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Nova pesquisa mostra que brasileiros estão cada vez mais afastados da leitura

Um batalhão de mais de 11 milhões de pessoas tomou distância da riqueza contida na literatura ao longo da última década

Por Sara Salbert
Atualizado em 10 jan 2025, 11h18 - Publicado em 10 jan 2025, 06h00

Em muitos cantos do planeta, a leitura remete a eras longínquas. Nos tempos em que capitaneava o Império Romano, o poderoso Júlio César (100 a.C.-44 a.C.) já mencionava o hábito em seu Guerra das Gálias, escritos em que enaltecia seus feitos expansionistas, engolindo inclusive o que é hoje Paris. Aí o mundo girou, e o século XV registrou um advento que mudou a história dos livros — a invenção da prensa de Gutenberg, que substituiu os manuscritos artesanais por volumes acessíveis a um público mais vasto. A princípio, eram clérigos, acadêmicos e a elite letrada — uma turma que inflou com a chegada da emergente burguesia. Mais tarde, a Revolução Industrial viu aflorar o conceito de produção em larga escala, o que fez ampliar ainda mais os leitores, que, na década de 1930, receberam um belo empurrão com o aparecimento da opção de bolso, sem capa dura, os paperbacks, tudo a preço razoável e fácil de carregar.

artes leitura

Só que a história seguiu sua marcha, e a entrada em cena da internet chacoalhou a sociedade, revolucionando comportamentos e moldando gerações. Nessa tremida de pilares, o prazer de se perder nas páginas de um livro (ainda que no meio digital) está escasseando, como confirma de forma perturbadora um recente levantamento que se concentrou na população brasileira de todas as idades e classes sociais. A aferição, agora na sexta edição, pela primeira vez aponta que a maioria no país não está lendo um único livro, nem daqueles fininhos e de enredo simples. Precisamente, 53% declararam não ter folheado nenhum volume nos três meses que antecederam a detalhada pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, conduzida pelo instituto Ipec (veja no quadro).

Posto em números absolutos, um batalhão de mais de 11 milhões de pessoas afastou-se da riqueza contida na literatura ao longo da última década. Entre as razões elencadas, 45% admitem não ter “interesse” nem tampouco “paciência” e 12% vão direto ao ponto: preferem “dedicar tempo às telas”. É uma competição dura, travada em camadas diversas da existência moderna. O incessante consumo de conteúdos fragmentados nas redes, inundadas de textos enxutos, estabelece um padrão de interação diferente, instantânea, em que o recado é curto e rápido.

A LUTA - Gabriela Soeiro, que nunca teve o hábito: “É mais difícil agora”
A LUTA – Gabriela Soeiro, que nunca teve o hábito: “É mais difícil agora” (//Arquivo pessoal)
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De acordo com um estudo da Universidade Harvard, a constante absorção dessa natureza de informação acaba por reduzir a capacidade de manter a atenção numa só atividade e prejudica o processamento cognitivo, alimentado justamente pela complexidade que o cérebro precisa destrinchar diante de um livro. Funciona como a ginástica — no início, os músculos se ressentem do esforço, mas a passagem do tempo faz o hábito e, no caso, o bom leitor. A investigação de Harvard também reforça o que outras já demonstraram na área da neurociência: o excessivo uso de dispositivos digitais afeta áreas cerebrais como o córtex pré-frontal, responsável pela atenção e pela tomada de decisões.

Especialmente para a ala mais jovem, a escolha entre tantos estímulos não é nada trivial. “Gosto de ler, mas é tão mais lento que as redes sociais e o streaming que, quando vejo, me pego atraída pelo mundo digital”, diz a estudante Marcella Albuquerque, 20 anos, integrante de uma multidão sugada por dilema semelhante. Depoimentos como esse dão a face humana a um fenômeno que transcende fronteiras, se revelando inclusive em nações mais ricas e tradicionalmente mais letradas. Na União Europeia, quase metade dos adultos (47,2%) afirma não ter lido nem um livro sequer num ano, conforme dados do Eurostat. Romênia e Itália se destacam no pelotão de trás — países em que dois de cada três habitantes ignoraram a leitura no ano que passou. Até mesmo nos Estados Unidos, detentores do maior mercado editorial do mundo e campeões em leitores, o hábito anda em declínio: apenas 48,5% se debruçaram sobre um livro nos últimos doze meses.

