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O Som e a Fúria

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Cher fala a VEJA: ‘Mulheres são julgadas de forma diferente dos homens’

Cantora conversou com VEJA sobre autobiografia em que relembra as violências que sofreu do ex-marido e os preconceitos da indústria do entretenimento

Por Felipe Branco Cruz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 jan 2025, 12h52

Dizem que uma pessoa realmente famosa não precisa de sobrenome. Pelé, Sinatra, Elvis e, claro, Cher — um privilégio de que ela desfruta desde os 17 anos, quando ganhou os holofotes ao apresentar um programa de TV ao lado do ex-marido, Sonny Bono. Nos sessenta anos seguintes, acumulou amigos verdadeiros no showbiz e guarda histórias hilárias sobre eles. Em entrevista a VEJA, feita às vésperas do Natal para divulgar o livro Cher – A autobiografia (Parte Um), da editora Harper Collins, já disponível em português nas livrarias, ela se divertiu ao contar como as pessoas de fora do ramo se surpreendem com suas amizades. “Quando conto essas histórias, eu às vezes menciono só o primeiro nome dos meus amigos – e sussurro o sobrenome. Tipo, Jack, e depois: Nicholson ou a Tina, e depois: Turner”, diz. 

Com muitas histórias para contar – muitas mesmo – a cantora relembra da juventude, um período anterior à fama e das dificuldades que passou até atingir o sucesso precoce com o ex-marido Sonny – do qual se separou anos depois devido a abusos físicos e psicológicos. Na primeira parte, o livro abraça toda a carreira musical, deixando as histórias de sua atuação no cinema – e a conquista do Oscar por Feitiço da Lua, em 1987, para a segunda parte, ainda sem data para ser lançada.

De bom humor, apesar da entrevista ter sido adiada duas vezes devido aos incêndios em Los Angelesa cantora precisou evacuar sua mansão em Malibu – ela falou sem ressalvas sobre seu filho Chaz, um homem transgênero, que na primeira parte do livro é mencionado como mulher. “Sempre penso como eu me sentiria se acordasse amanhã como um homem”, disse. Falou ainda sobre a pressão do mercado de entretenimento em cima das mulheres mais velhas e que, não importa a época, sempre será mais difícil para mulheres realizar algo no ramo do que para um homem.

Aos 78 anos, Cher não gosta de falar de aposentadoria, mas sugere que pretende desacelerar. Seu próximo álbum deverá ser o último da carreira. Seu foco nos próximos anos será o lançamento da segunda parte do livro e, na sequência, transformá-lo em um filme. Confira a seguir os melhores trechos do bate-papo: 

A cantora americana Cher
A cantora americana Cher (Mert & Marcus/Divulgação)

Seu livro é bastante comovente, especialmente nos momentos em que rememora a infância marcada por dificuldades financeiras. Foi difícil rever esse passado? Não foi tão difícil porque eu já as ouvi muitas vezes. Minha mãe e minha avó sempre falavam sobre isso. Tem algumas histórias que eu nunca ouvira, mas acho que elas não me traumatizaram. Parece estranho. É lógico que algumas ainda soam bizarras para mim, mas no momento em que elas estavam acontecendo, eu apenas estava vivenciando-as. Eu não percebia o impacto delas. 

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De que forma essa experiência moldou sua visão de mundo e influenciou suas escolhas na indústria musical e cinematográfica? Minha infância foi difícil. Eu realmente fui pobre e não tinha dinheiro algum. Às vezes só tínhamos feijão e, então, minha mãe encontrava alguém que nos ajudava e comíamos do bom e do melhor, mas eu nunca gostei de carne. 

Você é famosa desde os 17 anos. De alguma forma a fama a impediu de ter uma vida normal? A vida sempre pareceu normal para mim. 

Sim. Mas no livro, você descreve a fama como uma experiência desafiadora e, por vezes, opressiva. Como você lidou com a constante atenção da mídia e a invasão de sua privacidade? Nunca levei muito a sério, nem quando era bom, nem quando era ruim. Você só tem de lutar para chegar aonde quer que você queira ir. Nem sempre é fácil. Quando você é famosa, você tem de se esforçar para manter sua privacidade. É uma faca de dois gumes. Você sabe no que está se metendo. Quando você fica famoso, você sabe o efeito gigantesco disso. É como viver um sonho e descobrir que ele tem vários poréns. Você pode não saber quais são, mas sabe que nada vem de graça. Nada é de graça. 

No início do livro, você faz um alerta sobre a maneira como vai se referir ao seu filho Chaz. Para você, foi difícil entender que ele era um homem transgênero? Contei para o meu filho que o livro conteria histórias do período anterior à sua transição. Eu não queria que nada o aborrecesse. É preciso muita compreensão e às vezes você não entende de imediato essas mudanças. Às vezes, você sente que está perdendo um filho antes de ganhar o novo. Acho que o segredo é ser paciente. Chaz é uma pessoa maravilhosa. Eu sempre penso como eu me sentiria se acordasse amanhã como um homem.

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A cantora Cher com o filho Chaz Bono, em 2017
A cantora Cher com o filho Chaz Bono, em 2017 (Kevin Mazur/WireImage/Getty Images)

Você ganhou o Oscar por Feitiço da Lua. Foi o reconhecimento da sua carreira de atriz, além da música. O que pensou quando tocou a estatueta pela primeira vez? Nossa, foi muito bom. Eu não estava preparada porque eu havia sido indicada antes [em 1984, por Silkwood – O Retrato de uma Coragem] e não venci. Então, eu não queria me envolver muito. Eu não tinha um discurso. Esqueci de agradecer a todos. Quando você chega lá, você fica tão nervosa, especialmente quando você não está esperando. Mas eu estava muito nervosa e tive que me desculpar com todos depois por não ter agradecido a eles. Realmente lamento por isso. Mas sempre que vejo o Oscar na minha estante, eu me surpreendo. Ele está ali, parado. 

