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Walcyr Carrasco

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A ilusão de ser herdeiro

Se um parente nos deixou bens, melhor checar se não é furada

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 19 jan 2025, 15h15 - Publicado em 19 jan 2025, 08h00

Se tem algo que me fascina é quanto a palavra “herança” desperta o detetive íntimo de cada um. Confesso: eu mesmo mil vezes parei para pensar se em algum documento perdido de meus ancestrais não há um castelo na Toscana, um lote na Avenida Paulista… Não é impossível. Certa vez, em um cartório no centro da cidade, a tabeliã me mostrou uma caixinha cheia de cartas lacradas. Tinham sido depositadas ao longo de gerações com novas disposições testamentárias de alguns ricaços. Mas só poderiam ser abertas a pedido do herdeiro principal. Logicamente, ano pós ano, nunca pediam para abrir os envelopes, pois havia o risco de revelarem filhos desconhecidos, o reconhecimento de novos herdeiros. As cartas jazem até hoje no cartório. Eu bem que queria saber se o boato de um tio barão a que minha avó se referia era real. Como nunca pude abrir os documentos lacrados, me muni da arma mais moderna. O Google! Imediatamente descobri que existem muitos Carrascos no Brasil e, é óbvio, na Espanha. Seria eu o herdeiro de algum castelo, não na Toscana, mas na Andaluzia? Bem no início das investigações, descobri que melhor não. Você imagina quanto custa botar aquecimento em um castelo? Limpar? E fugir dos ratos acomodados nos porões por tantas gerações? Imagino que a vida das princesas nem era tão romântica como se pensa: eram obrigadas a se casar por interesse político e econômico e muitas vezes seus dotes equivaliam a um país. A maior parte do tempo dormiam em quartos frios, sem banheiro — mas prefiro não entrar em tema tão horrendo. Em pleno delírio pela herança, cheguei a cogitar dar uma resposta amigável a um golpe que recebi por e-mail. Segundo o qual um milionário nigeriano havia me deixado uma fortuna, devido a laços de sangue que eu não conhecia. Bastava entrar em uma conta no exterior e os próximos passos me seriam revelados (soube de gente que caiu, fez as malas e acabou até sequestrada). Mas um mínimo de juízo eu tenho, mesmo que seja só um mínimo. Parei de responder aos e-mails.

“Recebi um e-mail dizendo que um milionário nigeriano havia me deixado uma fortuna. Era um golpe”

Mas já que falei em castelo na Toscana, conheci, sim, um rapaz que herdou um deles. A família comemorou, a mulher até deu uma festa vestida de princesa. Mas… eram quinze herdeiros no total da família. Ou dividiam até as salas para fazer novos quartos ou teriam que vender o bem a preço de banana. A situação só piorou depois que descobriram os impostos a pagar. Castelo é caro! Ele descobriu que o principal da herança eram as dívidas. E vamos combinar: pagar dívida não é verdadeiramente uma herança.

Existem outros tipos de herança muito mais apetecíveis. Eu herdei do meu pai o gosto pela leitura e da minha mãe, o senso de humor. Da minha avó paterna, receitas deliciosas, e dos meus avós maternos, um pilão do século XIX que hoje enfeita minha sala. Principalmente, de todos herdei as histórias que conto e reconto. Por elas não precisei pagar impostos, pelo menos por enquanto — e são uma rica fonte de sabedoria.

Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2025, edição nº 2927

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