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Benefícios ou malefícios?

A previdência que ampara necessitados pode afundar contas

Por Vilma Gryzinski 8 dez 2024, 08h00

Uma das discussões permanentes em todos os países que alcançaram o mínimo de civilização é como manter um sistema justo para pagar aposentadorias, pensões e outros benefícios sociais sem afundar no movimento oposto, o dos desperdícios e abusos que ameaçam o próprio mecanismo ao criarem contas públicas insustentáveis. A maioria dos países europeus vive esse dilema, agravado pelo declínio populacional, e provavelmente não existe nenhum outro lugar que o encarne melhor do que a pequena cidade de Grimsby, uma localidade à beira-­mar na Inglaterra em que mais da metade da força de trabalho — 53% dos adultos — não trabalha; 33% estão afastados por licença médica; 11% procuram colocação e 9% incluem-se em outros quesitos. Em vez do lugar utópico em que o “governo” garante a vida da maioria, Grimsby é uma cidade degradada, cheia de desocupados que perderam a dignidade que prover o próprio sustento confere. A expectativa de vida é de 70 anos, seis a menos que no Brasil e doze a menos que a da Inglaterra. Muitos governos, de esquerda e de direita, contribuíram para essas distorções, mas os especialistas concordam que a pandemia de covid-19 acelerou os fenômenos que hoje se replicam pelo Reino Unido: licenças médicas dadas pela internet e profissionais dispostos a se livrar logo dos requerentes. Sem contar que, efetivamente, houve um aumento de casos de distúrbios emocionais provocados por ficar em casa sem ter o que fazer. Os menos honestos também dominaram rapidamente as “palavras mágicas”. Pensamentos suicidas, por exemplo, garantem uma licença sem mais perguntas. Autismo, distúrbio bipolar e outros problemas de caracterização complexa — mas rapidamente pesquisáveis no doutor Google — são outras categorias. Em cinco anos, houve 1 milhão de casos a mais de licenças médicas e benefícios por incapacidade. Em 2030, a conta passará de 100 bilhões de dólares.

“A epidemia de covid-19 acelerou os fenômenos que hoje se replicam pelo Reino Unido”

Os benefícios sociais com a estrutura hoje disseminada pelo mundo foram introduzidos na Alemanha unificada em 1881, com contribuições dos empregadores, dos trabalhadores e do governo (o seguro-doença surgiu logo depois, em 1884, e o seguro-desemprego, em 1927). “Podem chamar de socialismo ou do que quiserem, não me importa”, provocou Otto von Bismarck, o “chanceler de ferro”, unificador e criador da nova Alemanha. Ele podia se dar a esse luxo, encarnação viva do conservadorismo e tendo dedicado seus recursos políticos a confrontar a novidade representada pelos socialistas. A idade para a aposentadoria foi fixada em 70 anos — reduzidos para 65 em 1916. Como a expectativa de vida equivalia praticamente à de Grimsby hoje, era conta administrável. Mas os números continuam surpreendentemente estáveis: a aposentadoria na Alemanha hoje é aos 66 anos e vai aumentar para 67 até 2031.

Uma das frases mais conhecidas de Bismarck é a que diz: “Só um tolo aprende com os próprios erros. Os sábios aprendem com os erros dos outros”. Os abusos que tornaram Grimsby sinônimo de sistema disfuncional estão aí para todos aprenderem. É vital ter uma rede para segurar os vulneráveis na hora da necessidade, mas, quando os benefícios incentivam a inatividade e viram um meio de vida, prejudicam em vez de ajudar. São malefícios para as pessoas e os países.

Publicado em VEJA de 6 de dezembro de 2024, edição nº 2922

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