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Brasil ocupa alarmante papel de destaque na atual epidemia global de ansiedade

Abuso de redes sociais, inflação crescente, a interminável polarização política, os desastres ambientais — sobram preocupações

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , José Benedito da Silva Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 24 jan 2025, 11h29 - Publicado em 24 jan 2025, 06h00

Ela invadiu de forma sorrateira os corações e mentes da nação, até ganhar súbita notoriedade no dia a dia dos brasileiros — não exatamente por bons motivos. A ansiedade — ela mesma — é uma emoção que, na definição clássica, consiste no temor acentuado com os desígnios do futuro e na sensação de impotência diante de ameaças do presente. Preocupações nesse sentido, infelizmente, sempre existiram aos montes na vida humana — mas atingem o mundo, e os brasileiros em especial, com contundência singular na atualidade. Recentemente, ansiedade foi eleita a palavra que definiu o ano de 2024 para os cidadãos do país, numa pesquisa que ouviu 1 538 pessoas. Para onde quer que se olhe, de fato, lá está ela marcando presença. Acossado por aflições que vão da inflação às rinhas ideológicas nas redes sociais, passando por dilemas de alcance global como guerras, extremos climáticos e a ascensão de líderes disruptivos como Trump, em seu segundo mandato na Casa Branca, o brasileiro nunca foi tão ansioso — e pede socorro como pode.

arte ansiedade

As estatísticas comprovam a dimensão do problema e trazem um alerta: passou da hora de toda a sociedade, principalmente as autoridades, tomar consciência da gravidade do fenômeno que ganhou o epíteto de epidemia global da ansiedade. Em 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) apontou que o Brasil é o país mais afetado por essa crise que mexe com os nervos do planeta. Em dados mais frescos da pesquisa Covitel, de 2024, contabilizam-se 56 milhões de pessoas (ou 26,8% da população) padecendo do transtorno psíquico em algum grau no país (leia o quadro). Segundo novo levantamento do Ministério da Saúde, feito a pedido de VEJA, o SUS contabilizou 671 305 atendimentos ambulatoriais relacionados à ansiedade entre janeiro e outubro de 2024 — 14,3% a mais que o registrado em todo o ano de 2023.

Infelizmente, tudo indica que 2025 trará fontes de ansiedade com potencial de agravar esse quadro. Deverá ser um ano notadamente turbulento, tanto na política quanto na economia — com uma influenciando a outra, e ambas interferindo de maneira direta na vida cotidiana. O cenário econômico tenso dos últimos dias de 2024 não deve mudar tão rápido. Alavancados pelo risco crescente de descontrole nas contas públicas e pela resistência do governo em enfrentar o problema de forma mais agressiva, o dólar e os juros devem continuar em alta, o que tende a pressionar a inflação, elevar o custo de vida e impor mais dificuldades ao orçamento doméstico. No final do ano passado, 73 milhões de brasileiros disseram estar endividados. Dois em cada três achavam que isso poderia piorar no horizonte próximo (leia o quadro).

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A instabilidade econômica tem ainda um enorme potencial para turbinar crises políticas, que também impactam o emocional coletivo. Ela não será, no entanto, o único fator a tensionar esse ambiente em 2025. A provável denúncia da Procuradoria-­Geral da República contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por conspiração para executar um golpe de Estado tende a jogar combustível na polarização política, que tomou conta do país há alguns anos e rachou ideologicamente não apenas o eleitorado, mas famílias, grupos de amigos e ambientes de trabalho — o que compromete as relações interpessoais e aumenta a sensação de isolamento nas pessoas. Em levantamento feito pelo Datafolha em 2022, à época da última eleição presidencial no país, 46% dos entrevistados relataram que deixaram de conversar com familiares ou amigos por causa de desavenças políticas.

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O mundo certamente não irá contribuir para melhorar esse ambiente — pelo contrário. A volta de Trump ao poder nos Estados Unidos, com uma postura que abraça a beligerância em várias frentes, deve provocar dias de instabilidade global na política e na economia, com potencial para tumultuar a vida em vários países do mundo. No Brasil, tende a atiçar a radicalização política, que será reforçada não só por um eventual julgamento de Bolsonaro, mas pela cada vez maior inclinação à direita das principais redes sociais do planeta, sobretudo o X, de Elon Musk — que inclusive terá cargo no governo Trump —, e o Facebook e o Instagram, de Mark Zucker­berg — que se aproximou ideologicamente do novo presidente americano e adotou medidas que devem aumentar o vale-tudo no ambiente digital. Tudo isso em um mundo já com várias frentes de instabilidade, como a guerra na Ucrânia, a ascensão da extrema direita na Alemanha (que terá eleições neste ano) e as incertezas com relação ao futuro de países como Síria e Venezuela.

