
Fidelidade saiu de moda em muitos relacionamentos. Mas está em alta entre todos os mortais. Outro dia fui no restaurante por quilo. Mal pesei o prato e já me entregaram um cartão que, carimbando nove vezes, me daria direito a uma décima refeição. Fidelização hoje em dia tem em todo lugar: na empresa aérea, em postos de gasolina, supermercados, na padaria e até no pet shop. Meu cachorro tem direito a mais banhos gratuitos do que ele poderia tomar durante a vida toda. Sei que pago os juros desses banhos embutidos na ração. Bancos oferecem fidelidade. Mas, na hora do financiamento, o imóvel vale 100, digamos, e depois de algum tempo, se consigo pagar 90, descubro que ainda faltam 140. A matemática dos financiamentos é mais incompreensível que a física quântica.
Mesmo assim, sou eternamente seduzido por uma proposta de fidelização. Há algum tempo, enlouqueci com uma oferta de streaming que nunca pensei em ter. Mas, pelo valor anual, tive a sensação de que não poderia mais viver sem. Nessa plataforma nunca assisti a nenhum filme. Ainda assim, recentemente renovei a assinatura por medo de perder algum lançamento extraordinário. O medo de perder me faz fidelizar. Só que de fato eu não preciso de tanta coisa todo o tempo. Essas campanhas criam necessidades que eu não tinha, na verdade.
Minha barriga parece uma melancia, e bem grande. Senti que precisava resolver o assunto, e fiz um plano semestral em uma academia bem cara. Recebi um megadesconto. Já estou no quinto mês e só pisei lá no dia da inscrição, quando comi um pão de queijo na lanchonete, e nunca mais apareci. O semestre terminou, outro começou, recebi uma mensagem propondo renovação automática, com 10% de desconto. Aceitei. Tenho a sensação de que a fidelização na academia me emagrece.
“Meu cachorro tem direito a mais banhos gratuitos do que ele poderia tomar durante a vida toda”
O grande momento de uma fidelização é o cadastro. Sou obrigado a dar o nome até da vizinha de minha mãe, quando eu era criança. A lembrar de números que nunca sei, escancarar meus endereços virtuais. E pronto, para sempre vou receber notificações daquela empresa.
Nas redes sociais, a fidelidade é com o algoritmo. Se eu der um like uma vez em uma paisagem italiana, passarei a receber ofertas de pacotes turísticos, e também de imobiliárias locais. É possível se viciar em ver gatinhos. Eu gosto de vacas. Adoro quando elas aparecem no meu feed. Quanto mais curto, mais vaquinhas aparecem. É difícil reconhecer, mas tenho uma fidelização com vacas.
A fidelização alcança territórios inimagináveis. Vai de farmácias a dealers. Soube de um rapaz que compra suas drogas e recebe em casa. E que ganha um bônus em produtos sintéticos a cada compra. Parece uma vantagem. Mas será que é? Vai acabar se viciando em drogas que nem conhecia.
Nem pensar nesse tipo de viagem que não precisa de avião, só dessas substâncias. Mas agora estou com pressa. Preciso resgatar minhas milhas antes que expirem. E partir para algum lugar em busca de novas fidelizações.
Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2025, edição nº 2925