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A psicóloga e pesquisadora Ilana Pinsky reflete sobre saúde mental e suas conexões com a nossa sociedade

Álcool causa câncer? O novo alerta do ‘médico-chefe’ dos EUA

Documento recém-publicado prescreve avisos explícitos na embalagem das bebidas e reforça sua associação com a doença

Por Ilana Pinsky
Atualizado em 7 jan 2025, 09h24 - Publicado em 6 jan 2025, 15h00

Como muitos brasileiros, passei o final de ano em uma praia, onde o espetáculo da natureza — dias luminosos, mares reluzentes, pores de sol quase sobrenaturais — dividia espaço com a presença incessante de bebidas alcoólicas.

Duas cenas ficaram comigo. Primeiro, um grupo de mulheres na praia, cada uma consumindo várias cervejas e caipirinhas. No final do dia, levantaram-se, deixando copos e garrafas na areia e foram embora dirigindo. Outra cena: na vendinha onde fui comprar pão, um homem jovem visivelmente embriagado reclamava em altos brados do sumiço de um pacote de cigarros que estava bem na sua frente. Saiu tropeçando, levando ao lado o filho pequeno, que parecia resignado. Se a imagem do álcool parece ubíqua, talvez seja porque realmente é.

A ingestão de bebidas alcoólicas no Brasil consumiu R$ 18,8 bilhões em 2019, de acordo com a Fiocruz. Esse montante, calculado com base em dados oficiais, inclui despesas no SUS e perdas de produtividade por mortes prematuras e licenças, mas desconsidera os gastos da saúde privada e complementos estaduais e municipais, o que subestima o impacto total. Esses números destacam a relevância do novo comunicado emitido pelo Surgeon General (uma espécie de médico-chefe) dos Estados Unidos, Vivek Murthy.

O documento assinado por ele destaca uma realidade muitas vezes ignorada: o consumo de álcool, mesmo em pequenas quantidades, pode aumentar significativamente o risco de câncer. Seu objetivo é duplo: conscientizar a população — já que apenas 45% dos americanos reconhecem essa relação — e promover a implementação de rótulos de advertência específicos nas embalagens de bebidas alcoólicas (muito além do genérico e ineficaz “consuma moderadamente”). 

O alerta de Murthy vai ao encontro de entidades como a OMS e países como o Canadá, que já incorporaram o consenso científico de que, devido ao impacto do álcool no câncer, não existe um nível seguro para o consumo de bebidas alcoólicas.

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Em 2022, o Canadá revisou suas diretrizes, reduzindo a recomendação de consumo para, no máximo, duas doses por semana. Lembrando que uma dose equivale a aproximadamente uma lata de cerveja de 350 ml, 80 ml de vinho ou 30 ml de destilado.

Deixe-me ser clara: não se trata de alarmismo. O álcool (qualquer tipo de bebida alcoólica: incluindo cerveja, vinho, destilados) é o terceiro maior causador de câncer na população norte-americana, atrás apenas do tabaco e da obesidade. Ele está associado a pelo menos sete tipos de câncer, incluindo boca, esôfago, fígado, mama e cólon. Não estamos falando de um dado marginal, mas sim de um fator central de risco que pode ser modificado (as pessoas podem decidir sobre seu consumo, mas não sobre sua genética); daí o pronunciamento do médico-geral dos Estados Unidos.

Causa e efeito

Como exatamente o álcool se torna cancerígeno? A resposta está em vários mecanismos. O álcool causa câncer principalmente por danos ao DNA. O acetaldeído, uma substância tóxica gerada quando o corpo processa álcool, reage com o DNA, provocando mutações e alterações que podem levar ao desenvolvimento de tumores, especialmente na boca, garganta e esôfago, onde a concentração de acetaldeído é mais alta.

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Além disso, o álcool estimula a produção de radicais livres, que causam estresse oxidativo e dificultam a reparação do DNA, mecanismo ligado a cânceres como o de fígado.

Outros fatores também contribuem. O consumo de álcool altera a microbiota intestinal, enfraquece a barreira do intestino e aumenta a inflamação no corpo, elevando o risco de câncer colorretal. O álcool também reduz a absorção de folato, essencial para o DNA, mecanismo associado ao câncer de mama e outros tipos. Em mulheres na pós-menopausa, eleva os níveis de hormônios como estradiol e testosterona, aumentando ainda mais o risco de câncer de mama.

A ciência por trás dessa relação não é nova, mas tem avançado rapidamente. Desde 1988, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) já classificava o álcool como um carcinogênico do grupo 1 (reservado para as substâncias que mais impactam o câncer). Centenas de estudos e revisões científicas sobre álcool e câncer foram publicadas nos últimos anos.

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Por que tantos de nós não sabemos disso? Um fator é a pressão exercida pela indústria de bebidas alcoólicas para minimizar esses dados.

Um relatório recente da Academia Nacional de Ciências dos EUA, que deve influenciar as diretrizes dietéticas do país, reviveu a ultrapassada ideia de que o consumo moderado pode reduzir a mortalidade geral, embora reconheça um risco 10% maior de câncer de mama em mulheres. “Coincidentemente” esse painel incluiu pesquisadores (de Harvard) com histórico de financiamento pela indústria do álcool, que foram substituidos por outros dois cientistas com trabalhos semelhantes e também relacionados à indústria.

Na Europa, o lobby do vinho diluiu propostas do Parlamento Europeu que incluíam políticas de redução do consumo de álcool como parte essencial da prevenção ao câncer. Isso é um escândalo porque impede o público de tomar atitudes, relativamente simples, relacionadas à sua própria saúde.

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A resistência às informações sobre os riscos do álcool vai além das instituições; ela está profundamente enraizada na cultura, alimentada por décadas de marketing agressivo que associa, de forma enganosa, o consumo de bebidas alcoólicas à felicidade, diversão e alegria. Não é difícil imaginar a reação de alguns leitores ao se deparar com estas informações: “Ah, mas agora tudo causa câncer!”, “A vida já é curta, por que se preocupar?”, “Meus avós beberam a vida toda e viveram até os 90 anos”, “Meu tio nunca bebeu e morreu de câncer aos 30 anos”, “Um vinhozinho faz até bem para o coração” ou “A ciência vive se contradizendo”. Essas frases revelam uma negação quase automática, moldada tanto pela desinformação quanto pelo desconforto em confrontar hábitos que nos são familiares.

O objetivo aqui não é prescrever escolhas individuais, mas garantir acesso a informações científicas confiáveis e atualizadas, permitindo decisões conscientes. Considere o seguinte: mais de 70 mil novos casos de câncer de mama são diagnosticados anualmente no Brasil. Não seria essencial que as mulheres soubessem que reduzir ou eliminar o consumo de álcool pode diminuir significativamente o risco de desenvolver essa doença?

* Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp e autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto); foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia, nos EUA

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