VÍCIO - Jovens e seus smartphones: brasileiro gasta cinco horas por dia neles, o que só aumenta os transtornos
VÍCIO - Jovens e seus smartphones: brasileiro gasta cinco horas por dia neles, o que só aumenta os transtornos (Peter Cade/Getty Images)

Do ponto de vista coletivo, a ansiedade é, de fato, um sentimento que ganha força conforme o zeitgeist — ou espírito de cada tempo. Em momentos sombrios como a Grande Depressão econômica americana, nos anos 1920, os períodos dos dois conflitos mundiais ou a Guerra Fria, ela assomou com força aflitiva. São diversos os fatores que a propulsionam hoje, em especial entre os jovens. A pandemia, por exemplo, deu impulso decisivo à explosão da ansiedade como problema global. Mas, sem dúvida, o advento dos smartphones e das redes sociais amplificou seus efeitos de modo sem precedentes.

Não é exagero caracterizar a atual crise de ansiedade como um mal que define a era digital. O psicólogo social Jonathan Haidt aponta no livro A Geração Ansiosa que a infância hiperconectada às mídias sociais e a superproteção paterna estariam levando os jovens a sofrer cada vez mais de transtornos mentais, com a ansiedade à frente. Ele pondera que o declínio da saúde mental entre os jovens, sobretudo nas meninas, se acentuou no início da década de 2010, com a popularização dos smart­pho­nes e das redes, que exacerbam inseguranças e comparações, além de intensificar o isolamento social no mundo real. “A geração Z foi a primeira a passar pela puberdade com um portal no bolso, que os afastava das pessoas próximas e os atraía para um universo alternativo empolgante, viciante e instável”, escreve o americano. O fato de sua obra ter se tornando um best-seller instantâneo no Brasil e no mundo prova que ele tocou num nervo sensível da população.

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LIÇÕES - Divertida Mente 2 e sua encarnação laranja da ansiedade: tema inspirou maior bilheteria de 2024
LIÇÕES - Divertida Mente 2 e sua encarnação laranja da ansiedade: tema inspirou maior bilheteria de 2024 (Pixar/Disney)

Nesse quesito, de novo o Brasil inspira atenção. Cada vez mais ansioso, o brasileiro passa, não à toa, cinco horas por dia em frente ao smartphone, segundo o relatório mais recente, State of Mobile, feito pela Data.ai. O número coloca o país na quinta posição do ranking global de tempo de tela — atrás apenas de Indonésia, Tailândia, Argentina e Arábia Saudita. O impacto disso pode ser sentido na prática: segundo o Panorama da Saúde Mental, pesquisa do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel que ouviu 4 381 pessoas, 45% dos brasileiros consideram que as redes sociais afetam negativamente a saúde mental. Outro fator que propulsiona a onda ansiosa é o desalento econômico vivido por muitos jovens, que penam para se estabelecer de maneira independente dos pais.

Curiosamente, a ansiedade não é um sentimento de todo negativo em sua origem — na verdade, está presente nos animais desde sempre e cumpre inclusive uma função importante na luta pelo progresso e pela sobrevivência. Para a psiquiatria evolutiva, as raízes da sensação de insegurança e perigo que sentimos quando estamos ansiosos vêm das reações de defesa frente a situações de ameaça. No livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, Charles Darwin descreve a ansiedade como uma expectativa de sofrimento futuro ligada ao desespero, ao luto e à desesperança. Essa expectativa levou a uma série de mudanças na história da humanidade: temendo acabar sem alimento, por exemplo, o ser humano desenvolveu a agricultura e a pecuária. “O homem, ao longo de inúmeras gerações, lutou para escapar de seus inimigos ou dos perigos, fugindo ou lutando violentamente. Esses esforços imensos faziam o coração bater mais rápido, a respiração acelerar, o peito arquear e as narinas se dilatarem”, descreve o pai da teoria da evolução.

MUSA - Taylor Swift: sucesso falando de saúde mental à juventude
MUSA - Taylor Swift: sucesso falando de saúde mental à juventude (Emma McIntyre/Getty Images)
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O problema, portanto, não é a existência da ansiedade em si, mas quando ela extrapola os limites da normalidade e se torna patológica — uma situação que hoje afeta 328 milhões de pessoas no mundo, fazendo dela a doença mental mais prevalente no momento. “Todos podem se sentir ansiosos às vezes, mas pessoas com transtornos de ansiedade frequentemente sentem medo e preocupação intensos e excessivos”, diz um relatório da OMS, alertando ainda que esse sentimento costuma vir atrelado a tensões físicas e sintomas comportamentais que “causam sofrimento significativo, interferem nas atividades diárias e podem prejudicar a vida familiar, social, escolar ou profissional”.

