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Por que Bolsonaro já ganhou essa briga com o STF

O decreto é inconstitucional, mas, enquanto a sociedade discute os aspectos jurídicos, o presidente ganha espaço

Por Ricardo Rangel Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 2 Maio 2022, 10h21 - Publicado em 22 abr 2022, 12h35

Mais uma vez Jair Bolsonaro aponta para a lua, e mais uma vez a sociedade se perde discutindo o dedo.

Estamos engajados em uma discussão jurídica que pouco interessa. É claro que o decreto representa desvio de finalidade, claro que é inconstitucional, e claro que, mesmo que não fosse, não suspenderia a inelegibilidade do deputado criminoso. E é claro que é crime de responsabilidade — em um país verdadeiramente democrático, o pedido de impeachment de Bolsonaro já estaria tramitando.

Mas nada disso é especialmente importante — ainda que o absurdo da vez seja mais absurdo do que os anteriores, o crescendo é mais do mesmo, e o próximo absurdo deve ser ainda mais absurdo.

O que é importante é que, mais uma vez, o capitão conseguiu ditar a pauta: estamos todos discutindo Jair Bolsonaro e seu decreto — impressionante, por sinal, a quantidade de supostos democratas fazendo ressalvas à condenação de quem incitou a destruição da democracia — e multiplicando o volume de notícias, verdadeiras ou fake, sobre o presidente.

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Mais uma vez, seja qual for o resultado da briga com o STF, Bolsonaro já venceu essa batalha.

Se o Supremo derrubar seu decreto absurdo, Bolsonaro posará de coitadinho, de vítima de uma suposta “ditadura do Judiciário”, de paladino solitário na luta pela liberdade de expressão blá-blá-blá. E incendiará as redes com isso.

Se o Supremo mantiver o decreto, Bolsonaro cantará vitória e posará de machão, herói na luta pela liberdade de expressão, de bem sucedido no enfrentamento contra a suposta “ditadura do Judiciário” blá-blá-blá. E incendiará as redes com isso.

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E, se o Supremo mantiver o decreto, mas a inelegibilidade de Silveira for mantida, Bolsonaro ganhará as duas narrativas, podendo escolher quem vê o que nas redes. De lambuja, a discussão sobre a inelegibilidade vira uma batalha no Congresso, mantendo o assunto nas manchetes e nas redes.

Quanto mais briga, melhor para Bolsonaro. É assim que ele mantém seu nome em evidência, que vende a tese fantasiosa da “ditadura do Judiciário”, que consegue votos de quem é contra “o sistema”, que vai demonstrar a “fraude” na eleição, com que pretende melar o resultado em caso de derrota. É assim que ele mata a democracia.

Em vez de nos perdermos em eternas discussões jurídicas, precisamos é encontrar uma maneira de escapar das armadilhas de Bolsonaro e de garantir sua derrota em outubro.

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