” e a ascensão da inteligência artificial tornaram irreversíveis. Passamos a viver uma era em que a velocidade tem valido mais que a reflexão.

Algoritmos processam dados, reconhecem padrões e sugerem soluções em escala inédita. E, quando respostas prontas viram commodity, ganham valor as capacidades genuinamente humanas — fazer boas perguntas, conectar perspectivas, discernir, ponderar, acolher, intuir e manter o equilíbrio em ambientes cada vez mais complexos. São competências que florescem menos no controle e mais na abertura ao conflito saudável de ideias. Por isso, o fator humano nas organizações precisa ser reinterpretado como estratégia, não como adorno. É uma alavanca de resultado sem qualquer relação com complacência e permissividade. Não se trata de uma soft skill acessória, mas de uma lógica intencional de gestão.

“Criar contexto para um time construir é algo que ainda depende de um líder”

Quando um líder admite que não sabe tudo, pede ajuda e expõe dúvidas, não está enfraquecendo sua posição. Está criando as condições para que a inteligência coletiva apareça. Em ambientes de confiança, essa inteligência permite conflitos saudáveis de ideias, refina a capacidade de priorizar e tem a propriedade de se multiplicar. As pessoas identificam problemas mais rápido, compartilham informações com transparência e colaboram para proteger umas às outras, e não umas das outras. A energia passa a ir para o que importa: entregar resultado, buscar relevância, antecipar cenários e “disruptar” o próprio negócio antes que a realidade o faça.

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Há ainda um ativo um tanto menosprezado, mas fundamental na era da IA: o repertório. Navegar contextos de mudança acelerada exige mais que conhecimento técnico. Exige incentivo ao acúmulo de conhecimento diverso (de literatura, relações, artes) para conectar pontos, interpretar sinais e combinar visões diferentes que não se encontrariam sozinhas. Quanto mais diversa a bagagem de uma equipe, maior sua capacidade de adaptação e inovação. O papel do líder deixa de ser concentrar inteligência para orques­trá-la, e isso tem um nome, ainda que o termo costume ser mal interpretado: liderança humanizada.

Na era da IA, a tecnologia continuará ampliando a execução. Mas criar o contexto em que um time constrói algo que nenhum dos membros elaboraria sozinho — isso ainda depende de um líder. Provavelmente vai continuar dependendo.

Liderança humanizada é a única vantagem competitiva que não tem API.

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André Turquetto é CEO da Veloe

Os textos dos colunistas não refletem necessariamente as opiniões de VEJA NEGÓCIOS

Publicado em VEJA, junho de 2026, edição VEJA Negócios nº 27

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