Onde ele está na sua casa? O Oscar está em uma estante no meu quarto. Ele fica bem no meio de todos os meus prêmios. É o que mais me orgulho por ter sido o mais difícil de ganhar. Feitiço da Lua foi o meu melhor trabalho, definitivamente. Eu estava conversando sobre isso ontem a noite, sobre o quão divertido foi fazer esse filme. Não foi nada difícil. Simplesmente íamos de uma ótima cena para outra, de uma ótima atuação para outra. 

O livro conta também sobre outros momentos divertidos. Como uma orgia na casa do Salvador Dali, com Francis Ford Coppola. Mesmo você sendo uma pessoa muito famosa, ficou surpresa com aquele ambiente surreal? Quando conto essas histórias, eu às vezes menciono só o primeiro nome dos meus amigos – e sussurro o sobrenome. Tipo, Jack, e depois: Nicholson, ou a Tina, e depois: Turner. Quando penso nas pessoas que conheci e que são minhas amigas, me esqueço que elas são muito famosos. Quem escuta fica de boca aberta e começa a rir ao saber quem eram as pessoas que estavam comigo. É estranho para as pessoas que não estão no ramo ouvirem essas histórias. Sobre a orgia na casa do Dali, não foi surreal porque ficou meio constrangedor, sabe. 

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Você termina o livro com um relato sobre o apoio de Francis Ford Coppola para você seguir carreira no cinema e lamenta as rejeições que sofreu por ser “velha demais, étnica demais, caricata demais”. O quão difícil é para as mulheres, quando ficam mais velhas, seguir trabalhando na indústria do cinema? Há mais acesso agora do que nunca porque mulheres mais velhas estão realmente tendo uma chance de trabalhar. Como, por exemplo, a Helen Mirren, Judy Dench e Jane Fonda. São mulheres mais velhas que estão fazendo filmes e tendo sucesso. Não é fácil ser mais velho no nosso negócio. É como quando eu me vejo e então me lembro de mim mesmo, é meio difícil fazer as pazes com isso.

Por quê? Quando sua aparência é tão importante para sua carreira… não consigo dizer exatamente mas, quando as pessoas começam a pensar: “Meu Deus, ela é tão incrível e tem 50 anos”, e depois: “Ela é incrível e tem 60 anos”, e assim por diante. Em algum momento, você tem que fazer as pazes com isso, e é um saco.

A cantora Cher com o Oscar de melhor atriz pelo filme 'O Feitço da Lua', em 1988
A cantora Cher com o Oscar de melhor atriz pelo filme ‘O Feitço da Lua’, em 1988 (Bob Riha, Jr./Getty Images)

Você relata sobre o relacionamento abusivo que teve com seu ex-marido, Sonny Bono. Por que é importante falar sobre esse assunto difícil? A única parte difícil foi tentar explicar o quão complicado ele era e contar a verdade sobre ele sem o fazer soar como um vilão.

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Você acredita que a música pop é menos machista hoje? É mil vezes melhor. Você tem uma chance melhor de controlar sua carreira. Quando eu era jovem e trabalhadora, eu realmente não tinha escolha. Os homens diziam: “Faça isso”, e então você deveria fazer aquilo. Havia algumas mulheres que tinham mais poder, mas na maioria das vezes você cantava e, então, eles davam um tapinha na sua cabeça e diziam: “Ok, agora vá às compras.”

Por que decidiu dividir seu livro em duas partes?  Eu estava com o prazo atrasado para entregar o primeiro livro. E eu queria contar da melhor maneira possível, com o máximo de informações. Eu queria contar histórias reais e não algo que você encontre na Wikipedia. Eu queria revelar quem eu realmente sou. 

O ambiente do showbiz está mais conservador atualmente? Não acho que esteja mais conservador. Tive dificuldade em ser quem eu queria ser, o que não era exatamente loucura, era só diferente. Acho que toda vez que uma mulher quer fazer alguma coisa, em qualquer época, ela vai encontrar uma dificuldade maior do que se um homem decidir fazer o mesmo. Toda vez que uma mulher fizer algo diferente, ela será julgada de maneira diferente.

É verdade que seu próximo álbum será o último da carreira? Tenho quase certeza de que será porque simplesmente chega um momento em que a voz já não serve mais para cantar. A minha voz não é a mesma. É por isso que estou tentando gravar o novo álbum o mais rápido possível. Mas tudo pode acontecer. Eu vou dar o meu melhor e espero que as pessoas gostem.

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Há uma passagem divertida no livro em que você diz não saber cozinhar, mas com o tempo aprimorou uma receita de molho de macarrão que ficou tão boa que você dá para os amigos. Pode revelar a receita? Era o molho da mãe do Sonny. Ela passou para o Sonny, que passou para mim. Faço na época do Natal e meus amigos adoram. Dou para eles com uma etiqueta escrita: “Molho de macarrão da diva”. Vou te revelar um segredo: não tem uma receita exata. É como se eu jogasse um pouquinho disso e experimentasse. Aí, se precisa de mais alho ou cebola, eu vou adicionando. É complicado. Ele é simplesmente diferente. Acho que o grande segredo é que eu não uso carne.

Cher: A Autobiografia (Parte Um)

  • Preço: 89,90 reais (400 págs.); 44,90 reais (ebook)
  • Autor: Cher
  • Editora: Harper Collins
  • Tradução:  Isabella Pacheco
Capa do livro 'Cher - A Autobiografia (Parte Um)', da editora Harper Collins
Capa do livro ‘Cher – A Autobiografia (Parte Um)’, da editora Harper Collins (//Divulgação)
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