‘Meu Nome é Gal’ dribla polêmicas ao retratar vida da cantora
Cinebiografia revela a gênese de uma das maiores vozes do Brasil, mas peca por mostrar um retrato superficial
A temperatura do lado de fora do teatro em Copacabana era sufocante. As tropas do Exército estavam de prontidão para coibir com violência qualquer ato considerado “subversivo”. Dentro, o clima era igualmente escaldante. Aos 26 anos, Gal Costa tornava-se a voz da tropicália, movimento cultural que refletia a ebulição criativa do período, ao estrear o espetáculo Fa-Tal — Gal: a Todo Vapor, com repertório de compositores ligados à contracultura. Até então, a cantora mantinha-se vacilante na oposição à ditadura. Mas mudara de ideia após o exílio em Londres dos amigos Caetano Veloso e Gilberto Gil. No filme Meu Nome é Gal, em cartaz nos cinemas desde quinta-feira 12, no aniversário de 52 anos da estreia do histórico espetáculo, a artista reage com contundência ao ser alertada da possibilidade de repressão dos militares: “Então, o show não vai acabar”.
A cena atesta a marca principal do filme: enfatizar o papel corajoso de Gal na resistência à ditadura. Ambientado entre 1967 e 1971, e com uma convincente Sophie Charlotte no papel da artista, o longa mostra a gênese da baiana Maria da Graça Costa Penna Burgos, a Gracinha — que, ao se mudar para o Rio para viver com os amigos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia, se transforma em Gal Costa. A produção tem o mérito de reafirmar a estatura da cantora na MPB e apresentá-la à nova geração. Mas o recorte que prioriza só o início de carreira e seu show lendário torna a produção insuficiente como cinebiografia. A faceta política de Gal ganha dimensão dilatada em relação a outros aspectos de sua carreira, como o show do disco Índia, em que chocava ao tocar violão de pernas abertas, ou quando mostrou os seios ao cantar Brasil, de Cazuza, nos anos 1990.
Mais que cantar músicas memoráveis, afinal, Gal marcou sua época por usar o corpo como bandeira do feminismo e da liberação sexual. O filme acerta ao tratar sua homossexualidade com naturalidade, exibindo um romance lésbico da juventude. “Meu negócio é a música”, diz a personagem, irritada, a uma jornalista que insistia em saber sobre sua sexualidade. Na vida real, Gal continuou dando a mesma resposta sempre que questionada.
O longa evita, sobretudo, as polêmicas da cantora — como problemas com empresários e, no fim da vida, a relação tóxica com a viúva Wilma Petrillo. Com roteiro e direção de Dandara Ferreira e Lô Politi, a produção levou seis anos para ficar pronta e teve as bênçãos de Gal, que morreu no ano passado, aos 77, sem ver o resultado. A ideia havia partido da própria artista, que anos antes gostara da série documental O Nome Dela é Gal, dirigida por Dandara a partir das cenas originais que restaram do show Fa-Tal. “O filme é uma declaração de amor a Gal”, diz a diretora, que também faz as vezes de Maria Bethânia em cena.
Sophie Charlotte defende bem o papel principal e é capaz de exibir até dotes vocais (embora só nos primeiros passos da artista: na hora dos clássicos, ela dubla). O ator baiano Rodrigo Lelis impressiona pela semelhança com Caetano Veloso e faz dele um coadjuvante de luxo. Também se destaca um personagem menos conhecido, Guilherme Araújo (o humorista Luis Lobianco), empresário que teve a ideia de usar o apelido Gal como alcunha.
Apesar dos detalhes simpáticos, o filme peca pela ligeireza histórica (a relação de Gal com grandes figuras tropicalistas como Rita Lee e Bethânia é só esboçada) e diálogos rasos. Os personagens não se cansam de proclamar que ela será “a maior cantora do Brasil”. No final, fica a sensação de um retrato incompleto e com menos cenas musicais que comprovem a profecia.
Publicado em VEJA de 13 de outubro de 2023, edição nº 2863