Eles saem sozinhos e se sentem muito bem, obrigado
Os ventos da modernidade estão fazendo tremer mais um desses tabus que freiam a liberdade

Em sociedades movidas pela ideia de crescer, casar e ter filhos, roteiro até outro dia incontornável, aquele sujeito que ia ao restaurante sozinho ou a moça que se instalava numa cadeira de cinema sem companhia eram vistos como indivíduos solitários, às vezes dignos de pena, incapazes de se agrupar — portanto, infelizes. Mas o mundo deu tantas e profundas voltas que o estigma que recaía sobre os que se divertem a sós está se dissolvendo, mais um tabu que perde o vigor diante de sacolejos demográficos e sociológicos. As uniões, que antes eram seladas cedo na vida, estão sendo adiadas ou nem ocorrem — um movimento capitaneado pelas novas gerações, mas que se expande para as demais camadas etárias. Para essa turma, a escolha sobre como se vive tem mais a ver com a busca por bem-estar do que com a obediência a padrões que, inexoravelmente, levariam à existência sempre em bando. Não que os indivíduos desta era não tenham o ímpeto agregador — a questão é que não precisam exercê-lo o tempo todo, mesmo quando engatados em relacionamentos sérios.
Muitos medidores começam a aparecer sobre essa virada de perspectiva acerca de quem sai sozinho e se sente muito bem assim, obrigado. Uma pesquisa liderada por um conjunto de universidades inglesas, entre elas a de Manchester, pôs uma vasta amostra de entrevistados para classificar o que lhe vinha à mente ao avistar uma pessoa desacompanhada em espaços públicos, contrastando adjetivos como inseguro e confiante, malsucedido e bem-sucedido, triste e feliz. Resultado: o ângulo positivo ganhou de lavada — e 41% declararam textualmente o quão benéficos consideravam esses momentos. “A opção por ficar só está finalmente entrando nas normas aceitas mundo afora”, avalia a psicóloga Thuy-vy T. Nguyen, à frente do Laboratório de Solitude da Universidade de Durham, na Inglaterra, e coautora do livro Solitude: The Science and Power of Being Alone, que trata da capacidade de desfrutar boas experiências sem alguém ao lado — uma ciência, segundo a especialista.

O fato de o fenômeno se desenrolar sob a moldura das redes e das conexões on-line não é obra do acaso. Uma parcela dos que batem a porta de casa desacompanhados frequentemente, à mesa de um bar, aciona os amigos no celular, o que os retira do terreno da introspecção pura. Outros, em gesto mais radical, procuram um pouco de respiro dos elos sociais que permeiam o dia a dia e se desconectam. Não estar frente a frente com um semelhante, de todo modo, representa uma mudança e tanto em relação ao conceito de bem viver do passado recente. “Vou ao cinema sozinha sempre que posso, o que me faz pensar em mim e me perder um pouco do mundo ao redor”, conta a analista de comunicação Isabella Arice, 27 anos. Um novo levantamento da Open Table, plataforma global de reservas de restaurantes, mostra que, nos Estados Unidos, o grupo dos que jantam sós saltou 29% em apenas dois anos, e na Alemanha, 18%. O principal motivo para saborearem uma refeição nesta configuração é que “o tempo sozinho é muito necessário” (ainda que, ops!, às vezes um smartphone desponte na silenciosa paisagem).
Sempre que um pilar balança, há uma ala que demora a digerir o tremor — e esse é o caso dos brasileiros em geral, por razões fincadas na cultura. “A ideia de passar tempo sozinho avança no Brasil, porém mais lentamente, já que é um povo com um forte senso comunitário, ao contrário de outros, marcadamente individualistas”, pondera Renata Bento, da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Não faz muito tempo, a apresentadora Carolina Ferraz, 56 anos, se viu no implacável alvo das redes ao postar fotos de uma viagem solo ao Ceará. “Muitos falaram: ‘Sozinha, mas por quê?’ Tem gente que não dá conta. Eu me aguento, acho um prazer estar comigo”, garante a atriz, que ainda cutuca: “Quem não sabe estar só, deve ficar esperto, porque é importante”. A própria ciência já demonstrou o quanto. De acordo com estudos da Universidade de Reading, no Reino Unido, o voo individual embute um efeito antiestresse e serve de estímulo para se tomar a coragem de ser quem se é, cultivar hobbies e exercitar a criatividade. “É um caminho para regular as emoções e entendê-las”, explica a psicóloga Thuy-vy.

Conforme esse comportamento se firma, as engrenagens da economia dão sinais de se ajustar ao novo padrão. Restaurantes no mundo inteiro vêm ampliando o rol de mesas com um único lugar — prática que no Japão tem nome, ohitorisama (na tradução literal, sozinho). No universo do turismo, agências trabalham com dados do relatório Global Travel Insights sinalizando que mais de meio bilhão de pessoas irão embarcar sem acompanhante até 2030, o que exige uma adaptação na natureza dos pacotes. “Quando viajo sozinha, me sinto senhora de mim e faço os passeios à minha maneira”, relata a administradora de empresas Cláudia Barros, 60 anos. Mas, de acordo com quem se dedica a estudar o caminhar da humanidade, é preciso estar alerta para que essa trilha não deságue em vazio existencial e que se encontre a medida certa. Vale aí revisitar as sábias palavras do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860): “Quem não ama a solidão também não ama a liberdade, pois só quando se está só é que se é livre”.
Publicado em VEJA de 6 de dezembro de 2024, edição nº 2922