A ansiedade foi descrita de maneira difusa durante a Antiguidade, mas já na época do Império Romano ganhou um símbolo que se mostraria preciso e atemporal: a figura do imperador Décio (201-251 d.C.), que enfrentou desafios como inimigos externos e o avanço dos cristãos. Essa saga exprime preocupações intensas — e típicas do transtorno —, imortalizadas nos bustos dele, sempre com um semblante sofredor. Vista mais tarde sob uma ótica religiosa e mágica, na Idade Média, a ansiedade só passou a ser tratada como um transtorno mental no século XX. Desde então, explodiu entre as preocupações das pessoas em geral — e dos brasileiros em particular. Segundo o Global Health Service Monitor 2024, 54% da população nacional acreditam que a saúde mental, com a ansiedade em realce, é o principal problema do país em termos de bem-estar, à frente inclusive do câncer. Em 2018, esse número era de apenas 18%, mas começou a subir após a pandemia e nunca mais parou.

ZEITGEIST - Tony Soprano: mafioso levou a angústia à televisão
ZEITGEIST - Tony Soprano: mafioso levou a angústia à televisão (Anthony Neste/Getty Images)

Os reflexos desse crescimento desenfreado podem ser vistos também no universo cultural. Em Família Soprano, série que revolucionou a TV americana no início dos anos 2000, o mafioso Tony Soprano colocou o tema em pauta com suas célebres crises de ansiedade — resolvidas com Prozac e terapia. Lançado nos cinemas em junho de 2024, Divertida Mente 2 foi o filme mais visto do ano e se tornou a animação mais rentável da história ao levar para as telas a ansiedade, na figura de uma bonequinha intransigente e laranja que toma o controle das emoções da pré-adolescente Riley. Ao refletir situações cotidianas daqueles que lidam com o transtorno, o filme arrecadou 1,69 bilhão de dólares em todo o mundo. Na música pop não é diferente. Fenômeno da década, e dona da turnê mais lucrativa da história, Taylor Swift costuma falar abertamente em suas músicas sobre sentimentos de inadequação e angústia por não se sentir boa suficiente ou não atingir as expectativas. Um estudo da Universidade de Vermont, inclusive, atestou recentemente que o hábito da cantora de se abrir sobre questões como distúrbios alimentares e autoimagem tem impacto positivo nos fãs.

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Incômodos e insistentes, os transtornos de ansiedade abastecem uma engrenagem bilionária: o mercado global de tratamento da doença movimenta hoje 11,5 bilhões de dólares, segundo levantamento da Towards Healthcare. O montante inclui gastos com remédios, terapia, idas ao hospital, internações, exames laboratoriais, entre outros. Tanta gente ansiosa tem um custo para os cofres públicos: em 2025, o Ministério da Saúde estima um gasto de 2,6 bilhões de reais na rede de atenção ao transtorno.

SOFREDOR - O imperador Décio: seu rosto virou símbolo da ansiedade
SOFREDOR - O imperador Décio: seu rosto virou símbolo da ansiedade (Leemage/AFP)

O tratamento para a ansiedade, na maioria das vezes, exige apoio de psicólogos e psiquiatras, mas costuma aliar-se a práticas que promovam o bem-estar, como atividades físicas, adoção de hobbies e até meditação. É inevitável, em muitos casos, o uso de medicamentos. Entre os remédios adotados atualmente incluem-se ansiolíticos e antidepressivos à base de fármacos como a quetiapina, a venlafaxina e o escitalopram. Há, no entanto, novas abordagens. A Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, descreveu recentemente como “inovador” um medicamento à base de LSD em análise para o transtorno de ansiedade. Uma pesquisa publicada em 2022 no Journal of Clinical Psychiatry sugere que tratamentos com o canabidiol (CBD) também podem diminuir a ansiedade em até 50% em jovens que não respondem a tratamentos convencionais.

Tão importante quanto oferecer apoio às pessoas afetadas talvez seja fazer um exame das causas. “O excesso de informações negativas nas redes trouxe um sentimento de catastrofismo que expandiu a ansiedade globalmente”, diz o filósofo brasileiro Leandro Karnal. Maior pensador do tema hoje, o americano Haidt defende que instabilidades sociais e políticas sempre existiram, mas nunca na história houve uma onda tão ansiosa quanto a atual, turbinada pelo acesso ininterrupto à internet. “Se os eventos mundiais desempenharam um papel na crise de saúde mental de hoje, não é porque eles pioraram de repente, e sim porque esses eventos passaram a entrar nos cérebros adolescentes através dos smartphones”, aponta. Melhor do que ninguém, o brasileiro sabe que não dá para discordar disso.

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Com reportagem de Kelly Miyashiro

Publicado em VEJA de 24 de janeiro de 2025, edição nº 2928

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