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Walcyr Carrasco

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Conteúdo do quê?

Na era digital, um “oi” no Instagram vale mais que ler um clássico

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 dez 2024, 08h00

Antigamente, para mim, ler um livro de Graciliano Ramos era adquirir conteúdo. E, com ele, desfrutar sentimentos e uma certa expansão pessoal. O mesmo digo em relação a uma sonata de Mozart, contemplar uma obra de Tarsila, assistir a um filme de Visconti. Só como exemplo do que era considerado conteúdo. Outro dia estava no aeroporto e um rapaz aproximou-se de celular na mão: “Fala aqui”. “Falar o quê?” “Qualquer coisa, só estou precisando de conteúdo para minhas redes sociais.” “Mas você não quer fazer uma pergunta, pra facilitar?” “Ah, sei lá, tio, não precisa de pergunta, não. Só dá um oi.” E eu gentilmente gravei: “Oi, todo mundo”. “Tá ótimo, tio.” E sumiu na agitação das filas de embarque.

Eu fiquei pensando: que conteúdo é dizer “oi”? Eu sou conteúdo? Nas redes sociais, descobri que alguém falar oi, seja famoso ou não, é um conteúdo superválido. Houve um tempo que ler Crime e Castigo era buscar conteúdo. Hoje, ver alguém no Instagram tomando suco de laranja é mais que bom. Ao passear pelo celular, eu vi garotas fazendo penteados extravagantes, gente dançando não sei o quê, e até bebê fazendo manha. Perguntei a um amigo: “Mas o que isso significa?”. “São os novos milionários”, ele me explicou. “Essa garota de maquiagem toda borrada fatura milhões cada vez que bota um post no Instagram.” Ou seja, esses novos conteúdos, além do mais, são lucrativos.

“O mundo ideal da internet não combina com minha idade, meu peso e muito menos com meu humor”

Conteúdo hoje não é discutir se Capitu traiu ou não. Mas lambuzar a cara com mostarda ao comer um hot-dog e expor para o mundo é conteúdo mais que suficiente. Quando se fala em criar conteúdo, ninguém se refere a falar da vida de um filósofo grego, mas em fazer alguma coisa, boa ou não, diante da câmera.

As imagens passam por mim: alguém ensina drinques, outro a fazer mudas de orquídeas, uma canta fantasiada, outra explica como se maquiar. Para muitos, tudo isso pode parecer uma tremenda bobagem. Questão de ponto de vista. A maioria tem milhares de seguidores e basta escrever duas frases para encher a página com comentários contra, a favor, ou muito pelo contrário. A questão é criar um conteúdo que provoque engajamento. Ou seja, que atraia e satisfaça seguidores. Alguns são certeiros: um rapaz de sunga, corpo definido e sem camisa atrai muuuito engajamento. É um conteúdo que sempre dá certo. Eu adoraria fazer tanto sucesso, mas passei da idade para isso. Em sua maior parte, aliás, os conteúdos mais venerados pecam pelo etarismo, são gordofóbicos, nem para os carecas dão chance. O mundo ideal dos conteúdos da internet não combina com minha idade, meu peso e muito menos meu humor. Cansei de jantar com gente que só fica olhando para o celular. Outro dia fui a um restaurante e, quando o prato foi servido, ninguém queria comer sem fotografar. Quando enfiei o garfo no meu, reclamaram.

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As palavras mudam de sentido rapidamente, e conteúdo, hoje, significa alguma coisa que não sei o que é. Mas certamente está mais próximo de um vídeo de suco de laranja que do romance de um grande autor.

Publicado em VEJA de 6 de dezembro de 2024, edição nº 2922

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