ÀS MOSCAS - Biblioteca nos EUA: lá, mais da metade das pessoas não lê um único livro
ÀS MOSCAS - Biblioteca nos EUA: lá, mais da metade das pessoas não lê um único livro (E+/Getty Images)
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O renomado neurocientista francês Michel Desmurget cutuca a ferida em seu livro Faça-os Ler! — Para Não Criar Cretinos Digitais e lembra que, para reverter o quadro, a leitura deve ser incentivada desde cedo, a partir da tenra idade de 3, no máximo 6 meses de vida. “Esse não é um hábito inato ao ser humano. É um legado que deve ser transmitido às crianças no ambiente familiar”, afirmou Desmurget a VEJA. O desafio não se restringe a incentivar o interesse, mas sedimentá-lo e sempre cultivá-lo. A garotada menor tende a apreciar mais os livros, mas, à medida que cresce, vai se afastando deles — a ponto de 66% dos adolescentes brasileiros evitarem textos com mais de dez páginas, segundo o Centro de Pesquisas em Educação, Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional. “É raro me ver motivada a pegar um livro”, reconhece Gabriela Soeiro, 31 anos, que compõe o grupo, ao qual se refere o francês, dos que não receberam na infância aquele gás para ler.

Antes uma potente engrenagem para fazer a criançada se dedicar à leitura, a sala de aula anda perdendo sua influência — outra constatação da pesquisa do Ipec. Há uma década, 35% dos jovens respondiam que abriam livros movidos pela escola, enquanto hoje são 19%. Segundo estudiosos do tema, o nó é apertado e começa a se formar em casa. “A escola tem muito a acrescentar, mas não pode fazer o trabalho todo sozinha. Ela precisa contar com os pais”, diz Claudia Costin, especialista em educação. A questão é que os próprios pais de todos os patamares de renda vivem imersos em telas: nas famílias que habitam o topo da pirâmide, a leitura recuou de 70% para 59% da amostra em exíguos cinco anos.

A PRESSA - Marcella Albuquerque: busca por estímulos “mais imediatos”
A PRESSA - Marcella Albuquerque: busca por estímulos “mais imediatos” (//Arquivo pessoal)
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Todo esse cenário, aliado a uma ainda elevada taxa de analfabetismo e à dificuldade de uma leva expressiva de alunos em tirar sentido do que lê, conspira para a incômoda posição brasileira no ranking global da leitura: 34º lugar. “O problema maior não está na renda do brasileiro, mas no excesso de conteúdos digitais a um clique”, afirma o professor Plinio Martins, da USP, lembrando que sempre houve concorrência com outras formas de entretenimento — rádio, TV —, mas nunca como agora.

Não há exercício intelectual mais poderoso do que o ato da leitura. Ele é capaz de ativar ao mesmo tempo áreas muito distintas da mente, promovendo um malabarismo entre neurônios vital para conectar e assimilar informações. O processo desencadeia emoções, cultiva habilidades analíticas e deságua no pensamento crítico. Por toda essa vigorosa movimentação, funciona como ferramenta contra o declínio cognitivo, retardando o surgimento de doenças neurodegenerativas, como demência e Alzheimer, como apontam estudos da Universidade de Cambridge.

arte leitura

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Para a sociedade, os prejuízos do declínio da leitura são vastos. “Uma sociedade que não lê é mais pobre em imaginação e menos apta a avançar”, diz o sociólogo Ronaldo Oliveira, da Uerj. O pior é que, quanto menos se lê, mais difícil é escapar da inércia — situação que já atormentava o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) lá atrás. “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas, por incrível que pareça, a quase totalidade não sente esta sede”, lamentava. Que as novas pesquisas sirvam não apenas para iluminar a questão, mas para ajudar a romper o ciclo da escuridão para o qual ela conduz.

Publicado em VEJA de 10 de janeiro de 2025, edição nº 2926

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