A relevância da segurança pública no contexto político brasileiro está sendo acompanhada por um fator que prejudica ainda mais o governo: declarações presidenciais que reforçam, no imaginário dos eleitores, a sensação de desalinhamento entre o governo e a realidade cotidiana da violência. Pesquisas de opinião captam esse fenômeno não como análise técnica, mas como percepção política — e, durante eleições, percepções pesam mais que estatísticas.
Algumas falas de Lula adquiriram significado simbólico. Ao afirmar que “o traficante é, muitas vezes, vítima do usuário”, o presidente buscou evidenciar a complexidade do problema das drogas. No entanto, a maioria da população entendeu isso como diminuição da gravidade do crime e desvio da violência concreta para argumentação teórica, distante da vivência do cidadão comum.
Caso semelhante ocorreu quando Lula comentou sobre roubos de celulares, afirmando que jovens cometem esses delitos para “tomar uma cervejinha”. Ainda que a intenção fosse contextualizar pequenos crimes dentro de um panorama social mais amplo, a fala consolidou a noção de tolerância com delitos que afetam diretamente a vida urbana.
“O cidadão quer reconhecimento do seu medo, indignação contra o crime e demonstração de autoridade”
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou, em 2024, cerca de 917 748 casos de roubo e furto de celulares. Esse crime deixou de ser mera estatística para se tornar experiência social generalizada: praticamente todo brasileiro conhece alguém que teve seu aparelho roubado, intensificando a sensação de insegurança.
No âmbito eleitoral, essas declarações importam pelo efeito cumulativo. Pesquisas indicam que eleitores já associam a esquerda a dificuldades na administração da segurança pública. Quando pronunciamentos presidenciais parecem confirmar essa visão — demonstrando mais empatia pelo infrator que solidariedade com a vítima —, o dano político se amplifica.
A segurança pública é assunto de grande impacto emocional. O cidadão não busca apenas políticas estruturais; quer reconhecimento do seu medo, indignação contra o crime e demonstração de autoridade. Nessa área, nuances discursivas são ignoradas. O que fica é a impressão. E a impressão é que o governo foca nas causas enquanto o eleitor lida com as consequências.
Essa diferença explica por que a segurança atua como fator de erosão da popularidade presidencial. Lula mantém capital político significativo, mas a questão da violência enfraquece sua posição entre eleitores moderados, urbanos e menos ideológicos — justamente aqueles que decidem eleições acirradas.
As pesquisas sugerem que a dificuldade do governo em alinhar discurso e ação na segurança pública gera impactos eleitorais concretos. Declarações que relativizam o crime fortalecem a percepção de inadequação diante de um problema que o eleitor considera urgente. Se a segurança continuar prioritária, esse tipo de falha comunicativa tende a ter mais influência que indicadores econômicos positivos.
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979







