Diretor de ‘Dona Beja’ explica polêmicas com Grazi e Bianca Bin e fala de assédio
Em conversa com a coluna GENTE, Hugo de Sousa dá sua versão sobre os bastidores tensos de produção da HBO Max
Vencedor do Emmy Internacional e ex-diretor da Globo e Plural Entertainment Portugal, coube ao diretor português Hugo de Sousa, 49 anos, assumir o cargo de direção artística e geral da novela Dona Beja, produzida pela Floresta para a Max (HBO Max). Responsável pela condução do projeto, Hugo se envolveu em diversas polêmicas ao longo das gravações. Houve rumores de que seu contrato foi encerrado antecipadamente, sendo afastado da pós-produção, ainda em meados de 2024, por causa de atritos com elenco. Diretamente de Lisboa, onde mora, Hugo quebra enfim o silêncio ao conversar com a coluna GENTE sobre a relação com Grazi Massafera e Bianca Bin, a denúncia de assédio feita por uma figurante e as constantes reclamações dos demais atores.
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PRODUÇÃO POLÊMICA. “Era um produto muito desejado. Muita gente queria fazer parte de Dona Beja, sentia que havia gente que queria trabalhar e fazer parte do projeto. Antes de começarmos, já falatório e polêmicas, o que por um lado é muito bom, faz parte da profissão. Por outro lado, tem momentos em que a gente ignora (as polêmicas).Nem sequer tinha tempo para dar atenção ao que estava saindo (na imprensa). 90% eram mentiras, outras eram acontecimentos deturpados. O que mais incomodou foi prolongarem o assunto, mesmo depois de terminadas as gravações. Um ano e meio depois, ainda falavam de fatos que não eram reais”.
PROBLEMAS COM ATRASOS E ALIMENTAÇÃO. “Na época saiu notícia relacionada a alimentação (que havia apenas uma parada para comer em um dia inteiro de set) e aparecia sempre escrito que era a forma de trabalhar do diretor português. A própria produção estava se adaptando a um acontecimento novo. Era a primeira vez no Brasil que se produziu uma novela fora de uma grande emissora, como a Globo, a Record ou a Band, uma produtora que não tem experiência de produzir ficção, era necessário se adaptar. Tem que ser tudo de novo, todo equipamento tem que ser adquirido, uma estrutura gigantesca. Para uma produtora que está acostumada a produzir novela há muitos anos, é simples. Agora, para quem nunca fez, até comprar uma máquina de café era novidade”.
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RELAÇÃO COM GRAZI MASSAFERA. “Rapaz, eu tinha que liderar cerca de 300 pessoas. O diretor geral não tem que lidar diretamente com todo mundo, é uma equipe de 300 pessoas que, de uma forma ou de outra, todos acabam por falar, de certa forma, comigo no dia a dia pelas mais diversas questões. Se temos um elenco que, se contarmos com as participações, chega quase a 100 atores, não podemos todos sermos amigos e irmos todos os dias jantar na casa uns dos outros. O importante é o respeito mútuo e o reconhecimento de uma identidade artística, de valores. Eu e Grazi comungamos dos mesmos valores do projeto, do que Beja significava, o que era aquela mulher. E isto leva a momentos em que estamos 100% de acordo e momentos em que não estamos 100% de acordo. Como em qualquer projeto, qualquer relacionamento entre ator e diretor. Há sempre visões diferentes sobre a mesma questão. Não significa quem está certo ou errado, temos que chegar a um consenso. E conseguimos chegar a esse consenso. Portanto, as polêmicas que saíam, no fundo não eram verdadeiras. Nós não andávamos chateados ou zangados um com o outro. Há sempre várias opiniões em relação ao mesmo tema. E não há um certo e errado. Conversávamos e debatíamos”.
