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Othon Bastos: ‘O tempo é um grande amigo’

Aos 91 anos, o ator segue no palco com Não Me Entrego, Não!, o primeiro monólogo da sua carreira

Por Duda Monteiro de Barros Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 jan 2025, 08h00

Com 72 anos de carreira, fazer um monólogo está sendo uma experiência totalmente inédita para mim. Quando decidi trabalhar em uma nova peça, sabia que não queria nada amargurado. Minha intenção era levar esperança e alegria para as pessoas, e assim foi construído meu monólogo, Não Me Entrego, Não!, um título que resume minha força vital. Levei ao meu amigo Flávio Marinho (diretor da peça) mais de 600 páginas sobre o que vejo, penso e sinto. Magistralmente, ele conseguiu dividir o material em blocos temáticos e transformar tudo em uma coisa só. Quis contar a história das minhas sete décadas de atuação de uma forma bem-humorada, sem mágoas. Há muito tempo que eu fazia só cinema e sentia o teatro perguntando: “E aí, vai me abandonar?”.

Todo o espetáculo foi movido a otimismo, do jeito que eu acredito que a vida deve ser. Sem patrocínio, o Flávio escreveu, dirigiu e teve a ousadia de colocar a peça no palco. E as pessoas amaram. Mas está sendo desafiador e extremamente cansativo. Sempre fui um cara bom de memória, gravava desde fórmulas matemáticas até teorias filosóficas. Porém, com o tempo, algumas coisas se perdem. De vez em quando tenho até que procurar certas informações sobre mim no Google, para ter certeza do que aconteceu. Então tive que ler e treinar bastante o texto para conseguir sustentar uma hora e meia em cima do palco, sozinho. Aliás, até hoje sinto um medo, um frio na barriga quando estou prestes a entrar em cena. Mas existe uma força divina que me faz ficar seguro quando começo de fato a interpretar. Tenho muito amor pelo que faço, peço sempre licença ao palco e dou tudo de mim em cena. Diferente do cinema, onde o público te assiste em uma tela, sentado na poltrona e se enchendo de refrigerante, o teatro cria uma espécie de catarse coletiva, uma conexão sem igual.

Acredito que a vitalidade é uma qualidade inata. Sempre fui muito feliz e a arte me ajuda a estar sempre ativo. Quero trabalhar até não dar mais. Acredito muito que as coisas que são nossas acabam achando a gente. Percebo que inspiro o público, pessoas de 60 e poucos anos vêm me dizer que viram em mim ânimo para continuar vivendo. Aos 91, entendo que só envelhece quem desiste, quem fica se debatendo e lastimando por conta do passar do tempo. Eu sigo sempre em frente, aproveitando cada fase, sem me prender ao passado. O tempo é, na verdade, um grande amigo. Sou cheio de orgulho dos meus 58 anos de casado, de ver meu filho ter uma carreira bem consolidada. Já atuei em uns oitenta filmes, nem consigo contar mais, e praticamente todos os meus colegas de trabalho já se foram. É um privilégio estar neste mundo, dou o valor merecido. Sou um homem de muita sorte.

Infelizmente, o preconceito contra os idosos é extremamente forte no Brasil. Nós, da terceira idade, somos menosprezados e abandonados. No meio artístico, a situação é ainda pior. Não estou aqui para dar aula ou ensinar, mas quero transmitir o que aprendi. Dou o que tenho de melhor na minha alma. Shakespeare dizia que a velhice é um jovem que deu certo. Um dos momentos mais lindos da peça é quando eu digo que nasço contente todas as manhãs. Não sou uma pessoa religiosa no sentido tradicional, mas agradeço todos os dias, porque sei que tudo passa. Hoje estou colhendo aquilo que plantei a vida inteira e acho isso maravilhoso. E também sei que sou como uma árvore, que produz o fruto sabendo que quem vai usufruir são as outras pessoas. Acho que meu espetáculo está dando certo, tanto para mim quanto para o público. Quando passo alguns dias fora de cartaz, já começo a ter saudade, fico treinando sozinho as falas para não perder o jeito. Nunca vou me cansar da arte, vou estar com ela até o fim. Como disse o poeta Mário Quintana, eu não tenho paredes, só horizontes.

Othon Bastos em depoimento a Duda Monteiro de Barros

Publicado em VEJA de 10 de janeiro de 2025, edição nº 2926

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