Acabei com a magia do Natal
Tarimbado como Papai Noel internacional e calçando tênis vermelhos: acho que a partir dali meu filho jamais tornaria a acreditar no bom velhinho

Olhei para meus botões quando o Sr. Galluzzi me fez o convite, naquele mês de novembro de 2018. Estaria eu tão gordo assim? Quando cheguei em casa fui conferir no espelho: minha barba não tinha — àquela altura, diga-se — nenhum fiapo branco.
Galluzzi era o simpático proprietário da escola infantil pretensamente bilíngue onde meu filho estudava no ano em que vivemos na Itália. Quase todas as manhãs conversava com ele, logo depois de deixar lá o Chico. Costumava sorrir. Perguntava coisas sobre o Brasil. Chegou a me contar que um primo de segundo grau havia ido tentar a vida em São Paulo.
— E por onde anda? O que faz?
— Acredita que não sei?
Claro que acreditei. Munido da mesma certeza — e um certo alívio — de que parentes meus não fazem a menor ideia de onde estou.
Sei que ele era um típico italiano de classe média alta do norte do país. Muito parecido com muitos brasileiros, a propósito.
Naquela temporada italiana me deparei com pessoas que tinham aversão a forasteiros. Outros que olhavam para mim como se eu não fosse imigrante — ou como se fosse um imigrante “diferente”, sem saberem eles explicar o motivo de tal distinção. É porque sou branco. É porque não estou dependendo dos serviços sociais italianos para me manter. É porque não tiro emprego de italiano algum com o meu trabalho. Eu sei que é por causa disso tudo. E talvez de algum bocado mais.
Mas essas pessoas não saberiam me explicar. Preconceitos costumam ser cegos.
Galluzzi não era assim. Ou não deixava transparecer qualquer sentimento discriminatório do tipo. Eu gostava das nossas quase diárias conversas fúteis. Falávamos sobre o tempo, sobre o fiasco que era a Itália não participando da Copa do Mundo, sobre azeites da Calábria e vinhos da Toscana, sobre a quase extinção do dialeto meneghino e sobre os murais internacionais do brasileiro Eduardo Kobra.
A mim me aprazia praticar o italiano, aprender novas palavras, ter um interlocutor no deserto que é, para o degredado, o início da vida fora do país de origem. E ele parecia interessado em minhas histórias.
Ou seja: havia um lastro de empatia, comiseração e, vá lá, amizade quando Galluzzi me convidou para ser o Papai Noel — Babbo Natale — da festa de fim de ano da escola infantil Toys and Monsters.
Um lastro que podia ser maior do que a minha circunferência abdominal, mais verdadeiro do que a minha barba branca e infinitamente melhor do que o macarrônico, lasanhônico e pizzônico italiano que eu ousava tentar falar.
– Ho ho ho… — isto, ao menos, parece ser universal.
Após me certificar de que a festa seria exatamente uma semana antes de nossa partida da Itália, topei o inusitado convite. Seria uma experiência e tanto, pensava eu. Um ano antes eu havia encarnado o bom velhinho em um famoso shopping paulistano — deliciosa pauta que insisti em emplacar e que foi prontamente aceita pela queridíssima editora Bia Reis.
– Ah, então a escolha é mais do que acertada. Você é um Papai Noel profissional. E agora vai se tornar um Babbo Natale internacional — disse-me o velho Galluzzi.
Exagerado, claro.
Mas àquela altura eu já estava movido pela estranha empolgação que me acomete quando decido embarcar em aventuras insólitas. De modo que não me contive: esmiucei os detalhes da minha experiência como Papai Noel de shopping, caprichando na descrição da menina petulante que acreditava em mim e que fez com que a mãe comprasse um estoque de cenouras para alimentar minhas famélicas renas. Lembrei de contar ao Galluzzi, sem economizar nem nas minúcias nem na imaginação, que alguns anos antes eu havia visitado a terra oficial do Papai Noel na Lapônia, entrevistado o bom velhinho legítimo e vivido a experiência autêntica de um Natal fora de época — em agosto.
– Perfetto. Teremos então em nossa festa de fim de ano um Papai Noel de experiência internacional graduado e certificado pelo próprio Papai Noel verdadeiro, aquele da Lapônia — concordou o dono da escolinha.
Treinei respostas às crianças que estranhassem meu sotaque estrangeiro
Perguntei se devia me preocupar com figurino ou qualquer preparativo. Ele fez que não, disse que no dia certo bastava que eu chegasse 15 minutos antes. Tudo estaria lá prontinho para mim.
Foram duas ou três semanas de ansiedade. Pesquisei sobre frases comuns que papais noéis italianos falam para as crianças, treinei bem a gargalhada bonachona e ensaiei umas duas ou três respostas criativas para o caso de alguém estranhar meu sotaque — “é que como sei todas as línguas do mundo para falar com todas as crianças do mundo, veja bem, às vezes me confundo mesmo, ho ho ho”; “ah, você percebeu? É que sou estrangeiro aqui na Itália como muitos outros que você deve encontrar na vida, então só peço que nos trate sempre bem ou vai ficar sem presente no Natal, ho ho ho”; e também apenas um “ho ho ho” entre risonho e constrangido, resposta coringa útil principalmente quando eu não entendesse a pergunta de algum impertinente bambino.
No dia D, um pequeno depósito de materiais de limpeza era meu camarim. Dentro de uma surrada sacola plástica estavam as vestes, o gorro, a barba falsa e o irritante sininho calibrado para emitir suas notas agudas. Para minha triste surpresa, não havia bota preta alguma.
Sem alternativa, incorporei uma versão moderna do bom velhinho, usando meus velhos tênis all star vermelhos.
– As crianças não vão notar, pois ficarão entretidas demais tentando arrancar minha barba — pensei.
O que eu não contava é que no meio daquela ruidosa manada de mini-devotos de enfeites de Natal, renas voadoras e presentes estava o meu filho, sempre muito observador.
– O Papai Noel é o papai? — apontou.
E foi ali que ele começou a deixar de acreditar em Papai Noel.
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