Leilão milionário reacende a pergunta: qual o fascínio de um Stradivarius?
Peça com mais de 300 anos tem valor estimado em até 18 milhões de dólares - o que ilumina os segredos da qualidade de uma joia da civilização

O lendário luthier italiano Antonio Stradivari (1644-1737) fabricou pouco mais de 1 000 instrumentos, entre violinos — sobretudo violinos —, violoncelos, harpas e violas. Estudiosos estimam que 650 peças tenham sobrevivido à ação indelével do tempo, das quais 512, segundo investigação recente, são os celebrados Stradivarius, ou Strad, para os raros íntimos da joia, muito valorizados pela beleza singular, pela rica história e pela sonoridade impecável, sinônimo de arte. O auge da carreira de Stradivari ocorreu entre 1700 e 1722, em Cremona, na comuna de Milão, quando abandonou as influências de outros mestres e começou a criar modelos próprios que se tornariam referência no competitivo mundo da música.
Foi nesse período que veio ao mundo uma pepita, o Joachim-Ma, violino fabricado por Stradivari em 1714. No início de fevereiro, o instrumento vai a leilão na Sotheby’s de Nova York. Calcula-se a batida do martelo a algo entre 12 milhões e 18 milhões de dólares, o que o instalaria no topo das relíquias musicais mais caras jamais negociadas. O dinheiro será revertido para o Conservatório da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, de modo a financiar bolsas de estudos.

O batismo do instrumento agora no centro do palco, o Joachim-Ma, vem da combinação dos nomes de dois de seus mais notórios proprietários. O do húngaro Joseph Joachim, um virtuoso violinista do século XIX, que o utilizou em 1879, na estreia do Concerto para Violino em Ré Maior, de Brahms, em Leipzig, na Alemanha. E o do chinês Si-Hon Ma, renomado violinista e pedagogo, que em 2016 o deixou como herança para o centro de estudos americano que o levou a pregão para que pudesse beneficiar alunos sem posses.
É oportunidade que encaminha a pergunta milionária que não quer calar: qual o fascínio de um Stradivarius? A resposta está na maestria cuidadosa do artesão cremonense, homem afeito a fazer de cada trabalho uma obra única e inigualável. O timbre extraído do Joachim-Ma revela nuances sutis em cada nota. A beleza visual também impressiona, com o verniz castanho-dourado que remete à pureza da natureza.

Tal qual numa sinfonia, ou uma safra excepcional de vinhos, a magia do Stradivarius é resultado de uma combinação de fatores, a começar pela escolha de materiais, madeiras de alta qualidade provenientes de florestas europeias, beneficiadas pelos invernos rigorosos que contribuíam para a densidade e ressonância. O verniz não só embeleza os instrumentos, mas também influencia a qualidade sonora por meio de seu efeito na vibração da madeira. Vale ressaltar a delicadeza das curvas e a espessura de cada parte da montagem. A acústica propiciada pelo conjunto há três séculos é estudada em laboratórios. Sabem-se, de algum modo, os segredos da preciosidade, embora nunca fosse possível reproduzi-los em produtos modernos. De qualquer forma, qual seria a graça de reproduzir, hoje, um Strad?
Um modo de entender a aventura de um Stradivarius é ouvir as interpretações do russo-americano Jascha Heifetz (1901-1987), proprietário de um exemplar fabricado no mesmo ano do Joachim-Ma, o Dolphin. Ao longo de sua vida, Heifetz gravou oitenta álbuns, com interpretações de compositores como Paganini, Bach e Saint-Saëns. “O violino é um instrumento que deve ser tocado com o coração”, dizia, ao resumir uma existência feita de queixeira, corda, cravelho e arco — e a humanidade agradece pelo encontro de Stradivari com Heifetz. A venda do Joachim-Ma tem o dom de voltar a revelar os feitos de que é capaz a engenhosidade humana, que faz guerras, mas também sonatas, nos pondo em órbita. De um outro virtuoso do Stradivarius, o americano Yehudi Menuhin (1916-1999): “Para tocar boa música, você precisa ter seus olhos em estrelas distantes”.
Publicado em VEJA de 10 de janeiro de 2025, edição nº 2926