Relâmpago: Assine Digital Completo por 2,99
Imagem Blog

Ricardo Rangel

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO

A esquerda na encruzilhada

Vitória de Lula escancarou contradições e aprofundou hostilidades

Por Ricardo Rangel Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 6 dez 2024, 11h16 - Publicado em 6 dez 2024, 06h00

Na semana passada, o governo apresentou um pacote para cortar gastos — e cortar receitas. Mostrou que está dividido e não sabe direito para onde quer ir. O resultado foi o desastre que se viu.

A parte do plano que corta gastos é obra da esquerda moderna, que entendeu que gastar mais do que se arrecada é ruim. No tempo, isso aumenta a dívida até que ela se torne impagável e paralise o governo. O problema gera inflação, que desorganiza a economia, pune o pobre e força o juro para cima. Uma taxa alta impede o país de crescer.

Essa é a esquerda que defende a democracia e que sabe que governar é escolher prioridades. No PT, ela se resume a uma minoria em que Fernando Haddad é o nome de destaque.

Já a esquerda tradicional acha que gastar “só um pouquinho” a mais do que se arrecada não faz mal. A turma acha que dá para fazer tudo. Afinal, o governo sempre pode emitir mais moeda. Acreditam ainda que gerar mais dívida não é tão grave, porque o governo controla (ou deveria controlar) a taxa de juro. Se aumentar a inflação, tudo bem, porque um “pouquinho de inflação não faz mal”. E, aliás, o Brasil nem deveria pagar essa dívida, cujos credores “são os bancos e os rentistas”.

É essa a parte da esquerda que diz que defende a democracia — mas, sabe como é, defende ditaduras se elas forem de esquerda. Essa gente acha que a matemática é de direita e que a facção de Haddad é neoliberal. No PT, quem pensa assim é a maioria, e sua (retumbante) porta-voz é a presidente do partido, Gleisi Hoffmann.

Continua após a publicidade

“Pacote para cortar gastos (e cortar receitas) mostrou que o governo está dividido e não sabe para onde ir”

Apesar de terem, em tese, o mesmo objetivo — reduzir a desigualdade, aumentar a justiça social, emancipar os pobres —, as duas esquerdas discordam sobre os meios para alcançar esses objetivos. Essa discordância inviabiliza que se chegue a um acordo (e até a um diálogo) e representa um problema monumental.

Mas a coisa fica pior. Existe uma terceira facção que não se distingue das outras apenas pelos meios, mas também pelos objetivos. É a esquerda identitária, que busca reparação para (certas) minorias historicamente oprimidas: mulheres, negros, a comunidade LGBTQIA+ e indígenas. Seus métodos são o cancelamento, o patrulhamento, a censura, a humilhação, a interdição do debate (eventualmente, identitários brigam até entre si, como vimos no conflito Anielle Franco versus Silvio Almeida).

Continua após a publicidade

É a esquerda que diz que defende a democracia, mas se vale de métodos profundamente antidemocráticos e, no fundo, acha que a democracia é uma empulhação para manter as minorias para sempre oprimidas. Ela não se interessa por economia, nem pela gestão do Estado, nem sequer por ganhar eleição. Parece querer apenas ter razão. Ganhar uma guerra cultural. Ou achar que ganhou.

Essa fragmentação na esquerda não é nova, mas a vitória de Lula, que precisou abarcar as três facções em seu governo, escancarou as contradições a aprofundou a hostilidade entre as correntes. Essa esquerda tripartida acredita que, quando chegar 2026, vai se unir, atrair as forças de centro de cujo apoio precisa, comunicar-se com o eleitorado e conseguir os votos necessários para a vitória.

Otimismo é isso aí.

Publicado em VEJA de 6 de dezembro de 2024, edição nº 2922

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

ECONOMIZE ATÉ 82% OFF

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
Apenas 2,99/mês

Revista em Casa + Digital Completo

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 9)
A partir de 35,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
Pagamento único anual de R$35,88, equivalente a R$ 2,99/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.