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Pesquisa mostra como o ato de cozinhar pode ser receita da felicidade

Tão cultivado ao longo dos tempos, ele ajuda a elevar os índices de satisfação e a estreitar laços humanos

Por Julia Sofia e Duda Monteiro de Barros
25 jan 2025, 08h00

Em um passado muito, muito distante, coisa de mais de 1 milhão de anos atrás, deu-se a descoberta do fogo e, com ela, cozinhar tornou-se não apenas uma questão de sobrevivência, mas um marco no início das interações sociais de maior complexidade. Ao redor das fogueiras, os primeiros Homo sapiens se nutriam e compartilhavam histórias, fortalecendo vínculos e desenvolvendo a ideia da cooperação, peça-chave para o avanço das sociedades. O planeta experimentou velozes giros até aterrissar no século XIX, um profícuo período de invenções que, dentre outras, testemunhou o surgimento do fogão a gás e de modernos utensílios, um divisor de águas para os chefs de plantão e os demais mortais às voltas com o preparo de suas refeições. O que não mudou, mesmo com a pressa contemporânea, foi a relevância do ato de cozinhar como elemento agregador. E não só isso: debruçar-se sobre uma receita e mergulhar na alquimia dos ingredientes pode proporcionar um bem-es­tar que, agora, os especialistas começaram a medir, reforçando o que já se intuía no tempo das fogueiras.

Uma pesquisa do instituto Gallup, que examinou vasta amostra em 142 países, o Brasil entre eles, concluiu que seis de cada dez pessoas atingiram níveis elevados de satisfação depois de executar atos triviais na cozinha, como picar legumes e pilotar a própria panela. O dado que mais salta à vista é que essa turma disposta a pôr a mão em variadas massas apresenta 20% mais chances de avaliar positivamente a vida. Há décadas a ciência já se dedica ao tema sob a ótica da psicologia. “Cortar ingredientes, se concentrar numa receita, experimentar sabores, tudo isso ajuda a relaxar e a se voltar para o momento presente, no lugar de olhar para o passado ou idealizar o futuro”, diz a psicóloga Cláudia Melo, especialista em saúde e sociedade.

ADEUS, SOLIDÃO - A advogada Elise Alves: ritual dividido com o marido
ADEUS, SOLIDÃO - A advogada Elise Alves: ritual dividido com o marido (//Arquivo pessoal)

As mais recentes garimpagens nesse campo conduzem ao cérebro, onde a liberação de dopamina, o neurotransmissor associado a motivação e prazer, é observada em alto grau quando o indivíduo se lança na aventura culinária. “Averiguamos em muitos casos até um efeito terapêutico, aliviando sintomas como ansiedade e depressão”, diz Chrystina Barros, dedicada aos estudos sobre felicidade na Universidade da Califórnia. Os benefícios não são colhidos apenas na labuta ao fogão, mas também no rito à mesa que se segue. Os laços humanos são aí estreitados e, por isso, o novo relatório sublinha a relevância de almoços e jantares como um hábito social, ao lado da família e dos amigos.

A tentação de imergir no celular entre uma e outra garfada e comer absorto no trabalho, por sua vez, ingressam no rol dos comportamentos contraindicados nesta era acelerada. Muita gente cultiva a ideia de refeições como mola propulsora de laços afetivos de caso pensado, ciente do que a experiência pode fornecer, a exemplo da advogada Elise Alves, 43 anos, que vive o ritual junto ao marido. “São instantes de conversa de qualidade, mesmo que não aconteçam todos os dias”, diz. “É uma oportunidade para interações face a face, mais escassas hoje e fundamentais para reduzir a sensação de solidão e sedimentar os elos”, observa o psicanalista Arthur Costa.

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NOVOS SABORES - Christina Ferreira: explorando ingredientes na Itália
NOVOS SABORES - Christina Ferreira: explorando ingredientes na Itália (//Arquivo pessoal)

Em culturas em que a dinâmica de cozinhar, servir e comer na companhia de um círculo próximo de pessoas é há séculos alimentada, como nos países mediterrâneos, os índices de alegria registrados ao longo do percurso gastronômico se elevam. Na Itália, por exemplo, onde há o “convívio”, como se batiza a tradição de confraternizar à mesa, 81% dos habitantes contam ter prazer em estar na cozinha. Uma ala de estudiosos lembra que a comida também funciona como uma janela à memória afetiva, carregando consigo histórias familiares e emoções que conduzem ao passado — uma viagem no tempo envolta naquela sensação de conforto. Funciona assim com a analista de sistemas Christina Ferreira, 49 anos, que mora no Rio, mas não perde oportunidade de servir às amigas iguarias típicas do Ceará, onde nasceu e cresceu. “Me sinto bem dividindo ali um pedaço do que eu sou”, diz.

Reservar espaço para cozinhar em casa é ato apreciado ainda por nutricionistas atentos ao que faz bem. De acordo com a pesquisa Scientifically-­Suppor­ted Links Between Cooking and Well-Being, publicada na prestigiada Nature, há ligação direta e comprovada entre estar frequentemente ao fogão e seguir uma dieta saudável e equilibrada. “Quando o indivíduo faz sua comida, existe uma probabilidade mais alta de selecionar melhores alimentos e formas de preparo, enquanto, ao comer fora ou pedir um delivery, muitas vezes não sabemos exatamente o que ingerimos”, observa a nutricionista Bianca Caravellas. Antes adepta do fast food e dos aplicativos de entrega, a profissional de marketing Maria Clara Veloso, 24 anos, mudou sua mentalidade com o nascimento da filha. “Percebi o quanto é importante se alimentar bem e comecei a cozinhar para ela e, como consequência, para todos em volta”, lembra. Põe assim em prática as palavras do gênio francês Paul Bocuse (1926-2018), que soube como poucos manusear as caçarolas: “Não há boa culinária se, a princípio, ela não é feita pela amizade a quem se destina”.

Publicado em VEJA de 24 de janeiro de 2025, edição nº 2928

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