O que é a dark fantasy, nova tendência de sucesso no mundo editorial
Nas quase 1 000 páginas do best-seller Alchemised, a autora nipo-americana SenLinYu demonstra a força da onda
Uma alquimista é capturada por necromantes malignos que tomam o poder na cidade-estado fictícia de Paladia e iniciam uma guerra. Mas sua força se revela singular: após meses de tortura, ela permanece resistente e viva. Essa é a história narrada nas quase 1 000 páginas de Alchemised, romance da estreante SenLinYu e um dos principais lançamentos de ficção em 2025. O enredo cheio de tensões e reviravoltas é antecedido por um aviso peculiar, que deixa claro ao leitor que aquela não será uma leitura comum: ali ele encontrará relatos de violência religiosa, ideação suicida, automutilação, canibalismo, eugenia e outros assuntos para lá de pesados. A escolha dos temas, ainda que extrema, funcionou: nos Estados Unidos, o livro vendeu 1 milhão de cópias apenas em seu mês de lançamento, e no Brasil, onde foi lançado pela Intrínseca, já soma 50 000 unidades comercializadas, além de seis semanas entre os mais vendidos de VEJA.
Vários elementos de Alchemised chamam a atenção do público, da lista infindável de temas desconfortáveis a seu tamanho portentoso. O livro reforça uma tendência editorial curiosa: a dark fantasy, ou fantasia sombria. Desde que as histórias fantásticas de teor adulto invadiram as livrarias e as telas na esteira do sucesso de Game of Thrones, do americano George R.R. Martin, o segmento se diversificou — e radicalizou na abordagem de temas impactantes. Na dark fantasy, os assuntos espinhosos embalam um verdadeiro mergulho no terror.
Curiosamente, duas jovens autoras de origem oriental se destacam nessa seara. Além da americana de ascendência japonesa SenLinYu, de 34 anos, a sino-americana R.F. Kuang, de 29, vem construindo uma carreira bem-sucedida mesclando fantasia e puro horror humano. No best-seller Babel: ou a Necessidade de Violência (2024), Kuang tece a história de um estudante acadêmico chinês do século XIX que descobre o suposto segredo mágico por trás das conquistas coloniais do Império Britânico — no desenrolar do enredo intrincado, a autora não economiza em elementos como tortura, abuso sexual, racismo e violência colonial.
A tática de choque, no fundo, é usada pela dark fantasy para expor as facetas mais sinistras da natureza humana — que podem se manifestar em qualquer espaço, por mais irreal que seja. “Essas escritoras reinterpretam arquétipos clássicos do fantástico sob um olhar mais contemporâneo”, analisa Antonio Castro, editor da Intrínseca. Para a própria SenLinYu, a ascensão da dark fantasy é produto de um modo de vida acelerado e vertiginoso. “A vida se tornou assustadora para muitas pessoas. Não fomos preparados para analisar a quantidade de informações que recebemos”, disse a VEJA. A literatura revela nossos medos e nos ajuda a lidar com eles.
Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2025, edição nº 2972







