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“Achei meu lugar no mundo”

Vitória Miranda, 18, conta como a superação física a levou ao título global de melhor tenista em cadeira de rodas

Por Júlia Sofia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 mar 2026, 08h00 •
  • Nasci prematura, com apenas seis meses de gestação. O prognóstico era não ter vida longa. E logo veio o diagnóstico: sofro de artrogripose múltipla congênita, condição que causa deformidades nos membros, especialmente nas pernas. Tenho nelas 10% da força da média das pessoas. Também lido com uma limitação de movimentos no braço esquerdo. Cresci em uma família numerosa de Belo Horizonte, a caçula de quatro irmãos, e sempre fui protegida. Mas meus pais — ele serralheiro, ela diarista — nunca me trataram como alguém incapaz nem deixaram que me escondesse por trás da deficiência. Mesmo que olhassem estranho e rissem da garota de muletas, fui aprendendo a fazer as coisas do meu jeito. Era mais baixa que os outros, porém forte, a ponto de chamar atenção. Aos 8 anos, andava de cabeça para baixo, plantando bananeira, e minha fisioterapeuta gravou um vídeo que, em um desses lances imprevisíveis, acabou chegando à turma do esporte paralímpico. Assim, o tênis em cadeiras de rodas apareceu e mudou para sempre a minha existência.

    Houve uma fase em que eu entrava em quadra e chorava por não conseguir fazer o que via os outros fazendo. Resolvi então desistir e não toquei em raquete por quatro anos, até reencontrar meu treinador, que disse: “Tem uma vaga na equipe e ela é sua”. Voltei e nunca mais larguei. O tênis foi essencial para me fazer deixar de vez as muletas e entender que teria mais conforto na cadeira de rodas, hoje uma extensão do meu corpo. Foi uma decisão sábia: passei a viver sem as dores de antes. O impulso para me profissionalizar veio no primeiro torneio, onde ouvi da melhor atleta à época na modalidade, após uma derrota minha, que teria ainda que treinar muito para ser igual a ela. Respondi: “Igual, não, serei mais”. A partir daí, minha rotina passou a envolver preparação física, musculação, pilates, fisioterapia, tudo com acompanhamento psicológico e feito de forma obsessiva.

    As pessoas não imaginam o esforço. Preciso empurrar a cadeira, ganhar velocidade, frear, girar e chegar inteira na bola para bater bem nela. Envolve repetição, dor, exaustão. Mas o mais duro é a parte mental. Sempre foi. Se a cabeça estiver forte para aguentar uma partida longa, com seus altos e baixos, me garanto no braço. E o resultado, enfim, veio. No ano passado, fui campeã juvenil do Australian Open, tanto na simples quanto nas duplas, e repeti o feito em Roland Garros — ambos campeonatos do Grand Slam, os mais importantes. Levei o título da Austrália em meio a uma montanha-russa emocional: terminei um relacionamento, perdi um jogo que achei que venceria e estava desequilibrada, mas retomei o foco. Depois, em Roland Garros, me senti mais experiente e sob controle. O ano de 2025 foi a temporada da minha carreira, a que me trouxe agora o título de melhor tenista juvenil em cadeira de rodas do mundo.

    Hoje estou no circuito adulto, entre as 40 melhores do ranking e de olho em uma medalha olímpica. Quero ajudar a mostrar que meu esporte tem o mesmo valor que qualquer outro. Enfrento ainda preconceito, claro. Há lugares nos quais as pessoas acham que eu não deveria estar: aeroportos, áreas vips, shoppings. Inúmeras vezes me abordaram como se estivesse no local errado. Já precisei me explicar, provar quem eu era, me mostrar merecedora de ocupar um espaço. Acompanho com grande respeito os avanços da medicina, que dão esperança para que gente com lesão medular possa voltar a andar. No meu caso, quando me perguntam se gostaria de caminhar com meus próprios pés, digo que não. É sincero. Tudo o que conquistei veio da minha deficiência e não trocaria essa realidade por outra. Estou bem com meu corpo e com a intensa vida de tenista em cadeira de rodas, que tantas portas me abriu. Achei meu lugar no mundo.

    Vitória Miranda em depoimento a Júlia Sofia

    Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988

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