GRAZI SEM DECORAR TEXTOS. “Com certeza. Se você imaginar que qualquer protagonista, em qualquer novela, grava muito, e grava todos os dias, e grava muitas cenas… É normal que a Grazi, em alguns dias, chegasse às oito ou às nove da manhã e não tivesse o texto todo na ponta da língua. Não se pode exigir a um ser humano que esteja a gravar cinco dias por semana, com vinte, trinta páginas de texto todos os dias, e saiba o texto todo. Sim, acontece que ela não tinha algumas vezes isso. Somos seres humanos, não é? A inteligência artificial ainda não está dentro do nosso cérebro para nos permitir decorar trinta páginas por dia na ponta da língua. Não posso, não vou, não quero, não é verdade dizer que ela não era profissional. Ela foi”.
OUTRO DIRETOR PARA GRAZI. “Isso não procede. Antônio Karnewale foi chamado para ajudá-la como apoio de elenco, ou seja, ele é um coach de elenco. Na época queríamos ter contratado alguém que até a Grazi conhece bem, que tinha trabalhado com ela durante muitos anos, mas não estava disponível. Daí conseguimos Karnewale para ajudá-la com o percurso da personagem, que era gigante. Tínhamos que gravar cenas, num só dia, em que ela tem 18 anos e depois 40. Ele, sem dúvida, foi uma excelente aposta, é fabuloso a trabalhar, mas não é diretor. É preparador de elenco”.
ATORES NEGROS. “A questão relacionada com o posicionamento dos atores negros era uma dificuldade para mim, porque sou privilegiado, branco, europeu. Portanto, há coisas que são sempre a minha visão. E a minha visão é diferente, privilegiada. Tenho que ter opinião, mas preciso da opinião das pessoas negras sobre determinadas fases da vida e do percurso de cada personagem. E nisso nem sempre estaríamos de acordo. Temos é que ter a humildade em aceitar a opinião, acatar e tentar fazer com que possa fazer sentido dentro da mensagem que é transmitir ao espectador”.
DESAVENÇAS COM BIANCA BIN. “Sim, aconteceu, foi por um episódio, um momento de estresse, de calor, de muitas horas de espera e, como qualquer ser humano, em determinados momentos, se desespera e diz coisas que, na verdade, não pensa. E não tenho nenhum momento menos feliz por causa disso. Enquanto foi feita essa averiguação, há uma suspensão para entender o que aconteceu, mas que foi resolvida de forma educada, adulta, profissional”.
DENÚNCIA DE ASSÉDIO. “Estava presente nessa gravação, soube que tinha acontecido algo. Normalmente, quando acontecem estas situações, os detalhes não são transmitidos, porque preserva-se a privacidade dos envolvidos. Soube no final da gravação, última cena, que alguém tinha sido retirado do set. A partir daí, mais ninguém teve acesso à informação concreta, para preservar a privacidade dos envolvidos. Portanto, mais que isso, não sei. O mercado audiovisual, infelizmente, mundo inteiro, durante décadas e décadas, foi cheio de déspotas que usavam e abusavam do poder que tinham”.
AFASTADO DOS SETS. “Não, não fui afastado, porque se houvesse denúncia no compliance, eu teria que ter respondido. Não recebi nenhuma denúncia, não fui substituído (por outro diretor, Tiago Teiteirot). O Tiago fez cinco diárias no final, penso eu, para ajudar no processo que precisávamos para terminar tudo a tempo. E tínhamos algumas viagens pelo meio. O que foi complicadíssimo. Tiago entrou sim, para me dar ajuda, é funcionário da Floresta, também diretor. E já havia um diretor que tinha terminado o contrato, estava no Rio, tinha ido embora para outros projetos, então precisávamos de uma ajuda”.
QUEM É O CULPADO. “Não podemos procurar culpados. O que procuramos são pessoas, instituições e empresas que correm o risco e que desafiam e que lutam. Tanto a HBO como a Floresta foram empresas que tiveram a coragem de fazer isto. Coragem, porque não havia uma estrutura montada para se fazer uma história com esta dificuldade e importância. Há sim pessoas com coragem”.





